domingo, 29 de janeiro de 2012

Farias hoje anos, pai...

Onde estarás?
Só depois de partires
É que melhor te conheci
E mais te amei.
Estás algures longe-perto.
Será que um dia nos vamos encontrar
Quando eu partir para esse lugar?
Amo-te.
Já partiste.
Tanto te amei.
Devia ter-te amado mais.
Mas há coisas que só vemos depois !
Tu sabes quais são! 
Tens escutado a minha voz.
E o meu pensamento.
Estás longe-perto !
-
In " Os caminhos do silêncio " - com ligeira adaptação.
-
Foto Google



terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Postagem dedicada a António Ramos Rosa



CAMPO E CORPO
-
Não houve antes nem haverá depois.
Quando inicia, se sopra a sombra, é uma
absoluta rosa que principia sempre.
À mesa de trabalho, a página é vazia.
A lua banha a brancura e um campo emerge  ténue.
O sangue tumultua, respira o mar suave.
-
Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue?
Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem
na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una.
Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo.
O campo que se alarga e que respira é corpo.
O corpo que ondula e se prolonga é campo.
-
O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo.
Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra.
Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol.
Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica
sem dentro e fora. Uma cadência solta
percorre uma área una. O sangue está no campo.
-
As árvores banham-se na limpidez do corpo.
Os animais saltam lúcidos e delicados
entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos
entre pedras. Nudez de corpo e campo.
A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra.
Campo e corpo uno. A mão pousa no monte.
-
 Respiro e danço com todo o corpo e campo.
Lanço-me com todo o corpo em pleno campo
e danço tranquilamente a absoluta rosa única
que formo pétala a pétala, rodando no seu centro.
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto.
-
In " A construção do corpo " - António Ramos Rosa
-
Conta-corrente 1 - Vergilio Ferreira:
-

" 1969. 26 - Fevereiro ( quarta ). Conversa pós-prandial com o Ramos Rosa num café. Que personagem curiosa este grande poeta. Claude Roy disse dele, salvo erro, que lembrava um Quixote surrado. Enganou-se de mundo, anda aqui por se ter distraído.  Porque ele nasceu para viver noutro lado onde não haja regras de trânsito, de disciplina, de subsistência. De modo que faz um esforço enorme para se acomodar. Um grande achado para ele foram as práticas do ioga ou coisa que o valha. O mundo em que circula desarranja-lhe os mecanismos interiores. E toda a sua preocupação é consertá-los. Mas ele a compor  e a realidade a estragar. Quando julga que venceu, fica radiante. Dias depois volta à oficina com o psíquico esmurrado. Não chegará nunca a tirar carta de condução no mundo.Hoje trazia outra descoberta: mastigar interminavelmente  um pedaço de alimento até sentir vómitos. Isso lhe afinaria o sabor para recuperar um paladar originário.E ria. Estava feliz. Nós alimentamo-nos tão estupidamente, com um paladar tão encortiçado. Ele quer restaurar cá, o sabor que deve haver talvez do lado de lá.  Encantado com a descoberta. E eu com o encantamento dele. Adorável poeta. Extraordinário poeta. "
-
Foto Google



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O canto triste e doce da terra amada

O transcendente fascina-me.
Toca-me.
Equilibra-me.
Harmoniza-me.
Completa-me.
Mas falo do transcendente que recebe e bebe as lágrimas do meu rosto,
as críticas da minha inteligência,
as dúvidas e fraquezas do meu espírito,
as forças vulcânicas e suaves e doces do meu coração.
Simbiose,
casamento
da terra sagrada,
conhecida,
amada,
cheirosa,
com o céu almejado do sonho dourado.
Céu feliz.
Terra agradecida.
Amor mais pleno não há.
O perfume tem um sentido,
aceite pela lonjura infinita
que escuta com olhos maternais
o canto  triste e  doce da terra amada.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Acho que é a voz da alma


A vida é feita de muitos caminhos.
Mas há um caminho que nos chama em segredo.
É uma voz de silêncio.
Acho que é a voz da alma.
Não sei se os outros sentem o mesmo.
Pobre alma cuja voz não é ouvida!
A minha, quando o é, 
Dá-me a sensação de plenitude.
É como se visse o meu rosto
Nas águas tremulamente iluminadas pelas chamas de uma fogueira.
Será real o que escrevo?
Não sei.
Mas o que sinto, é.
-
12/1/2012
-
Foto Google

sábado, 7 de janeiro de 2012

A diferença entre a vida e a morte !

