terça-feira, 31 de março de 2009

Saboreio a tua voz...

No perpassar indiferente do tempo inexorável
s-a-b-o-r-e-i-o a tua voz, mãe!
A tua voz é a mesma,
fresca,
terna,
gaiata,
(ai...não fosse a velhice, a doença e a solidão...),
de quando tinhas pouco mais de vinte anos
e eu era uma criança...
A tua voz é a mesma, mãe!
Será sempre a mesma!
Sempre!
Eduardo Aleixo

segunda-feira, 30 de março de 2009

Boa semana para todos

na companhia desta música e na contemplação dos belos e pacíficos cisnes, que me foram oferecidos pela amizade da Lucy, ( http://lucy-natureza.blogspot.com/ ) , cujas fotos são sempre magníficas. Ora reparem:

( Fotos de Lucília Ramos - Lucy )

Eduardo Aleixo

sábado, 28 de março de 2009

Tânia

Nada podemos, Tânia, perante o que nos ultrapassa! Dentro das nossas limitações o que deveria ter feito? Agora sabes mais do que nós. Já foste. Só podes estar na Luz. Não precisas de palavras. Eduardo

sexta-feira, 27 de março de 2009

Convidado do mês : Egito Gonçalves

1.
Inventámo-nos. Somos
eco do mesmo apelo reconhecido,
a mesma busca
dum resgate impossível.
---
A mesma fome nos ergueu
os braços
a um gesto de encontro,
um riso,
um pólen na viagem do vento.
---
E eis que o pássaro inexistente
pousa
concreto e tangível
sobre os nossos ombros.
2
Por algum motivo as lágrimas descem
até à boca.
Mastiga-se o sabor,
entra no sangue o sal,
em vida se transforma, é
sulco que a dor abre, fertiliza,
aberta linha de semeadura onde
poderá surgir um bosque,
uma cidade, uma justiça...
---
É o gosto da dor
que vitaliza, acende o palpitar
no coração que sobe à superfície.
---
Descem até à boca
por algum motivo as lágrimas.
3.
Quando falamos de amor
de que amor
falamos?
---
Quando esperamos realizar
a nossa
esperança
de que esperança nos queremos
portadores? A que verdade
supomos esperançar-nos?
---
Quando falamos da fonte
e a madrugada
sabemos se haverá água
nas manhãs?
---
Agarrados ao fogo das palavras
afogamo-nos
supondo ter a margem
sob os dedos?
( Livro: " O Fósforo na Palha "- de Egito Gonçalves )

quarta-feira, 25 de março de 2009

Crónica Semanal (desta vez mais Poética)

E agora? O que resta quando a rajada passa? O que fica quando o nosso real deixa de existir? Que semente irá brotar, Que passo se irá dar, Que palavras dizer – quando os seus significados deixaram de fazer sentido? A estrada é a mesma, junto ao mar, junto à areia que se mistura com as rochas e conchas. Tudo é o mesmo mas deixou de o ser. Lágrimas inexistentes, sentidas mas invisíveis. Percorrem soltas esse caminho desconhecido. Ontem tão familiar. Hoje estranho, amigo antigo desaparecido. O que resta então? O que fica por fazer senão prosseguir com outro olhar – o mesmo mar repousante, a areia da praia e as suas rochas e conchas como se fosse a primeira vez que as estivéssemos a ver. Renovadas. Surpreendentes. beijos a todos de São Tomé Rita

Coisas de que falo!

Falo das casas de rosto contente virado para o mar,
da procura apaixonada das conchas raras abandonadas na vazante,
do mistério nunca desvendado da canção dos búzios,
da postura majestática dos cactos com flores vermelhas sobre as dunas,
falo da robusta madureza do teu corpo
aberto como um suspiro
liberto no cansaço do tempo certo!...
É das fontes que falo,
insubstituíveis, teimosas fontes,
escondidas,esquecidas, não lembradas,
mas avidamente luminosas,
sequiosas nos olhos que procuram, se procuram,
no enleio confusamente inevitável
de quem caíu de borco das estrelas,nos labirintos e becos da cidade,
onde as crianças sabem
não haver fronteiras claras entre a vida e a morte,
entre o riso e a tristeza,
e acariciam silenciosamente, com mãos de jade, as lágrimas
que parecem tombar do céu,
mas que brotam violentamente da terra!...
Eduardo Aleixo

É triste estar triste...

