terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Até ao Novo Ano

Esta será a minha última postagem deste final de ano de 2009 em São Tomé. Vou dedicá-la ao último passeio que fiz, rumo a uma zona isolada e apenas acessível via mar, chamada São Miguel, vila outrora habitada. Para lá chegar fomos de carro da cidade até Santa Catarina, a povoação onde acaba a estrada. Aí, combinámos com um pescador, para nos levar de canoa até São Miguel, pagando-lhes nós o combustivel do pequeno barco. Não sabia eu que a viagem iria demorar quase duas horas para ir e mais outras duas para regressar... Mas assim foi. Sob o sol bem quente e uma paisagem magnífica junto à costa, rumámos pelo mar, cada vez mais longe, onde só os pescadores e vinhanteiros vão...São Miguel. Lá, numa enseada tropical, estão construidas pequenas barracas de madeira junto à praia, onde ainda vivem isolados do mundo uma mulher e sua filha, mais uns vinhanteiros - homens que apanham o vinho da palma - que por lá ficam temporariamente alguns meses e vão vender o vinho a Santa Catarina. Apenas uma vez por ano, em Setembro, aquela zona se volta a encher de gente, que numa rumaria da festa de São Miguel passam lá o dia, onde é celebrada uma missa na pequena capela que ainda por lá permanece. Mal chagámos, começamos a subir a encosta onde nos disseram que há muita cobra preta, rumo à capela que estava escondida no meio da vegetação. Capela essa que nada mais é que outro pequeno casebre a cair, mas com a imagem do santo no interior onde ainda muita gente vem pagar promessas. Pelo caminho ainda falámos um pouco com 3 rapazes vinhanteiros que nos perguntaram pelo resultado do jogo de futebol entre o Benfica e o Porto... Como não tinhamos tido energia na noite anterior não lhes pudemos responder, apesar de lhes ter dito que provavelmete ganhara o Benfica, ao qual um dos rapazes ficou todo contente :) Para meu espanto, nessa noite em casa, percebi que o jogo de futebol ainda não tinha acontecido, era nessa mesma noite! No entanto, não me enganei no resultado...! Ainda pelo passeio, andámos pela praia e conhecemos as senhoras que lá vivem sozinhas, um cão e algumas galinhas. Pensei no que seria lá passar uns dias sem nada de nada... Final da história e reencontramo-nos em 2010! Beijos e saudades, Rita

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Que o novo ano seja NOVO!

Aprendizagem permanente. As desilusões - sempre, ainda! - no desboroar das aparências. Tantas maldades cândida e principescamente enroladas em embrulhos de pequenos, quantas vezes, imperceptíveis gestos, insinuações, silêncios, chantagens , traições...Tanta inflação de palavras nobres no fim das quais ficamos atónitos no palco vazio, ou na rua cheia de pessoas apressadas, que procuram apenas que olhem para elas, que as mimoseiem, mas que se desviam do corpo pedinte, e do olhar suplicante: podia estar morto ali na avenida, à hora de ponta, quantos o levantariam e perguntariam: quem é? quem foi? ...Na hora da verdade, da dor ou da alegria, quantos amigos de palavras tão belas, tão amigos, com versos retóricos de flores e de mar, aparecem ao teu lado e em silêncio te olham sorrindo sem se rirem, pondo uma rosa na lapela do teu coração?! Nada de novo. Aprendizagem permanente. Há apenas que ver se errámos menos, se lavamos mais facilmente as mágoas, se perdoamos com mais facilidade...mas se ...jogamos fora, como lixo, certas palavras e certos caminhos... Que o novo ano seja um ano NOVO... Eduardo Aleixo

sábado, 26 de dezembro de 2009

Falo da semente da fala

Cada som da palavra seja gota
Do sangue que a fala,
Sem ela não viva
Como barco sem vela
Como ar
Se nos faltasse.
Fala, canta, dança, pinta, cala,
Mas como se morresses
Em cada fala
Em cada canto
Em cada dança
Em cada tela
Em cada respiro de silêncio!
O resto...está a mais,
Nem máscara é!
Tão longe do ar,
Da água,
Do perfume,
Do incenso...
Ouve:
Até do suor está longe
E do sexo
E do amplexo da pele
Que até os anjos podem invejar!
Falo da semente da fala
Da fonte
Onde todos ajoelham
E com sede
Nem falam!
-
Eduardo Aleixo
-
( Os caminhos do silêncio )
- ( Obrigado, Frutuosa Santos, pela foto )

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Mensagem de Natal

ABRAÇOS.

Eduardo Aleixo

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

NATAL

( Foto, S. Tomé e Príncipe )
POEMA
-
Simples como os homens do campo.
Bonito como os chalés da cidade.
Carregado com sonhos de amor, de justiça e de beleza,
O poema cresce universal.
O poema dança
Sem cobrar bilhetes
Em cima de todos os continentes.
O poema é o sol que brilha em todos os corações,
Por que clamam todos os Invernos
Quando a Primavera se banqueteia
Em noivado de sorrisos
No regaço dos goiveiros.
O poema rosto triste das crianças
Nas cinturas das cidades
Onde o Natal chega...
Mas não encontra empregos
Para a compra de casas, de comida,
De roupa e de brinquedos!...
-
Eduardo Aleixo
-
In " As palavras são de água "

sábado, 19 de dezembro de 2009

Poema de Natal

Natal de quem?

-

Mulheres atarefadas

Tratam do bacalhau,

Do perú, das rabanadas.

-

- Não esqueças o colorau,

O azeite e o bolo-rei!

-

- Está bem, eu sei!

-

- E as garrafas de vinho?

-

- Já vão a caminho!

-

- Oh, mãe, estou pra ver

Que prendas vou ter.

Que prendas terei?

-

- Não sei, não sei...

-

Num qualquer lado,

Esquecido, abandonado,

O Deus-Menino

Murmura baixinho:

- Então e Eu,

Toda a gente Me esqueceu?