Gosto das águas correntes contentes saltitantes refrescantes deslizantes...
Vede  como correm simplesmente livres na corrente bailando como se não houvesse tempo...
Vede como no mar tempestuoso não se lembram já de que foram rio...
Vede como as estrelas do céu nelas se reflectem, os peixes saltam felizes, quando o sol vence a bruma e a névoa se dissipa no ar limpo deixando perpassar a sinfonia doce da manhã...
Vede a diferença entre o movimento livre e cantarolante das águas e a placidez morna, morta, pachorrenta, saposa, dos charcos, dos pântanos, das barragens sujas, da monotonia dos dias, cenário de seres vivos desencantados, sem horizontes para além das margens, limites sem pontes...


Vede a diferença entre a vida e a morte...


-
In o meu último livro,  " Os caminhos do silêncio "

sábado, 31 de dezembro de 2011

Poema de Ano Novo: os cactos vermelhos solitários sobre as dunas



.A alma liberta no regaço da manhã
rejubila de luz intensa
a rasgar as crostas do cimento calcinado
sobre as raízes esmagadas dos sonhos violados.
As pedras, estremunhadas,  se remexem !

E as águas irrompem violentas, poderosas, puras, imparáveis, 
das gargantas desobstruídas da terra,
onde os cactos vermelhos, solitários sobre as dunas,
como sentinelas  ignoradas,
sorriem, esperançadas, 
não obstante a aspereza dos ventos,
a solidão agressiva das noites 
e o frio agreste das madrugadas!
.
Foto Google

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Poema de Natal

Simples como os homens do campo.
Bonito como os chalés da cidade.
Carregado com sonhos de amor, de justiça e de beleza,
O poema cresce universal.
O poema dança
Sem cobrar bilhetes 
Em cima de todos os continentes.
O poema é o sol que brilha em todos os corações,
Por que clamam  todos os invernos 
Quando a primavera se banqueteia 
Em noivado de sorrisos 
No regaço dos goiveiros.
O poema rosto triste da criança
Nas cinturas das cidades
Onde o Natal chega...
Mas não encontra empregos
Para a compra de casas, de comida,
De roupa e de brinquedos! ...
.
( In, " As palavras são de água " -  Edição Chiado Editora, 2009 )
.
( Foto Google )

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

E também já chegaram as cegonhas


( Ninhos situados à beira da estrada que liga Mértola a Castro Verde )

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

domingo, 11 de dezembro de 2011

Sem lembranças de nada

Que parte de nos é receptiva à essência das coisas, às palavras mais puras, à beleza das mensagens, à aceitação sem medo dos caminhos inimaginados, à abertura das cortinas longe do propósito de as abrir, é como se deixássemos de ser pesados no hábito de o sermos, é como se...não: é mesmo quando planamos sem o sabermos, quando estamos leves sem o pensarmos ser, é quando somos outros que outros olhos se abrem, não sei em que parte de nós é outra a consciência, outro patamar do ser. É então que as coisas sublimes (me) acontecem. Sem explicação. Com uma realidade própria. Leves e sábias. Envolvido nelas, como se corpo em nuvem, sou pureza de musgo e alga, dentro e fora, apenas luz, sem lembranças de sombras. Sem lembranças de nada!
País, de que mundo?
Consciência, de que vida?
Não sei.
Apenas que faço parte de que mistério(?), quando disso nem me lembro, me vejo viajando no mundo em que passo, mas tão leve me sinto, que dou um passo, sem limite nem de tempo, nem de espaço... In " Os Caminhos do Silêncio "

domingo, 27 de novembro de 2011

As palavras, se sentissem e pensassem...