É triste estar triste!
Estar triste é como estar doente ainda que sem culpa.
Gosto da alegria.
Do sorriso pleno.
Assim foram os meus sonhos.
Assim são os meus sonhos.
Barco de proa firme
desafiando as ondas com um sentido determinado
sem medo de fantasmas e de papões na noite escura.
Assim quero a vida,
que assim não é!
Mas a vida...
não sou eu que quero?!...
Eduardo Aleixo

segunda-feira, 23 de março de 2009

Anoitecer

Não sei o nome dos pássaros
que cantam nos canaviais
antes de se porem a dormir.
Não é dia, não é noite.
O ar é calmo e as cores são difusas.
Pode haver brisa ou vento.
Se houver vento ouvir-se-à a canção do mar.
Se não houver nuvens fico a olhar as estrelas do céu.
Em qualquer caso ouvir-se-á o silêncio.
É noite sobre o mundo. As rãs coaxam. Os cães ladram.
Os pássaros dormem.
É bom ter nascido.
Eduardo Aleixo

domingo, 22 de março de 2009

Amo as árvores

Amo as árvores. Principalmente as que ajudei a crescer. É um sentimento análogo ao que acalentamos pelos filhos e por tudo o que criamos. É assim também com aquilo que construimos na vida, com muito esforço.
Amo as árvores. Somos amigos durante todo o ano. Mas o nosso encontro na primavera é um encontro especial. O inverno foi duro. Há que ver como elas resistiram. Quando chegou o inverno escrevi um poema em que mostrava as árvores de braços despidos erguidos para o céu. E dizia que as árvores pareciam mortas, mas que não estavam. Dormiam. Sonhavam. Esperavam por Março. Pela chegada dos noivos. Que trariam as flores do noivado. Para elas se engalanarem de beleza, oferecendo-lhes os seus corpos com alegria e amor.

Março chegou. E os noivos também. Para algumas árvores. As já floridas. As outras, ainda não têm o vestido pronto. Mas está quase. Os pássaros fazem corridas chilreando e esperam que as folhas cresçam um pouco mais para aí esconderem os seus ninhos. Os dias são maiores. A primavera ainda é uma menina. Mas não tarda que as flores abram por todo o lado, os frutos cresçam e dos ninhos saltem os pássaros novos a treinarem os primeiros voos, rasantes, até que, de músculos rijos, ultrapassem os muros altos, e livres se ponham a dançar no céu azul.
Amo as árvores. Durante todo o ano. Mas principalmente na primavera.
Eduardo Aleixo

sábado, 21 de março de 2009

Anunciação da Primavera

Não sei de onde vem esta bruma,

se dos meus olhos, se

do rio. Um sol frouxo, próprio

das manhãs de domingo, escurecia

o vermelho, o amarelo das casas.

Dentro de mim, a musical

floração das cerejeiras havia começado.

Noutro lugar, noutro dia.

De repente, um pássaro inesperado

começou a cantar num ramo

que não havia, sobe a prumo no céu

onde a manhã total principia.

( Livro: " Os lugares do lume " - Eugénio de Andrade )

