quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Não há lágrimas mais puras!

Tudo fica em mim
Pedra me edifica
Flor
Nervura de folha
Desenhos gravados nas conchas
Músicas legadas aos corações dos búzios
Dores, mágoas, promessas não cumpridas,
Desejos não satisfeitos,
Encruzilhadas, becos,
Bosques inventados em caleidoscópios de magia
Mas que o sol cru de uma manhã
Ou o vento agreste de uma noite
Ou as circunstâncias que a poesia não descreve
Bolinhas de sabão embatem contra as rochas...
Mas tudo fica no coração do poema
Atordoado
Sublimado
Sublime
Doce amado poema
Do amor mais puro que há
Perfume que as almas cheiram
Em cálices de suavidade sorridente
Bálsamo de perdão
Não verbalizado:
Não há culpas
Face aos enigmas poderosos
Que atravessam as nossas vidas!
Perante elas me inclino
No labirinto
Dos versos
Gravados nas paredes das grutas
Por onde passo alado
E digo:
- Não lágrimas mais puras
Mesmo com resíduos de mágoas
Nem sorrisos mais cristalinos
Nem silêncios mais carinhosos
Do que estes que ouço
À medida que vou escrevendo o meu poema...
-
In " Os caminhos do silêncio"
( a ser apresentado em Lisboa, em 5 de Novembro )

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O meu livro, " Os caminhos do silêncio".

Prefaciado por Isabel Mendes Ferreira, o livro, " Os caminhos do silêncio " ,será apresentado no dia 5 de novembro, pelas 15 horas, na Livraria/Bar, Les Enfants Terribles, Rua Bulhão Pato nº 1, em Lisboa ( ao lado do Teatro Maria Matos, junto à Av. de Roma ).
Na capa do livro pode ler-se a seguinte frase de Maurício Maeterlinck:
" As almas pesam-se no silêncio, como em pura água se pesa o oiro e a prata; e as palavras que pronunciamos não têm outro sentido senão o que procede do silêncio em que imergem".
Na contra-capa, pode ler-se o seguinte poema meu:
É importante escutar o que dizem os pássaros,
a voz do mar,
os sentimentos do vento,
a sonata do luar,
o namoro das pedras com as águas,
a sinfonia dos canaviais,
o rumorejar dos pássaros
antes do anoitar dos bicos
debaixo dos sovacos das penas...
Tantas palavras que escrevo para dizer
que isto é mais importante
do que os pensamentos ardilosos
que te povoam a mente
e com os quais, se dizes que sentes
a sábia música do silêncio...
mentes! ...
.
Espero nesse dia pelos meus amigos, que possam estar presentes.

domingo, 2 de outubro de 2011

Destino

Regresso sempre ao colo do silêncio!
Não te sei explicar!
Sou como as águas do rio,
Que têm como destino o mar... -
In " Os caminhos do silêncio". Chiado Editora.
Apresentaçao em 5 de Novembro. Em Lisboa.
-
Foto minha

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

NUDEZ

Terra nua com luz intensa e fresca ao longo dos revezes da lonjura. Regaço ilimitado, sem refúgios, esconderijos, encontros secretos, recolhimentos de oração. Nudez plena. Plana. Rasa. Deserto. Com poços de água fresca e pura. Meu bosque de brancura. Com todas as cores. E sombras. E portas. E janelas. Abertas. Laranja inexpugnável.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Outono, chegaste...

Já o sabia ! : as árvores já mo tinham dito, e o vento, lembrado! Já o sabia pelo escorregar dolente do sangue nas ânsias do meu corpo, pelo roçar lasso e ronronante com que as palavras se deleitavam no colo quente do poema, pela vontade silenciosa de imitar as árvores, ficando como elas languidamente recolhido, mesmo face ao desejo: um torpor, um adormecimento, uma aceitação de placidez, uma preferência suave e leitosa pela criança em detrimento do ser amante, fogoso...
Vem, Outono! Preciso de outras cores que tu trazes, e me acalmam, e me harmonizam com o universo. Dá-me o teu castanho claro, o teu amarelo torrado, o teu laranja de sol macio. Dá-me a suavidade que se respira nas tardes breves, a moderação e a sapiência que fornecem a energia às árvores para as tempestades do inverno, a maturação da uva que fica à espera da hora adequada para o vinho ser bebido em copos merecidos...
Preciso da tua concha, Outono! Não é hibernação, não! É o ritual adequado ao ritmo d0 meu corpo humanamente grandioso, como se fosse - e é - divinamente consagrado...É o regresso anual às nascentes do ser, ao tempo da criatividade maior, em que mais novo sou, seja qual for a idade que tiver, porque me aproximo do momento em que nasci, em que vou rever a minha estrela, encher-me da seiva do universo de onde vim: esperma de amor, baba de orvalho, carícias de átomos e de tudo o que é germinação latente no ventre da terra.
Assim me fazes renascer, Outono, e me preparas para o inverno, para todos os Invernos, violentos, sim, mas belos, e eu fico munido então, com as armas do amor pleno...
-
In, "Os caminhos do silêncio" - Foto Net

