sábado, 19 de fevereiro de 2011

Carta de Marta para Maria

"Amar a sua inocência foi o meu primeiro pecado "

- Marguerite Yourcenar

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" Há olhos que só olham o sonho e, quando o sonho se dissipa, ficam cegos " - Nuno Júdice - " Um canto na espessura do tempo"

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3 ( terceira carta )
- por Graça Pires

" Fecho os olhos para ancorar as mãos perante as ideias insensatas. Às vezes é preciso ignorar as leis da escrita, falar sem nexo, disfarçar as palavras indefesas. Seria mais fácil escrever-te de longe, se eu pudesse partir sem rumo, sem pensar voltar. Mas eu sabia que nenhuma parte de mim podia regressar à inocência. E a minha vida encheu-se de afazeres diários. « Andas inquieta e perturbada com muitas coisas, mas uma só é necessária», ele mo disse. A censura saindo-lhe dos lábios. Alastrando-me no sangue até doer. Palavras desajustadas ao imenso galope do meu peito. Ninguém me ensinou a fazer a distinção entre o lado mais prático da vida e o lado mais íntimo das emoções. Eu punha o mesmo desvelo no que fazia, no que pensava, no que sentia. Nunca foram tão íntimas as minhas mãos, ocupadas no lento prazer de preparar o fogo. Gostava de cumprir as tarefas de sempre, a rotina caseira, os mesmos hábitos. Gostava, igualmente, de ver os barcos que saíam de madrugada e de os ver voltar, rodeados de gaivotas, voando em círculos. Depois, coleccionava conchas de todos os tamanhos para entender as marés. E gostava de me esconder nos campos de cevada, deixando, por lá, a marca do meu corpo e a imensa deriva dos meus sonhos. Eu não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos. "
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11 Cartas de Marta para Maria,
in: "não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos" - livro de Graça Pires
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Foto Net
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