sexta-feira, 20 de março de 2009

A teoria da roda

- poema de Vieira Calado ( a quem envio um abraço )
" - Ó meu coração sê diferente da roda.
Mas só como o centro da roda que permanece em repouso.
Se a roda roda tão activamente
é porque o seu centro é imóvel...."
CANTO DE OLEIROS HINDUS
Afinal fui sempre uma roda. Sempre
a propensão para vaguear os contornos fluidos
da precisão equacionada a partir dum centro estático.
Embora desde muito verde tivesse coabitado
com a áurea do mistério
das mais insignificantes humílimas, criaturas,
embarcadas no comboio do sol, é certo.
E tivesse ido com elas até ao limite mais meridional
do esquecimento ou do medo. Percorrido
as imediações do real as arestas afiladas do vento
a soprar os olhos trans-
-lúcidos dum sombrio silêncio,
hábil malabarista de palavras e fumo.
-----
Mas nunca conheci nada de jogos de fortuna e azar
apostei sempre a partir do calafrio alargado
à matéria dos ossos
inscrito nos ácidos ribonucleicos que conduzem
invariavelmente o fim ao princípio
circular da roda.
( Do livro, " Itinerário ", de Vieira Calado )

quinta-feira, 19 de março de 2009

MENINO

- poema de Maria Paula Raposo ( a quem envio abraço amigo )
Vejo-te chegar
no passo melancólico
de um poema,
das mãos os desenhos
que fazes
na solidão
do teu atelier
e do olhar
as cores
com que pintas
as imagens
e o sonho fantástico
que te preenche
os dias longe de mim.
---
Vejo-te chegar
e ainda é doce
o teu sorriso de menino.
Outubro de 2008
( Livro: " Golpe de Asa ", Maria Paula Raposo )

quarta-feira, 18 de março de 2009

Há um momento em que a juventude se perde

- Poema de Eduardo Graça ( a quem envio um abraço de amizade )
um momento em que a juventude se perde. É o momento
em que os seres se perdem. E é preciso saber aceitar. Mas
esse momento é duro.
---
Para ti um dia nascerá a luz e sem mim irás correr
atrás da tua memória e nunca me encontrarás nela
com os traços iguais aos do dia de hoje tão nítidos
presentes.
---
Ausente deixarei de te olhar. O teu corpo ficará
sempre igual ao meu corpo que se transformará
num eco longínquo ressoando em ti comigo lá
dentro.
---
Gostava de te ver sempre mas não posso. Um dia
todos os corpos se retiram e as viagens parecem
mais pequenas na cidade percorrida em círculos
concêntricos
---
Sei que nos encontrarmos agora é natural para ti,
Que me olhas e me interrogas silenciando o teu
medo de enfrentar o desconhecido numa espera
ausente
---
Para ti um dia nascerá a dúvida se afinal amaste
o suficiente. Se iluminaste a vida com a tua luz
própria ou se a roubaste aos outros sem sombra
de perdão
---
É esse o momento em que a juventude se perde
e com ela se esvai a inocência. É preciso saber
aceitar. Esse momento é duro e estarás só, sem
ninguém
( Livro: " Há um momento em que a juventude se perde..." - de Eduardo Graça - livro dedicado ao seu filho )

segunda-feira, 16 de março de 2009

Crónica Semanal III (de São Tomé)

Na última noite, sob um calor infernal, estive sem energia em casa, o que é perfeitamente natural, mas estava sem gerador, pois tinha ido para uma actividade de trabalho e veio com problemas…Resultado, à luz das velas e com o que me restava da bateria do portátil, inspirei-me para escrever a crónica semanal… Reflicto sobre os vários privilégios que tive ao longo da vida. Entre os mais essenciais estão a educação e a possibilidade de ter uma “família”, da forma como a vemos nós ocidentais. Penso nos miúdos e jovens que tenho conhecido aqui e nas suas tão grandes limitações. Uma rapariga estudiosa e responsável que teve bolsa de estudo para ir para a faculdade em Portugal, mas que não obteve visto, e por isso, aqui ficou. Um rapaz que sonhava estudar arquitectura, mas que não conseguiu, por varias vezes, obter visto. Agora já tem mais de 21 anos e não pode ter bolsa nem visto de estudante…e tantos outros. Em São Tomé não existe um verdadeiro ensino superior, a massa critica vem de fora. Estes jovens falam com revolta, outros simplesmente resignaram-se e vivem doutras coisas. Mas que impacto têm estas decisões nas suas vidas? Penso em mim e em todas as possibilidades que me foram oferecidas. Se quisesse, estudava noutra faculdade, noutra cidade, noutro país. Questão essencial: podia optar e decidir o meu futuro. Estas pessoas, na sua grande maioria, não podem. Pus-me no seu lugar, e senti-me numa autêntica prisão. E fiquei ao mesmo tempo revoltada e triste por eles, e grata por ter tudo o que eles não tiveram. Escolas e ensino de qualidade (comparadas com as de cá, sem dúvida!), estímulo para aprender e conhecer coisas novas, pais que escutam e incentivam a seguir adiante, com todos os custos que também tiveram, fronteiras abertas para seguir o meu caminho desde que me esforçasse para isso. Sim, sinto-me grata e privilegiada.
E vejo-os a eles presos num ciclo vicioso.
Devemos todos dar valor ao que temos pois NADA é certo, há quem nunca tenha provado um sugo, folheado um livro, recebido uma prenda, tido uma roupa novinha em folha e deixado sobras num jantar por haver tanta fartura...
Boa semana a todos!
Rita