Senta-se a família

À volta da mesa.

Não há sinal da cruz.

Nem oração ou reza.

Tilintam copos e talheres.

Crianças, homens e mulheres

Em eufórico ambiente.

Lá fora tão frio,

Cá dentro tão quente!

-

Algures esquecido

Ouve-se Jesus dorido:

- Então e Eu,

Toda a gente Me esqueceu?

-

Rasgam-se embrulhos,

Admiram-se as prendas,

Aumentam os barulhos

Com mais oferendas.

Amontoam-se sacos e papeis

Sem regras nem leis.

E Cristo Menino

A fazer beicinho:

- Então e Eu,

Toda a gente Me esqueceu?

-

O sono está a chegar.

Tantos restos por mesa e chão!

Cada um vai transportar

Bem-estar no coração.

A noite vai terminar.

E o Menino, quase a chorar:

- Então e Eu,

Toda a gente me esqueceu?

Foi a festa do Meu Natal

E, do princípio ao fim,

Quem se lembrou de Mim?

Não tive tecto nem afecto!

-

Em tudo, tudo, eu medito

E pergunto no fechar da luz:

- Foi este o Natal de Jesus?!!!

-

Poema de João Coelho dos Santos, in: " Lágrima do Mar - 1996 - O mais belo poema de Natal

-

O poema foi-me enviado pela minha querida amiga, Frutuosa dos Santos, a quem agradeço.

-

As fotos são do Google.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Bote confiante no mar misterioso...

O que faz mover a tua mão? ! -
Que sabedoria existe
Para além do que te ensinaram
Ser o pensamento?!
-
Que parte de ti sente
Ser maior do que alguma vez
Terias capacidade de imaginar
Se tivesses essa capacidade?!
-
Como podes ignorar a força
Estranhamente poderosa
Que te move
E te faz bote confiante no mar misterioso
Com vagas alterosas,
Onde buscas
E sempre encontras,
Deslumbrado,
As palavras luminosas?...
-
Eduardo Aleixo
-
Os caminhos do silêncio
-
Foto Google

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A poesia de Isabel Mendes Ferreira ao som imaginado das teclas do seu ...PIANO (1)

- 1. O fermento e o chão ------------- em cada dezembro

------------------ pediste-me uma asa. dei

o coração. fora de qualquer tempo

ou temática sem enredos nem

poços nem geografias digitais. apenas

o fermento dos dias submersos, indissonantes

e caminheiros, uma

terra e um céu, duas asas e toda

a sementeira. e mesmo que as ervas

nos sejam avessas nada

muda, ungir a corrente dos dias

é o que faço, em silêncio, que te

solto no amargo e no doce, como

o mais intemporal dos fermentos.

-

vegetal e aéreo este dezembro de asa, osso e coração.

---------

2. momentos de pluma------------e de lume

momento errático

-

----------- é neste momento sem hora explícita que me faço transição, de nenhum lugar

para nenhum outro. apenas fogo e jogo. jogo de desencontros singulares. solidão do

"ante-mundo" sem marés nem luas nem vales. nem estepes. esfera. espera. in.rolante

espaço desimportante de onde me transito----------- eremita das horas. simbiose das mãos

descritivas e extremas, um momento branco. intransitável. irrisório e convexo. não me

digas que estou ilegível, sou. estampa aguda de heresias. uma carta sem rodeios nem

apelos. incerto o instante que desacerto neste aperto. alquímico. a realidade tem o

preço gasto. consumido pelo excesso. excesso-me rente ao chão. lá fora só existe tempo.

e cego. cego este tempo. não me entendes.

dizes. nem

eu ------------este dezembro é um fio. intermitente. extinto coral onde me sou vulto.

re.fragmento-me

-

Isabel Mendes Ferreira

( Fotos tiradas em S. Tomé e Príncipe )

-

(1) http://mendesferreira.blogspot.com

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Porque... chegou o tempo!

(Foto de Lucy, que agradeço: http://lucy-natureza.blogspot.com )
-
Não é porque seja noite
Ou a chuva caia!
Podia ser de dia
Com o sol rutilante a causticar o chão de pedra.
Mas o que tem de acontecer
Acontece seja qual for o tempo
E o momento!
Acontece como se fosse uma carta atirada
Pelas mãos do vento!
E então,
Quando o vento passa,
Como um cavalo a galope
E este se afasta,
É no silêncio que fica
Que os olhos... olham,
A atenção... atenta,
A memória... lembra os pequeníssimos detalhes
Como fios de teias
Urdidas nos labirintos e nos becos do tempo...
E faz-se luz!
Completamente!
Mesmo que seja noite e faça vento...
Porque... chegou o tempo!
-
25/11/2oo9
( Os caminhos do silêncio )

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Apresentação de "As palavras são de àgua" na Feira do Livro, em Mértola.

Os elementos da autarquia, ao centro ( Mário e Sandra ); e o Pedro - que me apresentou - e eu, nos extremos.
Imagens do público amigo presente.
Lendo alguns poemas, com destaque para um, referente ao que sinto quando, passados estes anos , vou à minha terra...
-
O significado das raízes
Só os cerros recortados contra o céu
Parecem os mesmos da minha infância!
Já as águas do rio, no vale, não são transparentes como eram.
Há peixes que desapareceram
E não sobem nas águas de Março.
Nos postigos fechados da vila antiga,
Alcandorada na encosta íngreme,
Assoma o rosto do silêncio.
O que vejo, mas não conheço,
São os filhos e netos da minha geração de amigos,
Alguns já mortos.
O que significa que o tempo foi correndo,
A poluição conspurcou as águas
E fui envelhecendo.
Hoje, sou um estrangeiro no cenário em que fui, como actor,
Um sonhador dinâmico,
Mas onde sinto que só as raízes das árvores escutam o meu canto!
Olho para elas com outros olhos
E compreendo melhor o significado das raízes!
-
Eduardo Aleixo ------------- Mértola, 21 de Novembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Convidado deste mês: Manuel da Fonseca

