quarta-feira, 10 de novembro de 2010

2 poemas de Isabel Mendes Ferreira

( Foto minha - águas d0 Guadiana em Mértola)

1.

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de água. de muita água. preciso. para improvisar outra ardósia sem estilhaços nem balas nem punhais. onde inscrever outra terra. e ser de novo licor e musgo. insidioso o caminho para a montanha. infiel luar e resgatar falsos poderes. de água. de toda a água. preciso. para cuspir a saliva de um cavalo moribundo. três tiros bastam. para te salvar. frenética criatura d0 sótão da agonia. -------------------- país errante.

sobre a mesa deixo o registo. álgido. em ruínas. errância da água.

( Foto de Lucília Ramos - águas de Vilarinho - http://lucy-natureza.blogspot.com )

sim. como Caeiro. " a única coisa que fazia por si era andar pelos caminhos do mundo, para que os outros, e a chuva e o sol e o vento, lhe dessem encontrões"

-

assim deambulamos desprendidos e dissolutos sobre as escamas.

arranhando a trágica elipse do tédio. preciso de toda a água. para ser faina de cal.e foice---------------------------------------------------------

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----------- e assim legendo um nome . que à mercê das águas é memória.

aguda e opulenta. as coisas vivas primitivas e ardentes irrompem. fulvas de sabedoria.

e

porque a evidência é o contrário do sentimento

des.sinto este país.

em evidente falência. nua. ---------------------- sentida na pele.

-

incompetente círculo. rigoroso destino que hiberna. cansado branco

e cego

vertiginosamente traído.

-

as coisas vivas primitivas e ardentes -------------- ardem. e resistem.

-

e se o " corpo do eu " é entidade que pensa ---------------- que pensa este

país?

imperial curva que se curva à roda dos nulos.

-

2.

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( Foto Net ) aloendro

talvez esmague buganvílias e cerre as pálpebras. talvez encha de

amoras o seio da tarde e finja ser pirata nas tuas mãos. talvez.

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talvez volte de azul ou de noite ou de branco. talvez de abismo

líquido e profundo no retorno das giestas sem flor e dos vales oblí-

quos. talvez dos cheiros da montanha a cavalgar a face oculta da lua

e das areias. talvez a respiração ampla e gráfica das tuas mãos nos

meus ombros.

modulação sensível da neve e das fontes. os teus olhos. talvez volte.

talvez venha de aloendro.

- Isabel Mendes Ferreira, in " As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar "

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