A voz do mar

O meu ser é embalado pela música do mar
Antes de mim e depois de mim
A voz do mar
é sem fim...
Eduardo Aleixo

sábado, 14 de março de 2009

É por isso que dura para sempre

Poema
Sob o céu, todos vêem o que é belo
apenas porque existe o feio.
Todos podem conhecer o bom como bom
apenas porque existe o mal.
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Ser e não ser produzem-se mutuamente.
O difícil nasce do fácil.
O comprido é definido pelo curto,
e o alto pelo baixo.
Antes e depois caminham lado a lado.
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Assim, o sábio vive abertamente
em aparente dualidade
e paradoxal unidade.
O sábio pode agir sem esforço
e ensinar sem palavras.
Alimentando as coisas sem as possuir,
ele trabalha, mas não pela recompensa;
ele compete, mas não pelo resultado.
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Quando a obra está feita, é esquecida.
É por isso que dura para sempre.
( In Tao Te Ching - Lao- Tzu )

quinta-feira, 12 de março de 2009

Confissões duma gaivota

« O meu avô pescador ensinou-me a amar-me a mim mesma de forma incondicional. Ele disse-me uma grande verdade: que eu era ÚNICA, e tinha razão. Mas sabem uma coisa?, vou dar-vos uma óptima notícia: vocês também são únicas. Podem não ter tido um mestre e mentor como eu encontrei nele. Podem ter sido expulsas do ninho mal acabaram de nascer. Podem ter quebrado as asas quando começaram a voar...pode ser. Mas a bênção que ele e as suas palavras significaram para mim foi uma dádiva que o Céu sempre teve também para vós, que pôs à vossa disposição...Só que vocês nunca tiveram um avô pescador que vos dissesse que eram uma luz única, de Amor e de Asas.
O meu avô ensinou-me o riso e a espuma das ondas. Ensinou-me a voar ao entardecer de um dia de Verão. A ele devo a marca de uma infância passada com um avô magnífico, que acompanhou os meus voos de gaivota mediterrânica. As asas molhadas pelo mar, o bico repleto de sal e a alma abundante de formosura. Os meus pilares foram tão fortemente implantados que não existe terramoto existencial capaz de os derrubar. O Universo presenteou-me com a mais bela fortuna do mundo: o amor e a alegria. Pode ser que eu me tenha esforçado por isso noutras praias, noutras vidas, é bem provável. Ou talvez não. Pode ser que eu me tenha oferecido a mim mesma a oportunidade de aprender a desfrutar de um manjar tão delicioso como este, e garanto-vos que aprendi a saboreá-lo. Adoro os seres que rodearam a minha aterragem no voo 1959, creio firmemente que fui eu quem os escolheu antes de vir. E assim foi, fui genial nisso.
Um avô, pescador de sabedoria, que embelezou as tardes de estio brincando com o vento, permitindo que as minhas asas se abrissem sozinhas. A minha infância foi a base sólida onde assentaram as minhas estruturas e colunas à prova de tornados, tormentas e maremotos. A minha infância foi um belo presente de anjos que me deram o bilhete para este voo mediterrânico. Recordo-o feliz, repleta das suas sábias mensagens. Custou-me distinguir quem ele era. Quando deixou o mar, inteirei-me de quem era na realidade: um iniciado na eternidade, disfarçado de pescador. Foi um privilégio tê-lo tido como avô neste voo. Ele mostrou-me a luz, ensinou-me a mantê-la acesa, e aqui está ela, presa às minhas asas, resplandecendo sobre o mar, serpenteando na areia.
Do lugar onde presentemente vive e evolui, continua a vigiar o meu voo sobre o mar , ainda ri das minhas travessuras, continua a amar-me e a animar-me a voar em direcção â noite cheia de estrelas...Continua a impelir-me a voar na direcção da Via Láctea, rumo à comunicação eterna. »
( Do livro, " Asas de Luz ", de Rosetta Forner - À descoberta da magia interior )