1. Sol do mendigo
( Foto de Lucy, a quem muito agradeço )
-
Olha o vagabundo que nada tem
e leva o Sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o Sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira...
Pela manhã acorda tonto de luz.
Vai ao povoado
e grita:
- Quem me roubou o Sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios
rosnam:
- Que grande bebedeira!
-
E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o lado,
dorme,dorme...
-
2. Serenata
-
Meninas casadoiras que mostrais as prendas, da janela,
fechai a janela quando eu passar
que eu só trago amor para vos dar.
E mais que amor
só as minhas histórias de vagabundo
e o meu desejo de ir embora pelo mundo...
...a vida é tão pouca
e o mundo é tão grande
que terra aonde eu passe não posso voltar.
Meninas casadoiras,
uma de vós, esta noite,
esqueça tudo que lhe ensinaram,
abandone o bordado e o estudo do piano
e seja mulher, simplesmente mulher.
Então ninguém mais do que eu terá tesouros para vos dar!
Mas se de vós todas, nenhuma quiser,
ó meninas casadoiras que mostrais as prendas, de janela,
fechai a janela quando eu passar...
-
3. Aldeia
-
Nove casas
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.
-
Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.
-
4. Estradas
-
Não era noite nem dia.
Eram campos, campos, campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheios de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era a hora do poente.
Quase noite e quase dia.
-
E nos campos, campos, campos
abertos num sono quieto
sequer os passos de Nena
na branca estrada se ouviam.
Passavam árvores serenas,
nem as ramagens mexiam,
e Nena, pra lá do morro,
na curva desaparecia.
Já da noite que avançava
os longes escureciam.
Já estranhos rumores de folhas
entre as esteveiras andavam,
quando, saindo um atalho,
veio à estrada um vulto esguio.
Tremeram os seios de Nena
sob o corpete justinho.
E uma oliveira amarela
debruçou-se da encosta
com os cabelos caídos!
Não era ladrão de estradas,
nem caminheiro pedinte,
nem nenhum maltês errante.
Era António Valmorim
que estava na sua frente.
-
Nena de Montes Velhos,
se te quisessem matar
quem te havera de acudir?
-
Sob o corpete justinho
uniram-se os seios de Nena.
-
- Vai-te António Valmorim.
Não tenho medo da morte,
só tenho medo de ti.
-
Mas já a noite fechava
a saída dos caminhos.
Já do corpete bordado
os seios de Nena saíam
- como duas flores abertas
por escuras mãos amparadas!
Ai que perfume se eleva
do campo de rosmaninho!
Ai como a boca de Nena
se entreabre, fria, fria!
Caíu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas
e sobre a sua cabeça
o céu de estrelas se abriu!
-
Ao longe subiu a Lua
como um Sol inda menino
passeando na charneca...
Caminhos iluminados
eram fios correndo cerros.
Era um grito agudo e alto
que uma estrela cintilou.
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos, campos, campos
abertos de espanto e sonho...
-
Manuel da Fonseca
( In Obra completa, Obra Poética )

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Poema de Ausenda Hilário

( Foto: praia na ilha de S. Tomé )
-
Corpo de mar(é)
-
Deixem-me amar o mar
Comer as algas, expurgar a lama
Deixem que o mar me ame
E me aclame sobrevivente
-
Deixem que a pele se queime
Na lonjura do sol e da saudade
Renascendo asa de coral
E o meu abrigo
-
Deixem que a boca cuspa
Lodos de preconceito
E que o meu leito
Seja terra espargida de causa
-
Deixem que as mãos naufraguem
No rosto de luz das marés
Abram de espuma as estrelas
E deixem chorar o mar
-
Deixem que nada ou as ondas
Se alastrem no meu peito
E que o meu corpo...
Seja sempre esse mar salgado!
-
Ausenda Hilário, in, " Entre o Sono e o Sonho " - antologia de poesia contemporânea - Volume II - Chiado Editora
-
Utopia das Palavras - http://poemas76.blogs.sapo.pt

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Poema de Graça Pires

No meu país havia marinheiros
com braços de tempestade.
Havia um cais e um sonho
ateado em cada mastro.
E havia no vento o chamamento do mar.
Havia no meu país o voo antigo dos pássaros
para adivinhar a sina dos homens.
O mistério do sangue e do parto
e o uivo das fêmeas em noites com lua
havia também no meu país.
No meu país havia a terra e a memória
e os cantares de amigo
e a pressentida eternidade das palavras.
-
Graça Pires, in " O silêncio: lugar habitado "
( Prémio Nacional Poeta Ruy Belo )
( Foto de Lucy, que agradeço: http://lucy-natureza.blogspot.com )

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Diria a criança, se pensasse como os homens...

Tudo é puro nos olhos limpos da alma,
bico de ave
com asas leves.
Assim nasce a criança no
regaço da manhã.
Tudo é sem abrigo, nudez plena,
frutos (auto)suficientes sobre a terra.
As tardes são calmas.
Nas noites acenam as estrelas.
Nem sonhos há !
Tu és o sonho
que te ouves sem saber
No sonho!...
E as águas cantam nos regatos,
luminosas,
contentes...
- Assim devia ser o mundo!, -
diria a criança se
pensasse como os homens...
Eduardo Aleixo
(inspirado no comentário feito em 4/8/20o9,em http://paulo-intemporal.bogspot.com/
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Foto de Frutuosa Santos, a qum agradeço
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Poema

O mar...
onde procuro
não perder
as águas
do meu rio...
Eduardo Aleixo
( Foto cedida por Lucy - http://lucy-natureza.blogspot.com/ )