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Como não sorrir sequioso...

No fim sem fim dos caminhos fatigados
Surpresa e dolorosamente renascidos
Nos interstícios das rochas
Nos becos labirínticos das grutas
Nos recantos espinhosos dos conflitos
Brisas subterrâneas sibilinas
Pétalas de esperança, beijos, carícias, aromas
Para além das curvas sombrias dos túneis
Tão longo o caminhar em direcção à sinfonia das ondas!
Como não sorrir sequioso
Para o sorriso materno da manhã
Ou deitar-me no colo das areias despidas
Mas tão cheias à beira do mar?
-
In "Os caminhos do silêncio "
-
Foto minha

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

MAR

1. É preciso imaginar o que dizem os búzios.
É preciso imaginar o que dizem os búzios. Que conhecem os segredos do mar. Que o mar não deixa contar. Fica apenas um cantar soturno. Um lamento cavo e difuso. O estrondo prolongado do choque violento das vagas contra as tábuas dos barcos que submergem e com os barcos as mãos que acenam e imploram e dizem adeus. Os lábios que se beijam. Os corpos que se enlaçam. Os olhos que se fecham. Os choros e os gritos estrangulados na garganta das águas inclementes. Os sonhos acabados de nascer e sepultados no fundo do mar para sempre...
Eis o que dizem os búzios. Ou imagino que diriam. Se pudessem falar... -

2.

Já sei porque gosto do mar. Sou como ele, violento e calmo e solitário e acompanhado por todos os segredos, mistérios e sentimentos do mundo.

3.

De novo junto do mar, e sempre...já não apanho conchas, as raras, as mais lindas, como costumava dizer.

Limito-me a olhá-las, a acariciá-las,com amor e respeito e penso: não são minhas, são do mar que eu amo.

E sei que isto é assim, porque cresci e envelheci.

E acho que está bem a doçura do que sinto.

4.

Afinal, apanhei mais uma concha

Não fui eu que a escolhi

Foi ela que me escolheu

Vá-se lá saber porquê...

5.

Olhos de camelo vassourando a lonjura do deserto

Assim a gaivota grande de papo branco baloiça sobre as águas azuis e rasas e calmas do mar

Solitária esbelta e livre

Levanta voo brioso

E segue o parceiro que a chama

No voo alucinante sobre as águas...

Foto Net

terça-feira, 30 de agosto de 2011

De mãos dadas...

De mãos dadas com a vida e a morte,
Casado com o vento,
Sou rio,
E percebo a serenidade das cegonhas,
Com as asas abertas,
Protegendo-me as margens...
-
In " Os caminhos do silêncio "
-
Foto Net

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Barcos vazios com remos à espera

Pontes destruídas
Caminhos abandonados
Destinos
Que são sombras
Ilhas
Na ilha
Espreitando outras sombras
Nas areias do outro lado!...
.
Separando as sombras
Água vivas
E muitos barcos vazios
Com remos à espera
E pássaros incansáveis
Cantando a melodia dos abraços
Entre as margens!...
.
In " Os caminhos do silêncio "
.
Foto Net

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sobre os seixos da vazante

É luz a música dos pássaros
No teclado dos ramos
Ou nas folhas dos plátanos.
Que poema descreve
O cantarolar do riacho
Na garganta das pedras
Ou que palavra
No silêncio das noites de Agosto
A catarata das águas
Sobre os seixos da vazante
E as montanhas de xisto
Vestidas de silêncio
E eu deitado na tenda
Com todos os sonhos do mundo
Nada sabendo da vida
Deleitado na música das águas
Com a lua mexendo nos bicos dos cerros
E sem saber
Que esta música
E este silêncio
Ficariam para sempre no meu coração!...
-
In " Os caminhos do siêncio" -a publicar
-
Foto minha tirada em S. Tomé.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Poema de Graça Pires

