quarta-feira, 12 de junho de 2013

ICH BIN GREGA




- Texto de Clara Ferreira Alves

............" Eu vi Delos antes de 2012. Um lugar arqueológico e cuidado, com um museu bem guardado onde se podiam ver belas peças. Agora, Delos é um lugar de contemplação da nossa falência. Delos é Património da Humanidade e a Humanidade somos nós , os civilizados e os bárbaros, os chineses confusos e os germânicos ostracizados.
No barco que vem de Delos, ao deixar a cidade em ruínas, vejo a nossa civilização agonizar. Todas as complexas civilizações morreram. Nem o nosso avanço tecnológico nem a estabilidade das nossas instituições democráticas nos livrará desta morte, em que o passado deixou de ser respeitado e passou a ser ignorado. Ao meu lado, os jovens orientais, agarrados aos iPhones, suspiram por rede, olhos fixos no ecrã minúsculo. Delos não faz parte da sua substância. Não lhes pertence. Não lhes interessa. Um barco de desapontados.
Em Delos, Património da Humanidade, as pedras foram largadas às silvas e aos cardos, às lagartixas e aos corvos. Nasce um pinhal no meio de colunas. Grande parte da cidade está vedada porque se tornou perigosa. As cisternas estão cheias de água estagnada com mosquitos. As víboras rastejam nas sombras. O teatro de Dyonisos não se pode visitar. Nem as casas, a de Dyonisos, de Cleópatra, do Tridente. O museu está deserto e sem guardas, com alas fechadas. O Terraço dos Leões foi invadido pela natureza. A loja fechou. O Estado grego, sem dinheiro, sem funcionários, sem ministério da Cultura, demitiu-se em bloco. As ervas daninhas e as flores silvestres, os répteis e os insetos, devoram Delos. A cidade está submersa em vegetação e abandono e à guarda do tempo, esse grande escltor. Angkor Vat renasce, Delos morre.
E que deixará esta civilização que rivalize com a beleza de uma estatueta de Afrodite ou ma figurinha de terracota? Um iPad."

Livro: " Estado de guerra "
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