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Destino

Regresso sempre ao colo do silêncio!
Não te sei explicar...
Sou como as águas do rio,
Que têm como destino o mar...
( Os caminhos do Silêncio )
Eduardo Aleixo

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O que José Régio escreve sobre Camilo (3)

« O romance de Camilo participa do folhetim, participa do panfleto, participa da crónica, participa do comentário, divagação ou confissão pessoal, participa, como já foi dito, do que geralmente chamamos novela, e até do que, num sentido técnico fixado, geralmente chamamos romance. É, pois, irregular e compósito - , no que em certa medida se avizinha do romance moderno. Visivelmente, a personalidade e os humores de Camilo dominam o seu romance: impõem-lhe uma técnica desigual, volúvel, diversa, caprichosa, livre ( ou licenciosa ) como essa mesma personalidade, esses mesmos humores. Neste sentido é Camilo um mestre que pode servir como exemplo, ( até como representante de certo pendor português para a improvisação e a confusão ) mas não pode conquistar discípulos aos quais ofereça regras que não tem ele próprio. Só a sua personalidade poderosa e desconcertante comanda a técnica do seu romance, - em virtude do que tem aqui a expressão técnica um sentido que muitas vezes se lhe há de reconhecer em arte, qual é o de modo pessoal de realização. Estudar, pois, o seu romance é em larga medida relacioná-lo com a personalidade que tão violentamente o condiciona; - ainda que a não perscrutemos, essa personalidade, senão através dos aspectos ou dados fornecidos pela própria obra. Bom exemplo nos é ( ou seria ) essa obra de como é possível tudo ignorar, historicamente, dum autor, ou esquecer a sua biografia, sem renunciar a uma relacionação do conteúdo psíquico da criação com uma hipotética psicologia do criador. Se nada soubéssemos de Camilo, de Dostoievski, de Chateaubriand, etc, - pelas suas simples obras já muito saberíamos deles; até das respectivas idiossincracias. Nessa relacionação nos podemos fundamentar para o estudo de vários pontos capitais duma criação artística. Do seu estilo, por exemplo, - o que viria ao encontro da conhecida sentença : « o estilo é o homem». » -------------------------------------- « O comediógrafo, o versejador, o historiador, o cronista, o apreciador literário, esfumam-se, em Camilo, perante o romancista e o novelista. Não quer isto dizer que sejam sem interesse, e devam ser esquecidos, ou passados de relance, num estudo completo da sua obra. Porém o polemista mantém-se resistente; e a razão é simples: Na polémica exercita Camilo, sem as baixar de grau, algumas das forças que caracterizam o seu romance, e a que só agora nos podemos referir com relativo vagar. Falamos do seu sarcasmo; do seu dom de fazer ver ridículo e grotesco; do seu poder de troça, caricatura, paródia; da sua extraordinária fantasia cómica.
Efectivamente, desde sempre mais ou menos se reconheceu a Camilo o talento de fazer rir a par do de comover. Nenhuma contradição fundamental entre as duas faculdades, pois ambas as duas nascem directamente da extraordinária sensibilidade do artista. Se atendermos a que, tanto pelo seu mesmo excesso como pelos seus motivos ou objectos de vibração, poderá tal sensibilidade ser tida por doentia, ( qualificação aliás insignificativa do ponto de vista estético ) melhor compreenderemos como oscilará entre o patético e o burlesco, a elegia e a paródia, o trágico e o cómico. Sabe-se como galgam certos nevropatas da melancolia depressiva à alegria estridente; melhor, do abatimento profundo à excitação extrema. Não são estas duas atitudes verdadeiramente contraditórias , senão que as duas faces da mesma afecção. Sem, de modo algum,querermos reduzir uma coisa à outra, ( o que nos não impede de entrevermos relações entre elas ) pensamos que não será muito difícil achar entre vários dos maiores artistas da humanidade exemplos duma simultânea e idêntica tendência para a tragédia e para a farsa. O caso é que tanto a tragédia como a farsa - são caricaturais: São, ousarei dizê-lo, exercícios do grotesco no íntimo sentido deste adjectivo, por isso mesmo que tanto uma como outra isolam certos elementos e os elevam à tensão máxima. Que uma procura excitar o terror e a piedade, e a outra a hilaridade e o escárnio, não desmente que tanto uma como outra assentem, como se está percebendo, na abstracção: Ambas abstraem da real complexidade da vida, - que, essa, pertence ao drama - voltando costas à outra face que não a própria. Ambas são, pois, de profunda raiz poética, até lírica, num sentido que transcende a vulgar distinção entre lírico e dramático, e mesmo por essa abstracção comandada pela necessidade de expressão individual.
Poderão estas breves observações ajudar-nos a compreender que haja sido Camilo quase tão grande poeta cómico ( e alguns dos seus admiradores eliminarão o quase ) como trágico; e tão espontâneo e original numa e outra das duas máscaras, que na mesma página é capaz de fazer rir ou chorar. Decerto não haverá muitos exemplos, em toda a literatura mundial, duma tão espantosa naturalidade na passagem do choro ao riso, ou vice-versa. É isto nele um pendor que às vezes, de princípio, nos pode chocar, e a que nos habituamos na convivência com a sua obra.»
----------------------------------
«Se um crítico estrangeiro quiser conhecer um romancista lidimamente português abdicando ( o que parece difícil) de procurar nas obras de ficção portuguesa não o que é originalmente nacional, mas o que antes reflecte gostos da sua própria nacionalidade dele, crítico, - terá de ler, estudar, procurar compreender Camilo. Já dissemos parecer difícil. Pensemos, por exemplo, no esforço de adaptação que deveria fazer um francês de hoje triturado de intelectualismo, batido na literatura experiencial e enigmática, terrivelmente prevenido contra quaisquer formas mais ou menos simples, ou naturais, de sentimentalidade, convicto de haver varrido o preconceito com os seus novos preconceitos - para aceitar e entender Camilo. Decerto será muito mais fácil triunfar o Eça, com a sua civilização e o seu cosmopolitismo, em traduções estrangeiras. ( Não se conclua que estamos pretendendo rebaixar o Eça, que é outro dos nossos maiores artistas literários ). Se até, como já frisámos, pouco susceptíveis são certos críticos nacionais , ou historiadores da nossa literatura, de ultrapassarem uma estreita visão de Camilo, admissível é um muito maior choque num crítico estrangeiro: e ainda maior dificuldade em ver através das falhas, das debilidades, das irregularidades, o perenemente vivo e admirável. Tanto pior para quem o não consiga, que perde o convívio dum escritor de génio. Os escritores de génio como Camilo hão-de ser integralmente aceites - e sem que isto implique cegueira crítica a seu respeito. Sempre, com o tempo, o vêm a ser, se não integralmente, em maior ou menor grau. »
--------------------------
José Régio, de, " Camilo, romancista português ", in Ensaios de Interpretação Crítica, Portugália Editora, 1964

