sexta-feira, 27 de março de 2009

Convidado do mês : Egito Gonçalves

1.
Inventámo-nos. Somos
eco do mesmo apelo reconhecido,
a mesma busca
dum resgate impossível.
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A mesma fome nos ergueu
os braços
a um gesto de encontro,
um riso,
um pólen na viagem do vento.
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E eis que o pássaro inexistente
pousa
concreto e tangível
sobre os nossos ombros.
2
Por algum motivo as lágrimas descem
até à boca.
Mastiga-se o sabor,
entra no sangue o sal,
em vida se transforma, é
sulco que a dor abre, fertiliza,
aberta linha de semeadura onde
poderá surgir um bosque,
uma cidade, uma justiça...
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É o gosto da dor
que vitaliza, acende o palpitar
no coração que sobe à superfície.
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Descem até à boca
por algum motivo as lágrimas.
3.
Quando falamos de amor
de que amor
falamos?
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Quando esperamos realizar
a nossa
esperança
de que esperança nos queremos
portadores? A que verdade
supomos esperançar-nos?
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Quando falamos da fonte
e a madrugada
sabemos se haverá água
nas manhãs?
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Agarrados ao fogo das palavras
afogamo-nos
supondo ter a margem
sob os dedos?
( Livro: " O Fósforo na Palha "- de Egito Gonçalves )
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