quarta-feira, 11 de março de 2009

Por um Tibete Livre

Fez ontem 50 anos que as tropas chinesas ocuparam o Tibete.

A cultura tibetana tem sido ao longo deste período desprezada pela China.

O povo tibetano é discriminado em todos os aspectos da vida.

O meu abraço fraterno a este povo que muito amo.

O meu desejo: que a sua cultura se mantenha e seja respeitada e que esta questão passe a ser vista pelos países democráticos como um imperativo de justiça e de ética..

Eduardo Aleixo

segunda-feira, 9 de março de 2009

Crónica Semanal II ( da ilha de S. Tomé )

Olá... Cá estamos outra vez reunidos para uma sessão de partilha cultural... Este domingo caiu manhã bem cedinho uma grande carga de água tropical, como nunca tinha assistido na minha vida (tirando os tufões em Macau!). Foi uma chuva torrencial acompanhada de trovões e relâmpagos que estavam exactamente em cima da ilha e que faziam um barulho aterrador - a terra parecia tremer. E eu até gosto da trovoada...Não dormi mais e nessas alturas em que a natureza é assustadoramente real e presente, uma pessoa não consegue evitar pensar na vida e afins. Pois assim me pus eu a pensar, pois esta última semana foi particularmente dura. Isto de trabalhar nestes contextos não é fácil, sobretudo quando nos pomos a reflectir realmente sobre o que andamos aqui a fazer e no impacto real das nossas acções. Mas não vou maçar-vos com isso agora. Como foi também no domingo o Dia da Mulher e nós aqui (quando digo nós é a organização onde trabalho - a bem dizer, Médicos do Mundo) temos um programa de rádio semanal aos sábados, pelo que decidi incentivar a minha equipa de activistas a falar sobre o tema das desigualdades existentes entre o homem e a mulher no país. Infelizmente, o nível de espírito crítico, capacidade de escrever e empreender no geral é muito baixo. Se não somos "nós" a puxar a corda...mas bom, quanto ao dia da mulher em si, neste lado do mundo, ainda é mais fundamental trabalhar as questões de género - vemo-las por aí nos rios a lavar roupa, a caminhar com lenha na cabeça, com um filho no colo e outro dentro da barriga, dependente do homem e sem poder de decisão sobre a sua vida. Quando falamos, nas nossas saídas junto da comunidade, sobre coisas tão "simples" como a pílula, o período fértil e mostramos imagens do que é o seu aparelho reprodutor, muitos olhos brilham de interesse - para algumas é a primeira vez que estão a ouvir falar nisso...Enquanto as pessoas não tiverem as informações e conhecimentos suficientes para "agarrar" de facto na sua vida, não podemos pensar em desenvolvimento. Enfim. Conheço alguém que vai ficar com um sorriso nos lábios ao me ver escrever sobre o tema do Género. :) Bjs a todos e obrigada pelos simpaticos comentários Rita

domingo, 8 de março de 2009

sexta-feira, 6 de março de 2009

É estranho: não há lugar para as mágoas!...