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Água das fontes!

Os poemas que mais me tocam
são os poemas mais simples.
Ao lê-los,
bebo a água das fontes.
Ou dos rios.
Dos tempos
em que as águas
eram limpas...
Eduardo Aleixo
( Foto de Lucy, que agradeço, - http://lucy-natureza.blogspot.com - )

Dissonâncias

Olho a maré vazia,
E vejo as dissonâncias
Que escutava
E perturbavam a canção do mar
Na maré cheia
Que as cobria !...
Deixem-me só!
Não quero companhia!...
------------
Junho de 2oo9
Santa Cruz
---------------
( Caminhos do Silêncio )
Eduardo Aleixo

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Perplexidades

Já me tem acontecido
Afagar no regaço do sonho
O perfume das flores,
A dança dos insectos,
A queda vitoriosa dos frutos,
A rosácea do sol sobre o amplexo dos corpos,
E ficar só, junto das raízes ancestrais,
E não perceber,
E perguntar a mim mesmo
Qual o caminho a percorrer !...
Eduardo Aleixo
( Caminhos do silêncio...)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Velhice

A horta que plantaste
Toda a vida
Como o sonho
Da tua vida
Olhas para ela
Agora
Velho
Sentado
Inválido:
Como podes evitar as lágrimas?
-
Eduardo Aleixo
( In " As palavras são de Água )

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Um dia acende-se o vazio do palco
cai o pano sobre o pó
-
evaporam as palavras dos teus olhos
-
um pássaro boceja à beira do tempo
-
então
deixará de haver antes ou depois
apenas um silêncio
um perfume ecoando pelos ares,
uma folha magoada
levada pelo rio.
( Vieira Calado, in Poemas - transparências )
Foto Google
--------------------------------------
Nota: amigo, adorei este teu livro.
já te enviei o meu. Embora singelo, espero que gostes. Dá-me a tua opinião.
O teu último, ainda não li. Mas, repito, as transparências mostam bem como és um grande poeta.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Vitorino Nemésio escreve sobre o nosso convidado, Camilo Castelo Branco (2)

« Com uma pala na testa e um tinteiro de ferro ao lado, Camilo passa horas e horas na sua cadeira de baloiço. São-Miguel- de-Seide é Minho: são ares lavados, com boa verdura. Água não falta; nem aquela alegria que enche céu e terra, de Famalicão a Santo -Tirso. Mas onde Camilo chega há logo um dedo de desgraça que toca as coisas. No meio do milho e da luz da quinta, a casa do escritor já em 1880 tem um aspecto sombrio, com aquele obelisco postiço sagrando a visita de Castilho, as janelas da casa de jantar afogadas de trepadeiras, e a árvore de que Raul Brandão fez o espectro e o espelho da vida daquelas pessoas trágicas - Camilo e Ana Plácido - acordadas do sonho e do desespero pelos ramos que batiam nos vidros. Uma Florinha ou uma esgalha seca da «acácia do Jorge» davam-lhes com indiferença os sinais de Abril e do Inverno.

