segunda-feira, 25 de abril de 2011

A visita à velha casa

Fachadas principais da velha casa
No tempo em que vivias, mãe Gracinda – assim chamava eu à minha sogra - a velha casa de granito estava sempre cheia com a tua vivacidade, energia e amor, e tu eras o motor de todas as tarefas, eras tu que alimentavas as galinhas, os coelhos, os pombos, as rolas, o porquinho, eras tu que tratavas das alfaces, das couves, das cenouras, dos morangos, das batatas, dos nabos, das cebolas, dos alhos… eras tu que enchias com a água do poço o tanque de granito, e a água deslizava ao longo dos regos rasgados na terra pelas tuas mãos calejadas pelos frios rigorosos do Inverno, eram as tuas mãos sim, apenas as tuas mãos, pois que teu marido partiu antes de ti, que leiravam a terra , e tudo crescia agradecido...
Tu eras a alegria que a casa tinha. Eras uma mulher já idosa, mas os teus olhos brilhavam, o teu sorriso tinha a força das manhãs, da tua memória prodigiosa brotavam estórias antigas, adivinhas, provérbios e canções, que cantavas alegre e desinibidamente, sempre que te apetecia, face ao silêncio surpreso de quem te escutava, embevecido, e quase todos, muito mais novos e, não obstante, mais pobres em liberdade de gestos do que tu, que eras uma mulher tão religiosamente conservadora ! Eras, no entanto, muito inteligente, autêntica e transparente em tudo o que fazias. Comandavas a casa como se esta fosse um navio. O navio vencia as ondas do mar e tu ao leme sempre firme. Eras uma mulher maravilhosa. Com o teu desaparecimento ficou a casa, abandonada. As ervas invadiram tudo. Olho para as pedras e parece que perderam o jeito de falar, como antigamente parecia que falavam. Ali, o forninho, onde confeccionavas a broa de milho, o coelho com batatas novas ou as bolas com sardinhas, chouriço, ou presunto, e o bolo de azeite que é o folar à moda desta região. A adega, onde se guardava o vinho que durava até à Páscoa, e o excelente bagaço caseiro. O lagar, dentro do qual tu e os familiares pisavam os bagos das uvas para fazerem o vinho. Hoje…recantos sombrios, onde só os olhos saudosos, mas atentos, pousam. Nos quintais do rés-do-chão reinam as ervas e as silvas, que, juntamente com o noveleiro, seco – antes branquinho como a neve - rodeiam os bancos de pedra em redor da mesa de granito onde me sentava a ler ou a escrever ou a ver as pessoas a irem buscar a água à fonte situada no outro lado da estrada. E a figueira, que não parou de crescer, e cujos ramos, se não forem cortados, se aproximam da porta principal da casa no primeiro andar, em cuja sala de estar escrevo estas singelas palavras que invocam a tua memória. Os (a)loendros, tão pequenos que eram, e que foram plantados junto ao muro, estenderam os braços e ocupam o espaço central do terreno. As oliveiras, velhas, continuam a dar azeitonas! As parreiras, sem serem tratadas, ainda dão muitas uvas! A figueira está cheia de figos. No entanto, frutos que, se não forem apanhados, cairão podres no chão. O resto… são os sótãos cheios de arcas cobertas de pó e teias de aranha, com as madeiras a rangerem, e as telhas velhas nos telhados abaulados, e o pombal, já com poucos pombos, pois os caçadores vão atirando sempre que podem…
...mesa de granito onde me sentava a ler ou a escrever...
...o antigo lagar...
...a invasão das ervas...
...o tanque de granito para onde caía a água do poço antes de regar a terra...
Olhando para a casa e lembrando os momentos felizes, passados nela, penso que há pessoas que são como as estrelas: têm luz muito forte. E quando morrem... fica tudo muito escuro!

...telhados abaulados ...

Quintela de Azurara, 13 de Setembro de 2008

- Reedito agora. Porque as saudades mandam.

Eduardo Aleixo

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