É com elevação o sentimento de unidade
que sinto no universo com os seres que amo
com quem falo no silêncio uma linguagem de amor
respeitosa, sublime, musical, bater de asas
leves, harmonia reunida em catedral de rosas,
carícias perfumadas, roçagar de mãos
como véus, os sorrisos são a música dos regatos,
suavidade de lua quando acaricio os teus seios...
É estranho!! Não há lugar para as mágoas!!...
Eduardo Aleixo

quarta-feira, 4 de março de 2009

O encontro mágico do amor...

As palavras rebolam pela estrada aberta
E eu senti o momento da abertura!
Uma fonte se abriu
Quando espetei o dedo no ponto certo
Da argila da montanha
E a água correu!
Recebo-a com cuidado na ponta d0s meus dedos.
Nem penso.
Deixo-a correr pelas mãos
E lavo com ela o corpo todo.
É o momento da minha ligação ao universo!
Agora revejo o meu rosto verdadeiro
Que se expressa
Feliz ou triste, não importa.
É a água da Fonte!
Não há estrangulamentos...
Sou a água que corre e me ilumina.
As palavras são de água.
Correm.
Ouvem-se no silêncio.
A alma está contente porque eu a ouvi no momento certo.
Ela esperava que eu a ouvisse.
Ela espera sempre ser ouvida.
Nem sempre a ouço...
Ando muitas vezes distraído...
Mas há momentos que não sei explicar:
- Descubro as fontes!
São os momentos do encontro maior!
- O encontro mágico do Amor
Eduardo Aleixo

terça-feira, 3 de março de 2009

Quando, Lídia...

Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa -
O amarelo actual que as folhas vivem
E as torna diferentes.
( Ricardo Reis - Odes - Ficções do Interlúdio )

domingo, 1 de março de 2009

Antoine de Saint- Exupéry ( ou uma laranja no deserto )

ENSAIO
Se há escritores que dificilmente podem ser considerados como pertencentes a uma determinada " escola literária ", Antoine de Saint Exupéry é um deles. Se o autor de " Terra dos Homens" tem uma " escola", essa escola é sem adjectivos. É a da Vida, por onde o Homem passa...
Exupéry mergulhou bem fundo no coração dos homens, aí onde o positivismo e a lógica, embora necessários, mas insuficientes para a compreensão da realidade, são substituidos pela ficção, pelo mundo do silêncio, da relação do Homem com o invisível, legando à humanidade das páginas mais belas da literatura do século vinte.
Literatura original. Incidente sobre determinada realidade do Homem, escondida embora, mas essencial à sua compreensão. Um Homem mais compreensível à luz duma psicologia individual do que de uma sociologia, a temática de Exupéry será, por isso mesmo, discutível e até impertinente para muitos e quiçá reaccionária para alguns! O Homem, viu-o ele como algo de essencialmente individual a despeito de viver em sociedade. Mas o maravilhoso do Homem que ele nos desnuda é, de facto, essa sua faceta escondida, que a sociedade ignora e quantas vezes escamoteia e despreza! É todo um mundo interior que se desdobra gradativamente e que ora aproxima o homem ou o afasta do seu semelhante.