Camilo diz em 1864, nas VINTE HORAS DE LITEIRA: « o meu gabinete de trabalho, durante os meses esplêndidos do ano, é um contínuo começo de noute». Para ler ou escrever precisa das portas fechadas, além da odiosa pala verde. De maneira que a sala, enorme, afunilada ao alto por profundos tectos de maceira, com aquele lúgubre candeeiro de suspensão ao meio, tem uma densidade aflitiva. Aquele canapé Império fala-nos das visitas misteriosas de personagens expedidos há muito para os editores do Porto, e que agora voltam a Camilo com uma identidade civil -, ou aqueles que, como o cego de Landim, partem do cartão de visita para os domínios da ficção. Vêm vê-lo empalar as suas sombras, vêm provocar-lhe aquelas palavras supremas que ele precisa dizer aos sofás antes de as provar nos livros, aqueles azedumes comovidos e de repente cortados por uma diabólica gargalhada.
(...) Lá fora bem podem cantar os passarinhos, chiar o carro minhoto ou cair um rápido orvalho em cima das cerejas bicais. Ali não há alegria. Ali, é aquele canapé com aquela visita, a meia dúzia de cadeiras austríacas, o piano fechado, e, quando nem Camilo nem o estranho têm já que dizer um ao outro, a sombra de Ana Plácido que entra. A voz da visita parece uma troça quando chama « Senhora Viscondessa» àquela mulher gorda e triste, que vai por trás da poltrona de Camilo direita ao candeeiro americano preparar a torcida ao lusco-fusco.
Outras vezes não é Saint-Preux nenhum, mas algum amigo desinteressado e recente, como Freitas Fortuna, que foi padrinho daquele casamento serôdio celebrado de noite pelo Abade de Santo-Ildefonso, e que, desde os consolos da hora aziaga até ao jazigo emprestado, tudo facilitou. Outras vezes, ainda, é algum cónego letrado, como Alves Mendes ou Sena Freitas, que vem desabafar sobre Lisboa e a sua falta de vergonha e de vernáculo; ou um Tomás Ribeiro, inquieto para passar ao quintal e encher de inscrições imorredoiras a casca dos carvalhos cerquinhos que Camilo prefere para varapaus e boa sombra.
Uns e outros enchem o crepúsculo daquele homem com a rara consolação das palavras gratuitas. Agora que não há Sebenta-Bolas-e-Bulas, nem Alexandre da Conceição para dar exercício àquela violência febril, fazer o gosto ao dedo no fel do tinteiro de ferro; agora que também não há lágrimas para desatar de olhos de meninas, nem ramos de plantas secas para lhes insinuar nos livros - , que venham ao menos aqueles conhecidos e amigos puxar pela língua ao velho quase cego, tomar a temperatura ao desespero daquela casa, acabar com os bilhetinhos de afronta que ele escreve à mulher ali ao lado, num requinte de maldade e de dor.
(...) Em 1885 Camilo não pode mais. O pouco que ganha, gasta-o em andadas desesperadas, de Seide ao Bom-Jesus, de Seide ao Porto, do Porto à Póvoa, a ver se se livra daquele demónio que o possui, misto de frenesim e de remorso, cólera sem nome que ele aplaca palpando o estoque da bengala, ou a coronha do revólver hull-dog debaixo do travesseiro. Lívida, Ana Plácido carrega o revólver de cápsulas inofensivas. Mas o estratagema falhou. Camilo é mestre em fecharias de clavinas e balas de todos os calibres. Faz pontaria ao tecto. Nem um chamusco...Percebe tudo. Saberá procurar a carga na hora própria.
Entretanto, têm pena dele. Os ódios mais grados passaram; a pedra de escândalo do rapto estava sossegada, numa espécie de lodo quente. Já se podia fazer da ex-mulher do brasileiro uma viscondessa constitucional. Quando Barjona levou o decreto à assinatura do Rei, talvez D. Luís se lembrasse que seu irmão visitara um dia um preso, que o arquivo das cadeias da Relação do Porto registava « de estatura regular, rosto comprido, trigueiro, bexigoso».
Agora, em 1885, vinte e cinco anos depois, em « testemunho da minha real consideração e do apreço em que tenho o seu distinto merecimento literário», lá o fazia visconde... As Cortes perdoaram-lhe os direitos de mercê. Essas, faziam-no em « testemunho de preito nacional pelo formosíssimo talento do brilhante escritor».Só uma voz se ergueu contra. O sr. Simões Ferreira entendia que a Câmara dos Deputados não fora feita para « dar distinções aos homens» que « não tenham concorrido para melhorar o estado moral e intelectual da sociedade», - e, a seu ver, Camilo estava abaixo da craveira.
(...) Depois, é o que se sabe: cegueira irrevogável e aquele desespero horrível, enquanto a pobre senhora acompanhava à escada o último especialista que o viera desenganar.
(...) Uma coroa de túlipas « em fundo de violetas de bosque e folhagem», com fitas roxas estreitas, e pretas de moiré largas ( se O Comércio do Porto não mente ), dizia só isto: PROFUNDA SAUDADE A SEU ESTREMECIDO AVÔ - CAMILO E CAMILA.
Que mais era preciso para Deus lhe perdoar? »
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Vitorino Nemésio, in de " Camilo , in Ondas Médias", Ed. Bertrand, s.d., (1945 ).

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Convidado deste mês: Camilo Castelo Branco