As palavras, se sentissem, e pensassem, diriam que andam às voltas; que se afastam e se aproximam; que rodeiam e se distanciam dos bosques justificativos da vida; que ora estão perto ora estão longe do fogo a debelar; do gelo a derreter; do vazio a preencher; das lágrimas a dulcificar; dos muros a destruir; das confusões e conflitos a clarificar; das solidões a preencher com a alegria dos abraços.
As palavras sabem, e não percebem, e não têm culpa dos afastamentos, estando tão próximas do regaço do amor, do renascimento do sol, que espera, ansioso, pela manhã da ressureição !
As palavras são testemunhas do desperdício com que as desperdiçamos!
Elas preferem, apesar de serem palavras, ouvir o silêncio festivo, ao sacrifício de serem utilizadas como marionetas nos becos e labirintos das dores e das mágoas!
Tenho por isso com as palavras esta cumplicidade de as saber amantes compassivas e, desarmado pela sua sabedoria, sinto que lhes devo a obrigação de restituí-las ao que prezam mais: o receberem-me, com sílabas de sorrisos rutilantes, na casa da harmonia, até onde me desejam conduzir, apelando e estimulando a minha coragem, compaixão e amor.
Lx, Nov/2011

domingo, 6 de novembro de 2011

Apresentação do livro, " Os caminhos do silêncio"

A mesa. Com o livro. À espera dos amigos.
Marisa. Da Chiado Editora. No uso da palavra.
A minha amiga, Isabel Mendes Ferreira. Prefaciadora do livro. Sempre com poder de síntese. E com palavras de oiro.
Eu, falando sobre a minha poesia.
E lendo dois poemas.
A minha filha, Rita, também leu dois poemas.
A sala estava cheia de amigos. A família dos afectos.
Obrigado.
As outras fotos vão ser enviadas por mail para os amigos presentes.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Chuva, antiga...

Chove e gosto; e sinto, sempre, que o som da chuva é muito antigo; e que chove sobre a terra, sobre mim e sobre o mundo, e eu sou a terra, o mundo, o tempo, a chuva e o som da chuva. Há, no som da chuva, que cai sobre mim, ao ouvir a chuva, o tempo da chuva e o tempo do mundo e o tempo do tempo e o tempo de mim!...
É como se eu fosse da idade da chuva, da idade da terra, da idade do mundo, da idade do tempo, e por isso não me basta dizer: chove, e é bom ouvir a chuva, etc... Porque algo me faz lembrar o inlembrável e ao dizer isto sei que não é construção da mente para efeitos estilísticos...Não! ...É sentimento. Antigo. Como a chuva. E o tempo...
Desde quando choves, chuva, e sobre mim roças lembranças que não desvendas?!... -
In " Os caminhos do silêncio"- a ser apresentado em 5 de novembro, em Lisboa.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Não há lágrimas mais puras!

Tudo fica em mim
Pedra me edifica
Flor
Nervura de folha
Desenhos gravados nas conchas
Músicas legadas aos corações dos búzios
Dores, mágoas, promessas não cumpridas,
Desejos não satisfeitos,
Encruzilhadas, becos,
Bosques inventados em caleidoscópios de magia
Mas que o sol cru de uma manhã
Ou o vento agreste de uma noite
Ou as circunstâncias que a poesia não descreve
Bolinhas de sabão embatem contra as rochas...
Mas tudo fica no coração do poema
Atordoado
Sublimado
Sublime
Doce amado poema
Do amor mais puro que há
Perfume que as almas cheiram
Em cálices de suavidade sorridente
Bálsamo de perdão
Não verbalizado:
Não há culpas
Face aos enigmas poderosos
Que atravessam as nossas vidas!
Perante elas me inclino
No labirinto
Dos versos
Gravados nas paredes das grutas
Por onde passo alado
E digo:
- Não lágrimas mais puras
Mesmo com resíduos de mágoas
Nem sorrisos mais cristalinos
Nem silêncios mais carinhosos
Do que estes que ouço
À medida que vou escrevendo o meu poema...
-
In " Os caminhos do silêncio"
( a ser apresentado em Lisboa, em 5 de Novembro )

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O meu livro, " Os caminhos do silêncio".

