quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Fome e sede

Fome e sede da expressividade firme mas serena do silêncio,
voz insuspeita do inefável perfume de todas as rosas,
do afago fresco das brisas sobre os cabelos das ervas perfeitas,
da harmonia e plenitude dos abraços  sem espaço e sem tempo,
onde não há palavras como deve e haver e ter e ganhar e competir,
mas apenas a clareira dos bosques onde nos sentamos à beira dos regatos
e aguardamos o canto das aves para de novo partirmos,
mais leves, mais fraternos  e  mais amorosos...

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O teu tom













Qual o instrumento que tocas
na orquestra polifónica do Universo?
Qual o  teu rosto,
a tua voz,
o teu som,
o teu tom,
a tua missão?
Eis o que importa!
Antes que a morte...
Nos bata à porta !


( Foto Net )

domingo, 15 de julho de 2012

Somos ramos...



Aqui estamos.
Caminhamos.
Para onde vamos?
Não nos largamos.
Somos ramos.
Da mesma árvore.
Cujo nome, ignoramos !
-
Lx, 13 /1/2012
-
Foto Net

sábado, 7 de julho de 2012

Crescemos com a bênção das águas






É como sair de um túnel
Quase como um parto
Preparado pelo tempo,
Remoído !
Como definir
A sensação
Que oprime 
E liberta o coração
A mistura das folhas secas
Dos labirintos das mágoas
Que se dissolvem nas chuvas
Com as pétalas vermelhas das rosas
Podiam ser amarelas
- seios de mimosas -
Perfumadas auroras
Que vencerão a chuva
Olhar diferente para o mundo
Casa com alicerces que ruíram
Sorrisos novos
Com asas mais leves saímos dos becos
E assim crescemos 
E envelhecemos 
Com a bênção das águas...
-
In "Os caminhos de Silêncio " - Chiado Editora, Novembro 2011


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ao meu pai


A tua presença é constante
Nos caminhos que me ensinaste.
Já partiste.
Mas sinto o teu respirar.
-
( poema que me veio à mente no percurso de um caminho do meu alentejo )

terça-feira, 19 de junho de 2012

Diz-me a brisa que passa...

Puro o azul do céu,
O verde das folhas das árvores
e da relva dos jardins,
O vermelho das rosas,
O amarelo dos malmequeres,
O branco dos aloendros,
O rosa das hortênsias,
O lilás dos jacarandás...
......................................
- Todas as cores são puras -
diz-me a brisa que passa
na frescura da manhã !
-
Jacarandá - foto Net

terça-feira, 5 de junho de 2012

Vidas nossas de Amigos idos!

Palavras prontas,
Guardadas,
Só agora reveladas,
Mas com voz de alma desprendida!
Vidas nossas de Amigos idos
Abraços, afagos, desabafos perdidos
Por não dados!...
-
In " Os caminhos do silêncio " - meu último livro

sábado, 26 de maio de 2012

Escreves azul sobre o branco ao lado do verde

Observas o voo perfumado do sonho sonhado na cadeira onde estiveste sentado, e cheiras o perfume do sonho, e revês-te sentado a sonhar ao lado das árvores ( distraído ao longo os anos  sem atentares na identidade  da cadeira do sonho, só agora vês como é inócuo, infértil, amputado, embora sublime, o aroma que sobe no céu infinito e deixa confusas as estrelas  debruçadas nas janelas  do etéreo sobre as águas claras dos rios da terra, como que cheias de saudades das raízes, da frescura da terra, das mãos calosas que a trabalham, do cheiro do suor, do salgado da lágrima, da dança do riso, da liberdade festiva da aventura e da transgressão, da quentura dos corpos dos seres e da terra, ausências notadas nos incensos flutuantes evolando dos turíbulos movimentados por tuas mãos inaptas, impreparadas, inúteis ...)...!!

Acariciado pela luz do sol, e empurrado pela brisa, escreves azul em cima do branco do papel, sobre a mesa ao lado do verde das árvores floridas e com frutos...

Não resististe ao impulso conhecido em direcção às nascentes e aos regaços que sentes desde uma idade que não sabes localizar no mistério do tempo, e foste sentar-te ao lado do verde das árvores, e levaste a folha branca do papel, vazia como tu, vazio do verde, mas cheio dos cinzentos reflexos ecos ruídos guerras e conflitos, e imploraste pelo verde, o teu bosque de plenitude, brasonado em ti, mas situado muito para além da margem do teu rio de águas adormecidas, esquecidas, aparentemente abandonadas!...