------------------------------------------------ Camilo visto por Aquilino Ribeiro: -----------
" ..............Uma vez em Seide, foi o protagonista de três ou quatro grandes acontecimentos que interessa memorar: o primeiro, o seu improbo trabalho, o qual, graças à estabilidade de vinte e tal anos, frutificou na obra mais vasta que jamais escritor português construiu ou construirá. Vastidão com beleza; vastidão perdurável em despeito das pechas de escola, das deficiências de formação, do próprio meio tacanho e rebarbativo à finura mental. Certos livros seus merecem colocá-lo, apesar de todos os senões, na galeria dos grandes mestres universais. O segundo acontecimento foi o seu martírio físico e familiar, tabético, eczemático, cego, com a monstruosidade da sua degenerescência à banda, calda túrbida em que temperou a pena para o azedume e o sarcasmo. A via sacra que trilhou não podia estar mais escalavrada.
Terceiro acontecimento de truz foi a sua nobilitação. Sonhava com ela desde que era gente. Ah, não ser fidalgo! Não possuir quartéis heráldicos!
E fabulou uma árvore genealógica, ganhando ao seu plano tais e tais linhagistas benévolos ou sempre prontos a estas inocentes tranquibérnias, intrujando-se a si próprio e aos seus. Que descendesse de Fruela ou de Barrabrás, expirou visconde, feito pelo ungido do Senhor, el-rei, D. Luís I. Com a nobilitação veio a realeza. Curta realeza. Todavia os ministros, no limite acanhado do Terreiro do Paço, moviam-se a uma vontade sua.
A história deste brasonamento daria lugar a um romance colorido e variado de sardonismo, para emparelhar com o Eusébio Macário, até agora único. Tinha forjado um slogan de trapaça: era por causa dos filhos que mendigava o título, não por vaidade.
Outro sucesso notável foi o seu matrimónio. Tinha de ser depois do aburguesamento.Devia-o ao rei, a Tomás Ribeiro, às cinzas de Alves Martins. Com ele não se fala em obrigação moral e justa recompensa dos sacrifícios de Ana Plácido. Desde esse dia foi mais circunspecto em matéria política. Nunca passou aliás de corifeu efémero dum partido, tão oscilante em doutrina social como em matéria religiosa. Todavia, se se pesasse em balança o que disse a favor da ideia de Deus e da Igreja e o que disse em contra, os pratos não demorariam um só instante em equilíbrio. O Diabo e o Anticristo levavam superabundantemente a melhor.
Afinal, o dístico que veio a aplicar-se a Camilo, génio da desgraça,assenta-lhe como uma luva. Com efeito, uma das facetas que mais brilham na sua obra de romancista é a da infelicidade humana sob forma de canceração. Dir-se-ia que as suas personagens, quando tocadas pela luz do mau sestro, se levantam esclarecidas por uma estranha luz de Sinai, tão dolorosas que nem esculpidas em carne. Já os seus felizardos da sorte são tíbios e moles. Para serem grandes é necessário que sejam burlescos. O bordão do seu sestro é trágico. Tal dom não é casualidade, mas regra. Sempre as figuras inditosas do seu teatro revestem um acume de real que salta por cima do convencionalismo e postiços menos escandalosos da escola romântica. São assim muitos dos figurantes das Novelas do Minho, do Sangue, da Mulher Fatal, do Amor de Perdição,etc, etc. Nem um estatuário que os houvesse moldado em bronze.
Afinal era a sua alma supliciada que tudo ia interpretando, transpostos os planos, pois que outra coisa podia ser para quem teve tão restritivo trânsito? A pintar uma face crispada pelo ricto do desespero ou a traduzir em meia dúzia de palavras de reflexão uma cena de angústia, não há segundo. A massa de sofrimento nas suas mãos torna-se a mais maleável das gredas. E todo o seu mundo dorido e insatisfeito, quer gema, chore, ameace, odeie, assassine, apaixona-nos e obriga-nos a comungar-lhe o transe, quando não é a esposar-lhe a causa.
Seria impossível que Camilo respirasse apenas a atmosfera salitrosa de inferno de que se aureolam os coribantes do seu guinhol. Algumas vezes,
não poucas, deixa o orco peculiar e entra com segura afoiteza os umbrais do paraíso. Mas que paraíso é este e que espécie de habitantes edénicos! Tudo resulta pálido ou cor de rosa, mormente se fizermos a sua comparação com as águas fortes de que é consumado mestre. Será assim porque é esse o aspecto menos comum do mundo? Talvez. A vida tem por essência a dor. A vida, no que encerra de eterno, decorre em crise e luta. Camilo possuía pois, em último grau, o génio da desgraça quanto à capacidade de dominar e traduzir o trágico que há no infortúnio, no pranto desfeito ou mesmo na adversidade. Ninguém até a data o superou em Portugal e é raro que o tenha sido as literaturas estrangeiras.
Se aquelas duas palavras são como que o mote de grande parte da sua arte, poderá também dar-se-lhe segundo sentido, reportando-as ao que chamam má sina com reveses, adversidades, incapacidade para o arranjismo. Não há dúvida que tendo em conta os passos capitais da sua existência, poderemos reconstruir uma via bem canhestra. As letras foram mesmo assim a tábua de salvação do náufrago. A par e passo que exercia a função, a vida ia-se-lhe desdobrando ingrata e tormentosa. Bem verdade que foi preciso este seu fadário para criar entre nós oficina própria. Até Camilo, a literatura era uma prenda pouco mais do que sala. Ora é precisamente com as circunstâncias que se vão desenrolando nesta como que sua subida ao calvário que é costume ilustrar a legenda de mau fado que parecia persegui-lo desde o berço.
Decerto que está fora de qualquer probabilidade científica admitir que se possa nascer debaixo de mau agouro astral ou exercer dano a distância mercê de acto de vontade ou de endrómina mágica. À escala romântica utilizava-se muito destes narizes de cera herdados dos romanos e dos feiticeiros dos tempos bárbaros. A literatura hoje pôs de parte tão ensebados cordelinhos.
Ora o grande Camilo foi daqueles em quem se concatenaram todos os concursos funestos para se lhe poder chamar um infeliz. Excepto o génio com que deu expressão à alma atormentada, e é um dos lances áureos do povo português, e que, ultrapassando, por isso mesmo, o destino individual, está fora de causa, tudo nele foi sinistro, astroso, aziago, miserando. O suicídio foi como que o selo que referendou existência assim calamitosa.""
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In BOLETIM CULTURAL, " Camilo, o Homem e o Artista "- Fundação Caloute Gulbenkian. - VII Série, Outubro de 1991.
Camilo visto por:

- Teixeira de Pascoais, O Penitente, Assírio & Alvim, 1985 - Aquilino Ribeiro, O Romance de Camilo, Editorial Gleba, 1957 -Vitorino Nemésio, de " Camilo", In Ondas Médias, Ed. Bertrand, s.d. ( 1945 - José Régio, de " Camilo, romancista português", in Ensaios de interpretação crítica, Portugália, Editora, 1964. --------------------------------------- Escolhi o depoimento de Aquilino Ribeiro. Se por acaso algum leitor mostrar desejo de ler o depoimento dos outros escritores, não me importo de postar nesse sentido. Com gosto. --------------------------------------------- Eduardo Aleixo

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A cada Ausência

A cada ausência - Um novo sopro dói no vazio que ficou - A cada sorriso, Uma lágrima que cai, Uma vela que apagou. - A cada passo Um novo e revisitado desejo de olhar para trás… - Sempre e presente, O Desejo de relembrar, O Desejo de reviver. - A cada olhar, O desejo de amar e amar, O desejo de viver… - A cada ausência… Rita

domingo, 1 de novembro de 2009

Poema

Desce, noite calma,
E traz-me a Sabedoria de aceitar
A Morte-Fonte-Vida,
E a serenidade de a olhar
Como Terra renascida!
Traz-me o gosto amargo
E doce das raízes.
O ovo do Ser,
A canção eterna
Da chegada e da partida...
( In, " Da outra Face " - As palavras são de água ! )
Eduardo Aleixo

