quarta-feira, 5 de junho de 2013



Uma gota de água da mais pura

Uma gota de água da mais pura já não é suficiente para salvar o meu corpo da secura, da aridez desumana dos discursos por mais lógicos, da alienação do espectáculo verbal e estatístico face ao rosto carente e desamparado das necessidades essenciais dos homens.
Uma gota de água da mais pura já não é suficiente, ouço o país queixar-se  com  voz débil de  amargura.O deserto em volta do meu corpo está pejado de bicos sedentos que querem roubar o bem escasso da água que nos resta e que tanto nos custou a retirar das profundezas da terra.
É o tempo-limite. Foz amarga dos rios ideológicos antigos e modernos.
As palavras sem culpa são as únicas entidades amigas que me rodeiam.
Palavras cansadas de saírem à rua.
De gritarem.
De apelarem para valores ensinados ao longo de mais do que uma geração, mas  agora traiçoeiramente descartados,  esquecidos, escamoteados, espezinhados, desprezados por quem manda de modo  hipócrita, dito democrático.
O que vai acontecer?
Não sei.
Recolho-me.
No deserto olho desencantado para as estrelas.
Fatigado, vou adormecer.
Na esperança porém, de, ao acordar, poder ouvir  bater  à porta do país a luz benfazeja e justa  de um novo  amanhecer.

Eduardo Aleixo
Lisboa. Mês de Junho de 2013, cheio de desencanto.


Postar um comentário