Prefaciado por Isabel Mendes Ferreira, o livro, " Os caminhos do silêncio " ,será apresentado no dia 5 de novembro, pelas 15 horas, na Livraria/Bar, Les Enfants Terribles, Rua Bulhão Pato nº 1, em Lisboa ( ao lado do Teatro Maria Matos, junto à Av. de Roma ).
Na capa do livro pode ler-se a seguinte frase de Maurício Maeterlinck:
" As almas pesam-se no silêncio, como em pura água se pesa o oiro e a prata; e as palavras que pronunciamos não têm outro sentido senão o que procede do silêncio em que imergem".
Na contra-capa, pode ler-se o seguinte poema meu:
É importante escutar o que dizem os pássaros,
a voz do mar,
os sentimentos do vento,
a sonata do luar,
o namoro das pedras com as águas,
a sinfonia dos canaviais,
o rumorejar dos pássaros
antes do anoitar dos bicos
debaixo dos sovacos das penas...
Tantas palavras que escrevo para dizer
que isto é mais importante
do que os pensamentos ardilosos
que te povoam a mente
e com os quais, se dizes que sentes
a sábia música do silêncio...
mentes! ...
.
Espero nesse dia pelos meus amigos, que possam estar presentes.

domingo, 2 de outubro de 2011

Destino

Regresso sempre ao colo do silêncio!
Não te sei explicar!
Sou como as águas do rio,
Que têm como destino o mar... -
In " Os caminhos do silêncio". Chiado Editora.
Apresentaçao em 5 de Novembro. Em Lisboa.
-
Foto minha

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

NUDEZ

Terra nua com luz intensa e fresca ao longo dos revezes da lonjura. Regaço ilimitado, sem refúgios, esconderijos, encontros secretos, recolhimentos de oração. Nudez plena. Plana. Rasa. Deserto. Com poços de água fresca e pura. Meu bosque de brancura. Com todas as cores. E sombras. E portas. E janelas. Abertas. Laranja inexpugnável.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Outono, chegaste...

Já o sabia ! : as árvores já mo tinham dito, e o vento, lembrado! Já o sabia pelo escorregar dolente do sangue nas ânsias do meu corpo, pelo roçar lasso e ronronante com que as palavras se deleitavam no colo quente do poema, pela vontade silenciosa de imitar as árvores, ficando como elas languidamente recolhido, mesmo face ao desejo: um torpor, um adormecimento, uma aceitação de placidez, uma preferência suave e leitosa pela criança em detrimento do ser amante, fogoso...
Vem, Outono! Preciso de outras cores que tu trazes, e me acalmam, e me harmonizam com o universo. Dá-me o teu castanho claro, o teu amarelo torrado, o teu laranja de sol macio. Dá-me a suavidade que se respira nas tardes breves, a moderação e a sapiência que fornecem a energia às árvores para as tempestades do inverno, a maturação da uva que fica à espera da hora adequada para o vinho ser bebido em copos merecidos...
Preciso da tua concha, Outono! Não é hibernação, não! É o ritual adequado ao ritmo d0 meu corpo humanamente grandioso, como se fosse - e é - divinamente consagrado...É o regresso anual às nascentes do ser, ao tempo da criatividade maior, em que mais novo sou, seja qual for a idade que tiver, porque me aproximo do momento em que nasci, em que vou rever a minha estrela, encher-me da seiva do universo de onde vim: esperma de amor, baba de orvalho, carícias de átomos e de tudo o que é germinação latente no ventre da terra.
Assim me fazes renascer, Outono, e me preparas para o inverno, para todos os Invernos, violentos, sim, mas belos, e eu fico munido então, com as armas do amor pleno...
-
In, "Os caminhos do silêncio" - Foto Net

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Como não sorrir sequioso...

No fim sem fim dos caminhos fatigados
Surpresa e dolorosamente renascidos
Nos interstícios das rochas
Nos becos labirínticos das grutas
Nos recantos espinhosos dos conflitos
Brisas subterrâneas sibilinas
Pétalas de esperança, beijos, carícias, aromas
Para além das curvas sombrias dos túneis
Tão longo o caminhar em direcção à sinfonia das ondas!
Como não sorrir sequioso
Para o sorriso materno da manhã
Ou deitar-me no colo das areias despidas
Mas tão cheias à beira do mar?
-
In "Os caminhos do silêncio "
-
Foto minha