Sentas-te então ao lado do verde, e começas por escrever: acariciado pela luz do sol, e assim permaneces, e vais mergulhando no colo da tua face não lembrada, até que já não te dás conta de que escreves, não a palavra: acariciado, mas sim inundado pela luz, e que já não escreves  que te sentes empurrado pela brisa e que deixas de falar  em árvores floridas  e em frutos, porque o teu olhar, dissolvido nos rios que vão na corrente dos leitos frescos por dentro dos troncos das árvores e arbustos, é agora fotossíntese emergente nos dedos esguios das gavinhas e nos sorrisos embriagados  das folhas verdes balouçando no mar azul do céu que com um abraço infinito te recebe.

Dás contigo sem palavras que escrever. A caneta suspensa  no sorriso da luz. O corpo aliviado da necessidade de pensar. Bote atrelado ao cais, reencontro dos seres e das fibras e das pedras e dos átomos  do teu corpo com os átomos de todas as estrelas do universo. É o momento em que terminas o poema e olhas com outro olhar, e acaricias com outras mãos, as tuas, mas cheias de amor pleno, a mesa, e a cadeira, onde sentado escreveste um poema sobre o sonho.
-
In "Os Caminhos do Silêncio" , Chiado Editora, Outubro de 2011
.
Foto Net

sábado, 12 de maio de 2012

Cavalgando as sílabas do silêncio

Preciso do tempo para o meu tempo como se não tivesse (houvesse) tempo. Único espaço onde respiro e me sinto livre.  Nem preciso de espelho para me ver o rosto que tenho e ser a respiração que respiro. Pode existir ruído, mas só o silêncio se ouve. Catedral de espaço ilimitado. Autenticidade cinzelada a sulco de lâmina no  jade mais profundo e puro. Arco luminescente giza o discurso língua vibrante entre o céu e a terra, entre as águas e o fogo, entre a vida e a morte. No céu desta boca de lume me vejo e falo e me atasco leve e me voo semente na terra amada e sulco as águas bote por janelas de vagas onde assomo as corolas ronronantes do mistério.No centro desta boca ventre sou eterna criança não nascida com memórias sem palavras e receios de esquecimentos de um tempo ainda por nascer ! Mas tudo decifro cavalgando as sílabas do silêncio que enche como almas velhas ondulantes o espaço sem tempo da catedral sem nomes, diluídos nos altares do amor pleno.

In " Os Caminhos do Silêncio ", Chiado Editora, Novembro de 2011      

( Foto minha, Costa da Caparica )

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Com a Vida



Não escrevo sobre
Mas com
A Vida
Que me escreve
Nas palavras
Em que sou !

-
In " Os caminhos do silêncio" - Chiado Editora, Nov. 2011
-
Foto Net

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Só nos sonhos vens



Só nos sonhos vens
tu que não vejo e com quem não falo
há tanto tempo
Surges de vez em quando nos sonhos que tenho
sempre calma e não sei se falamos
mas acho que sim
não sei
sei que és uma presença serena
sinto no sonho a perfeição
a harmonia
se falamos ou não 
não sei
mas não me lembro de palavras
lembro sim de gestos
mas tudo suave
a encher o coração
que pelos vistos não dorme.
Será a alma?!
Não sei.
Sei que assim devia ser o mundo chamado do real.
Sei que o mundo chamado do real é a nascente do sonho,
mas também sei que é esta oposição que dá valor
ao sonho.
Mas também penso
que as nossas almas se encontram
e já decidiram
( - será ?! )
que é melhor assim
a gente encontrar-se no sonho
e acordarmos  com a sensação doce e suave e feliz
de que mais vale o encontro nos sonhos 
do que na vida
onde se nos encontrássemos
nenhuma palavra já nos traria a paz
porque já não sabemos usar as palavras.
Então
bem melhor será que nos encontremos nos sonhos...
Será que...se me leres...as palavras que digo se
transformam em verdadeiras?
Isto é: será que também sentes que te encontras
comigo nos sonhos?
Ah!!
Se me leres e nada sentires, o que escrevo é
indubitavelmente delírio
ou expressão de desejos  inconscientes!
Se sentires o que digo, ficas a saber que não 
vale a pena
trocar o mundo dos sonhos por qualquer encontro
em qualquer local
do mundo onde habitamos.
E se nos encontrarmos, poucas palavras devemos
proferir, apenas as 
indispensáveis. Aliás, como disse, já nem sabemos 
usar as palavras!
Se nada sentires, deixa-me dizer que os encontros
nesta vida
deveriam ser aqueles que tenho contigo nos 
sonhos!
-
In meu último livro: " Os caminhos do silêncio " , Chiado Editora, Novembro 2011