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Nota biográfica

( Foto cedida por Paula Raposo, a quem agradeço - http://romasdapaula.blogspot.com - )
Um meteorito caíu...
Dormindo nele vim eu!
Que notícias de Infinito!
Que anos perdidos de Céu!
-
Foi ilusão pretender
Ser dono do Paraíso,
Contar histórias encantadas,
De noites sem voz e sem riso!
-
Rãs concertando nos rios,
Estrelas acenando nos céus,
Mil sonhos nos meus cabelos,
Meus olhos cobertos de véus...
-
Um meteorito caíu...
Dormindo nele vim eu!
- Onde estão as minhas vestes?
- Nem na Terra, nem no Céu!...
Eduardo Aleixo
( " Caminhos do Silencio...)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Apresentação do livro " As palavras são de água "

A Chiado Editora, na pessoa de Gonçalo Martins, abrindo a sessão...
DOS CAFÉS, DA POESIA, DO EDUARDO ALEIXO
( texto com que o meu amigo, Pedro Martins, do blogue http://aditaeobalde.blogspot.com/ me apresentou aos convidados )
Pedro Martins, lendo o texto...
" Hoje não se nota, mas por aqueles tempos - em outro século e em outro milénio, até - nos anos de 1900 e lá vai fumaça (expressão descaradamente roubada ao Chico Buarque de 'Leite Derramado') eu era muito mais novo que o Eduardo Aleixo. Ainda só tinha um tímido buço e já o Eduardo passeava pelos corredores do Liceu, pelas ruas da nem sempre pacata cidade de Beja, só ou integrando ruidosas troupes académicas, e pelos cafés das tertúlias, a sua imponente bigodaça (negra, então) que seduzia o povo feminino do Liceu e adjacências e intimidava os lusitos da Mocidade Portuguesa. Certo dia em que o meu buço me pareceu mais espesso, entrei na pastelaria 'Bambina', poiso de estudantada e de ociosos diversos para, em pose de mancebo pretensioso, tomar um 'Pirolito' (para os mais novos, um dado biográfico: o 'Pirolito' foi o pai da gasosa e avô da 'Seven Up') e fumar um cigarrinho 'Português Suave' (sem filtro!) que, minutos antes, tinha comprado por dois tostões no café do Zé Alho. E foi então que ouvi o empregado de mesa berrar para o balcão: «Saem quatro bagaços para a mesa dos poetas subversivos!». Olhei. E quem vi? O Eduardo, o Casimiro, o Arlindo e o Belard. (Aqui, uma confissão tardia: aquilo dos 'bagaços' e dos 'poetas subversivos' impressionou-me tão favoravelmente que, a partir desse dia, troquei os 'pirolitos' pelos bagaços e tentei, mesmo, a poesia. E, se para esta o meu jeito se mostrou aleijadinho logo no primeiro verso, já no bagaço entrei com muita facilidade e cheguei a ter o estatuto de generoso consumidor). Bem, 'andiamo': Os poetas, pois. Marquei-os. Até hoje. Mas fiquemos pelo Eduardo. Reencontrei-o, passados anos - posso precisar o dia: 1º de Maio de 1969 -, no Rossio, mesmo em frente do café 'Gelo', e, depois de umas chouriçadas da polícia de choque, decilitrámos uns bagaços no café 'Palladium' e falámos, demoradamente, de poesia subversiva e do suplemento 'Juvenil' do 'Diário de Lisboa' onde ele colaborava. A vida, ou mais exactamente a vidinha, com as suas guerreiras áfricas e ásias pacíficas encarregou-se das nossas andanças por estradas e veredas não coincidentes e a conversa interrompida à hora do fecho do café 'Palladium' só foi retomada em 2008, quando o Belard conseguiu reunir, à volta de uma mesa do café 'Nicola' (o Bocage, lembram-se?) os poetas subversivos, agora já ex-bagaceiros, mas sempre poetas, com o 'ex-piroliteiro' da bejense pastelaria 'Bambina', convertido pela idade em branqueado barbudo e consumidor de 'Água das Pedras', mas sempre fiel amante de poesia. (Se é que não repararam, faço notar que há por aqui duas constantes que acompanharam uma geração: a poesia e os cafés - a 'Bambina', o 'Gelo', o 'Palladium', o 'Nicola'). E a conversa chegou, rápida e inevitavelmente, à poesia, ao blogue 'À Beira de Água' onde, em suporte digital (cibernices, modernices...), o Eduardo ia - e vai - finalmente, publicando as conversas com as musas que durante dezenas de anos apenas circularam clandestinamente por debaixo de olhos amigos (poucos, muito poucos, ao que sei). Então, e só então, tomei contacto com a produção literária do Eduardo Aleixo. É verdade. Mais de quarenta anos depois da inconfidência do criado (era assim que se dizia) da 'Bambina' e do meu último 'pirolito'. «Já me lixaste» (mas em português latrinário - vocês sabem o que eu quero dizer) foi a minha resposta ao convite do Eduardo para apresentar «As Palavras São de Água». Mas a amizade é um posto e aqui me têm na função e disposto a dizer-vos tudo, mas mesmo tudo, sobre a poesia do Eduardo Aleixo. Preparem-se para o discurso essencial: GOSTO. GOSTO E RECOMENDO. Disse. . Quantas vezes nasci? Quantas vezes morri? Por que países nunca vistos Semeei o meu silêncio, O meu olhar de espanto? Toca, Vivaldi, Enquanto me lembro, Sem esforço em me lembrar, Quantas vezes comecei a minha vida, Olhando para o mar... . É um excerto do poema «Mas Toca Vivaldi». E mais não digo. O resto perceberão com a leitura do livro. Obrigado. E um gesto final: dá cá um abraço, Eduardo. "
Eu, lendo alguns poemas...
Os convidados presentes ...
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Eduardo Aleixo
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Quem estiver interessado na compra do livro pode entrar em contacto comigo, através do meu email.
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