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

MAR

1. É preciso imaginar o que dizem os búzios.
É preciso imaginar o que dizem os búzios. Que conhecem os segredos do mar. Que o mar não deixa contar. Fica apenas um cantar soturno. Um lamento cavo e difuso. O estrondo prolongado do choque violento das vagas contra as tábuas dos barcos que submergem e com os barcos as mãos que acenam e imploram e dizem adeus. Os lábios que se beijam. Os corpos que se enlaçam. Os olhos que se fecham. Os choros e os gritos estrangulados na garganta das águas inclementes. Os sonhos acabados de nascer e sepultados no fundo do mar para sempre...
Eis o que dizem os búzios. Ou imagino que diriam. Se pudessem falar... -

2.

Já sei porque gosto do mar. Sou como ele, violento e calmo e solitário e acompanhado por todos os segredos, mistérios e sentimentos do mundo.

3.

De novo junto do mar, e sempre...já não apanho conchas, as raras, as mais lindas, como costumava dizer.

Limito-me a olhá-las, a acariciá-las,com amor e respeito e penso: não são minhas, são do mar que eu amo.

E sei que isto é assim, porque cresci e envelheci.

E acho que está bem a doçura do que sinto.

4.

Afinal, apanhei mais uma concha

Não fui eu que a escolhi

Foi ela que me escolheu

Vá-se lá saber porquê...

5.

Olhos de camelo vassourando a lonjura do deserto

Assim a gaivota grande de papo branco baloiça sobre as águas azuis e rasas e calmas do mar

Solitária esbelta e livre

Levanta voo brioso

E segue o parceiro que a chama

No voo alucinante sobre as águas...

Foto Net

terça-feira, 30 de agosto de 2011

De mãos dadas...

De mãos dadas com a vida e a morte,
Casado com o vento,
Sou rio,
E percebo a serenidade das cegonhas,
Com as asas abertas,
Protegendo-me as margens...
-
In " Os caminhos do silêncio "
-
Foto Net

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Barcos vazios com remos à espera

Pontes destruídas
Caminhos abandonados
Destinos
Que são sombras
Ilhas
Na ilha
Espreitando outras sombras
Nas areias do outro lado!...
.
Separando as sombras
Água vivas
E muitos barcos vazios
Com remos à espera
E pássaros incansáveis
Cantando a melodia dos abraços
Entre as margens!...
.
In " Os caminhos do silêncio "
.
Foto Net

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sobre os seixos da vazante

É luz a música dos pássaros
No teclado dos ramos
Ou nas folhas dos plátanos.
Que poema descreve
O cantarolar do riacho
Na garganta das pedras
Ou que palavra
No silêncio das noites de Agosto
A catarata das águas
Sobre os seixos da vazante
E as montanhas de xisto
Vestidas de silêncio
E eu deitado na tenda
Com todos os sonhos do mundo
Nada sabendo da vida
Deleitado na música das águas
Com a lua mexendo nos bicos dos cerros
E sem saber
Que esta música
E este silêncio
Ficariam para sempre no meu coração!...
-
In " Os caminhos do siêncio" -a publicar
-
Foto minha tirada em S. Tomé.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Poema de Graça Pires

Todas as palavras são adequadas
para evocar os dias para serem agarrados
à cal da casa onde nascemos.
Quase nada sei a meu respeito
desse tempo tão claro em que as sombras
eram apenas a antecipação da noite.
Tento imitar aquela inocência
próxima da brancura dos lírios
e do frémito do rio abraçando o mar.
Torna-se difícil encontrar os sinais
sobreviventes da memória: a prata do chocolate
pacientemente alisada, as velas dos moinhos,
as cerejas carnudas, a roupa a corar sobre a erva,
a claridade das mãos da minha mãe
carregadas de tarefas e de presságios.
-
In " A incidência da luz " - de Graça Pires.
Com prefácio de Isabel Mendes Ferreira.
E Posfácio de Alice Macedo Campos.
-
Foto Net

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Longe de ser eu

Longe de ser eu
As águas não são claras
Mesmo que o poema seja belo
E o beijo seja ardente.
Longe de ser eu
Estou longe da nascente. -
.
Im " As palavras são de água " _
A foto é de Piedade Sol, a quem agradeço

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Diria a criança se pensasse como os homens!

