terça-feira, 5 de maio de 2015

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio


(Foto Net )

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                      ( Enlacemos as mãos )

Depois pensemos, crianças adultas,que a vida
Passa e não fica, nada dexa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
                      Mais longe que os deuses

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
                           E sem desassossegos grandes

Sem amores, nem ódios, nem paixoes que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
                            E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quisessemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro,
                           Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                          Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-às de mim depois,
Sem que a minha lembrança te arda, ou te fira, ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos,,nem nos beijamos,
                                   Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barquiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-às suave à memória lembrando-te assim - a beira do rio.
                             Pagã triste e com flores no regaço.

RICARDO REIS
ODES

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