domingo, 1 de abril de 2012

Estou de regresso aos ares africans, desta feita em Bissau, uma pequena cidade poeirenta, descaída, cheia de marcas dos últimos conflitos nos edificios a cair, mas também cheia de cores e sabores por descobrir. Daqui parti para a região de Quinara por uns dias. É indiscritível. Estar numa tabanca na Guiné, uma dita cidade (TiTe), mas que mais parece uma aldeola pequena, sem estradas, sem carros, sem cafés/lojas, sem energia , sem água canalizada, e muito menos internet, onde fiquei alojada numa situação não planeada, numa casa vazia com toneladas de pó no meio do escuro e desconhecido…bem, é complicado descrever cada espaço de sentimento e imagem vividas em poucas horas, em que o sono foi praticamente vencido pela ansiedade, medo e quase pânico. De estar sozinha, em primeiro lugar, de estar contextualmente sozinha, sobretudo, de não ver um palmo à frente e ouvir imensos sons estranhos por todo o lado, ainda por cima parecendo que estavam todos dentro da casa onde nada se via. E a certa hora da noite chegou um silêncio absoluto, outro lugar estranho dentro de tudo o resto que me impressionou… Dei por mim a deambular em pensamento sobre a vida das pequenas tabancas que visitei, das suas famílias e seus hábitos. Do que significará ser balanta, biafada ou papéis... Dos recantos que não percebi, das pequenas casinhas que constroem para o espirito protector “ishram”, dos instrumentos que usam para cozinhar, de toda a logística familiar – milhentas crianças e bebes, água para ir buscar, banhos, roupa para lavar, lenha, etc –dos chás típicos que fazem com uma erva, enfim, de tudo que é tão diferente, como eles devem achar de mim ao olhar e chamar “Biancaaa”… Até breve.Rita

sábado, 24 de março de 2012

As palavras são de água

As palavras rebolam pela estrada aberta 
e eu senti o momento da abertura!
Uma fonte se abriu
quando espetei o dedo no ponto certo
da argila da montanha 
e a água correu!
Recebo-a com cuidado na ponta dos meus dedos,
nem penso,
deixo-a correr pelas mãos
e lavo com ela o corpo todo.
É o momento da minha ligação ao universo!
Agora revejo o meu rosto verdadeiro
que se expressa
feliz ou triste, não importa.
É a água da Fonte!
Não há estrangulamentos ...
Sou a água que corre e me ilumina.
As palavras são de água.
Correm.
Ouvem-se no silêncio.
A alma está contente porque eu a ouvi
no momento certo.
Ela esperava que eu a ouvisse.
Ela espera sempre ser ouvida.
Nem sempre a ouço...
Ando muitas vezes distraído...
Mas há momentos que não sei explicar:
- Descubro fontes!
São os momentos do encontro maior!
- O encontro mágico do amor.
-
In, " As palavras são de água " - Chiado Editora, Setembro de 2009
-
Foto Net

sexta-feira, 16 de março de 2012

Dia que amanhã já findou

Poema de  Rita Aleixo
.

Perscruto o passado
Perscruto o futuro
Sondo memórias, falas e sonhos
Vejo imagens, palavras e mundos

Só para ver se me encontro
.
Mas nem num nem noutro mundo
Me escondo
Nem num nem noutro
Passado e futuro
Vivo
.
Apenas com um e outro
Me inspiro
Sorvo ar, experiência e valentia
Algum amor, inocência e sabedoria
Para acabar no ponto onde agora me encontro 
- O hoje
.
Dia que amanhã já findou
e onde amanhã já não sou.
.
RITA ALEIXO
.
Foto Net

domingo, 11 de março de 2012

ECOS...

As vozes das almas calam-se face à inundação alienada dos ecos que ressaltam sobre as montanhas da pele. O ruído que provocam faz cair as brumas sobre o anúncio de todos os sentimentos verdadeiros.
Há que partir da voz original e que ela não se perca.
Só ela fala das águas puras do interior das rochas e deixa ver o essencial do mundo.
É demasiado o ruído e este faz tremer as pontes entre as águas soltas e as que correm transparentes no ventre secreto da terra.
Por isso fujo dos ecos prevalecentes sobre os poros  das encostas da pedra.
Prefiro a voz pura, tosca, mas original, que se eleva na madrugada como as névoas na superfície das águas quando o sol desce no vale e vai no bico das cegonhas dizer o que a alma diz sem outra pretensão que não seja:
- Estou aqui, só, debaixo do céu,   mas acompanhado por todo o amor do mundo !...
-
In  " Os caminhos do silêncio ", Chiado Editora, Novembro 2011