Tudo é puro nos olhos limpos da alma,
bico de ave
com asas leves.
Assim nasce a criança no
regaço da manhã.
Tudo é sem abrigo, nudez plena,
frutos auto-suficientes sobre a terra.
As tardes são calmas.
Nas noites acenam as estrelas.
Nem sonhos há!
Tu és o sonho
que te ouves sem saber
no sonho!...
E as águas cantam nos regatos,
luminosas,
contentes...
- Assim devia ser o mundo! -
diria a criança se
pensasse como os homens!
-
In " Os caminhos do silêncio " - a publicar
-
Foto minha. S. Tomé.

domingo, 10 de julho de 2011

Cavalgando as sílabas do silêncio

" O tempo de escrever como outro
tempo
largo e de lago
espelhado em mil distâncias
e montanhas" - ana luísa amaral -
in " Entre dois rios e outras noites"
-
Preciso do tempo para o meu tempo como se não tivesse ( houvesse ) tempo. Único espaço onde respiro e me sinto livre. Nem preciso de espelho para me ver o rosto que tenho e ser a respiração que respiro. Pode existir ruído, mas só o silêncio se ouve. Catedral de espaço ilimitado. Autenticidade cinzelada a sulco de lâmina no jade mais profundo e puro. Arco luminescente giza o discurso língua vibrante entre o céu e a terra, entre as águas e o fogo, entre a vida e a morte. No céu desta boca de lume me vejo e falo e me atasco leve e me voo semente na terra amada e sulco as águas bote por janelas de vagas onde assomo as corolas ronronantes do mistério. No centro dessa boca ventre sou eterna criança não nascida com memórias sem palavras e receios de esquecimentos de um tempo ainda por nascer! Mas tudo decifro cavalgando as sílabas do silêncio que enche como almas velhas ondulantes o espaço sem tempo da catedral sem nomes, diluídos nos altares do amor pleno...
- In " Os caminhos do silêncio ", a publicar - Foto de Frutuosa Santos

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Chuva, antiga...

Chove e gosto; e sinto, sempre,que o som da chuva é muito antigo; e que chove sobre a terra, sobre mim, e sobre o mundo, e eu sou a terra, o mundo, o tempo, a chuva e o som da chuva. Há, no som da chuva, que cai sobre mim, ao ouvir a chuva, o tempo da chuva e o tempo do mundo e o tempo do tempo e o tempo de mim!...
É como se eu fosse da idade da chuva , da idade da terra, da idade do mundo, da idade do tempo, e por isso não me basta dizer : chove, e é bom ouvir a chuva, etc...Porque algo me faz lembrar o inlembrável e ao dizer isto sei que não é construção da mente para efeitos estilísticos...Não!...É sentimento. Antigo.Como a chuva. E o tempo...
Desde quando choves, chuva, e sobre mim roças lembranças que não desvendas?
-
In " Os caminhos do silêncio", a publicar.

terça-feira, 21 de junho de 2011

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sem lembranças de nada.

Que parte de nós é receptiva à essência das coisas, às palavras mais puras, à beleza das mensagens, à aceitação sem medo dos caminhos inimaginados, à abertura das cortinas longe do propósito de as abrir, é como se deixássemos de ser pesados no hábito de o sermos, é como se..., não: é mesmo quando planamos sem o sabermos, quando estamos leves sem o pensarmos ser, é quando somos outros que outros olhos se abrem, não sei em que parte de nós é outra a consciência, outro o patamar do ser. É então que as coisas sublimes (me) acontecem. Sem explicação. Com uma realidade própria. Leves e sábias. Envolvido nelas, como se corpo em nuvem, sou pureza de musgo e alga, dentro e fora, apenas luz, sem lembranças de sombras. Sem lembranças de nada!
País, de que mundo?
Consciência, de que vida?
Não sei.
Apenas que faço parte de que mistério ( ? ) , quando disso nem me lembro, me vejo viajando no mundo em que passo, mas tão leve me sinto, que dou um passo, sem limite nem de tempo, nem de espaço...
-
Lisboa, 25/8/2010
-
" Os caminhos do silêncio"