No primeiro caso, o Homem é um ser necessariamente responsável ( « ser homem é ser responsável, » escreve ele ). De uma responsabilidade que é, primeiro, uma forma de amor, e só depois o reflexo duma chama grupal. Quando ele conduz os homens, por avião, levando consigo as suas vidas, bem como centenas de cartas, ligando dois continentes, pondo em relação uma multiplicidade de destinos, sente, primeiro, que é grande, por isso mesmo; porque a sua missão é sublime; e que é maravilhoso, por fim, fazer parte de uma sociedade irmanada, que torne possível essa grandeza.
Neste aspecto, ele dá-nos a ideia de ser um condutor de homens. Inflexível. De feição moralizante. Que, muitas vezes, se torna um chefe naturalmente duro, porque são necessários os súbditos e a hierarquia obediente. Aqui se situa, a meu ver, a sua faceta menos simpática à luz de uma doutrina social multiforme que não tolera bem o espírito da hierarquia como ditame e forma de escravização do Homem. Essa escravização, ele não a contesta, nem a polemiza. Apenas a regista, não sorvendo as causas que a teriam engendrado. Em suma: a sua óptica interiorista do Homem não o levou à ponderação intelectual das circunstâncias históricas, que têm uma palavra a dizer sobre a situação precária do mesmo. Assim é que se limita a apresentar-nos o escravo, de súbito liberto, e que não sabendo que fazer da sua liberdade, se volta a apresentar ao seu senhor, para, de novo, o servir e recuperar a sua estrita segurança...
No segundo caso, ela está longe das fronteiras do social. É todo um outro mundo em que se desenha ( sobre que se alicerça ) a felicidade ou infelicidade do Homem. E neste campo a sua originalidade, a sua riqueza poética, a sua verdade, que, apesar de tudo, ninguém deixará de admirar. As relações de amizade e de ódio entrelaçam-se intimamente, tornando difícil traçar uma linha de separação. Os dois maiores inimigos vivem em função um do outro. As suas vidas justificam-se no ódio recíproco. Os dois inimigos acabam por esgotar as suas vidas, pensando-se mutuamente, que é uma forma de se amarem. Quando se encontram, acabam por se falar pela boca dos outros, e não raro, no fragor da batalha, se poupam, até ao último momento, adiando a vingança, porque é essencial continuarem a odiar-se, para que se justifique a espera de um futuro encontro!
As paisagens do Homem são tão originais como aquelas que nos oferece das nuvens, dos raios de sol filtrando-se nelas, da grande solidão do universo em que é sempre saudado festivamente o encontro com as folhas verdes de um oásis, com o sorriso isolado dum ribeiro, com o fumo das chaminés duma aldeia inesperada, marca reconfortante da presença do Homem sobre a terra...
Assim é que o Homem festeja o encontro com o mundo e resgata o seu silêncio original para voltar de novo à sua individualidade em que se abeira do divino. É quase divino quando o avião se despenha sobre as montanhas dos Andes, cobertas de neve, e se vê perdido, chamando a si todas as potencialidades dum pequeno deus. O homem ouve então o seu coração, a grande máquina que luta contra a montanha, e prossegue, construindo a esperança, em cada passo. Descansa. Ouve o pulsar do coração. E vai, até à última pancada deste, ao encontro dos homens. E quando está salvo, a sua estória é uma epopeia! É um epopeia a vaidade com que a conta, sem que jamais alguém se possa apropriar da sua grandeza! O Homem é realmente grande quando vence uma montanha! E mesmo quando nela morre os seus amigos transformam essa morte numa vitória, imortalizando-a, que é uma forma de louvarem a grandeza de todos os homens...
A paisagem do Homem é tão inédita como a das nuvens que só os aviadores observam e conhecem.
A mulher que faz renda no silêncio tirando do nada a obra prima em que a linha se transforma. O olhar da adolescente à porta da casa perdida no deserto, quantas esperas de sonho, quantas pérolas escondidas, quanta água que nenhum jovem ainda bebeu!...
E por fim... o valor de uma laranja no deserto, quando nada mais há do que a morte e o silêncio!...
Uma laranja de súbito encontrada no deserto é bem o símbolo do milagre da vida simultaneamente tão grandiosa e tão pequena em que o Homem se confina. Uma laranja no deserto, quem terá pensado nisso? Em reparti-la, por vários dias... Matematicamente! Com as mãos da esperança. Como o agarrar-se à vida que se esvai e se ama cada vez mais...
Éxupéry é, entre muitas outras coisas, o escritor do Sáara. Dos grandes silêncios de imagens luminosas. Nele se bebe o silêncio grandiloquente do mundo.
Mas...uma solidão, em que todos cabem, em que se saúda apoteoticamente o encontro com o primeiro oásis, a primeira aldeia, o primeiro rosto humano!
Eduardo Aleixo