Todas as palavras são adequadas
para evocar os dias para serem agarrados
à cal da casa onde nascemos.
Quase nada sei a meu respeito
desse tempo tão claro em que as sombras
eram apenas a antecipação da noite.
Tento imitar aquela inocência
próxima da brancura dos lírios
e do frémito do rio abraçando o mar.
Torna-se difícil encontrar os sinais
sobreviventes da memória: a prata do chocolate
pacientemente alisada, as velas dos moinhos,
as cerejas carnudas, a roupa a corar sobre a erva,
a claridade das mãos da minha mãe
carregadas de tarefas e de presságios.
-
In " A incidência da luz " - de Graça Pires.
Com prefácio de Isabel Mendes Ferreira.
E Posfácio de Alice Macedo Campos.
-
Foto Net

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Longe de ser eu

Longe de ser eu
As águas não são claras
Mesmo que o poema seja belo
E o beijo seja ardente.
Longe de ser eu
Estou longe da nascente. -
.
Im " As palavras são de água " _
A foto é de Piedade Sol, a quem agradeço

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Diria a criança se pensasse como os homens!

Tudo é puro nos olhos limpos da alma,
bico de ave
com asas leves.
Assim nasce a criança no
regaço da manhã.
Tudo é sem abrigo, nudez plena,
frutos auto-suficientes sobre a terra.
As tardes são calmas.
Nas noites acenam as estrelas.
Nem sonhos há!
Tu és o sonho
que te ouves sem saber
no sonho!...
E as águas cantam nos regatos,
luminosas,
contentes...
- Assim devia ser o mundo! -
diria a criança se
pensasse como os homens!
-
In " Os caminhos do silêncio " - a publicar
-
Foto minha. S. Tomé.

domingo, 10 de julho de 2011

Cavalgando as sílabas do silêncio

" O tempo de escrever como outro
tempo
largo e de lago
espelhado em mil distâncias
e montanhas" - ana luísa amaral -
in " Entre dois rios e outras noites"
-
Preciso do tempo para o meu tempo como se não tivesse ( houvesse ) tempo. Único espaço onde respiro e me sinto livre. Nem preciso de espelho para me ver o rosto que tenho e ser a respiração que respiro. Pode existir ruído, mas só o silêncio se ouve. Catedral de espaço ilimitado. Autenticidade cinzelada a sulco de lâmina no jade mais profundo e puro. Arco luminescente giza o discurso língua vibrante entre o céu e a terra, entre as águas e o fogo, entre a vida e a morte. No céu desta boca de lume me vejo e falo e me atasco leve e me voo semente na terra amada e sulco as águas bote por janelas de vagas onde assomo as corolas ronronantes do mistério. No centro dessa boca ventre sou eterna criança não nascida com memórias sem palavras e receios de esquecimentos de um tempo ainda por nascer! Mas tudo decifro cavalgando as sílabas do silêncio que enche como almas velhas ondulantes o espaço sem tempo da catedral sem nomes, diluídos nos altares do amor pleno...
- In " Os caminhos do silêncio ", a publicar - Foto de Frutuosa Santos

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Chuva, antiga...

Chove e gosto; e sinto, sempre,que o som da chuva é muito antigo; e que chove sobre a terra, sobre mim, e sobre o mundo, e eu sou a terra, o mundo, o tempo, a chuva e o som da chuva. Há, no som da chuva, que cai sobre mim, ao ouvir a chuva, o tempo da chuva e o tempo do mundo e o tempo do tempo e o tempo de mim!...
É como se eu fosse da idade da chuva , da idade da terra, da idade do mundo, da idade do tempo, e por isso não me basta dizer : chove, e é bom ouvir a chuva, etc...Porque algo me faz lembrar o inlembrável e ao dizer isto sei que não é construção da mente para efeitos estilísticos...Não!...É sentimento. Antigo.Como a chuva. E o tempo...
Desde quando choves, chuva, e sobre mim roças lembranças que não desvendas?
-
In " Os caminhos do silêncio", a publicar.