sábado, 30 de outubro de 2010

RILKE (2)

Sobre a Natureza
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"Brincamos com forças obscuras que não podem ser capturadas com os nomes que lhes damos, como crianças brincando com o fogo, e por um momento é como se toda a energia tivesse permanecido dormente na totalidade dos objectos até agora, e eis que chegamos para aplicá-la na nossa vida fugaz e nas suas exigências. Mas, repetidas vezes ao longo de milénios, essas forças livram-se dos seus nomes e erguem-se como uma classe oprimida contra os seus pequenos senhores, ou nem mesmo contra eles - elas simplesmente erguem-se, e as diversas culturas deslizam dos ombros da Terra, que se torna novamente grande, vasta e sozinha com os seus oceanos, árvores e estrelas.
O que significa o facto de transformarmos a superfície mais externa da Terra, embelezarmos as florestas e os prados e extrairmos carvão e minerais da sua crosta, de recebermos os frutos das árvores como se fossem destinados a nós, se nos lembrarmos pelo menos de uma única hora em que a natureza agiu além de nós, além das nossas esperanças, além da nossa vida, com essa sublime nobreza e indiferença que preenchem todos os seus gestos? Ela não sabe nada de nós. E, não importa o que os seres humanos tenham realizado, não há um deles que haja alcançado tamanha grandeza a ponto de a natureza dividir com ele a sua dor ou unir-se a ele no seu júbilo. Por vezes, a natureza acompanhou momentos grandiosos e eternos da história com a sua música potente, ensurdecedora, ou os ventos pareceram parar na iminência de uma decisão, toda a natureza quieta, com a respiração em suspenso, ou ela rodeava um instante de felicidade social inofensiva com florações ondulantes, borboletas voando de um lado ao outro, ventos saltitantes - mas apenas para se desviar no momento seguinte e abandonar aquele com que, há pouco, tudo parecia compartilhar."
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"O mais extremo e profundo de que as grandes coisas da arte são feitas reside em toda a natureza; ele cresce com todos os campos, todas as cotovias sabem disso, e nada senão ele faz as árvores florescerem. Mas ele está oculto ( enquanto nos objectos de arte é erguido em silêncio absoluto - como um ostensório ), está disseminado e quase perdido ( enquanto as coisas de arte o contêm: reunido, reencontrado, para sempre preservado ). E o caminho do nosso desenvolvimento, um caminho difícil, árduo, obstruído por centenas de circunstâncias, é também reconhecer o grande, o espiritualmente necessário, o infinito, enfim, onde o mais extremo e profundo não pode ser capturado por um olhar, onde é quase impossível agarrá-lo, a não ser por um trabalho de gata borralheira. A vida é severa e madrasta como a rainha má do conto de fadas; mas ao mesmo tempo não lhe faltam as forças amáveis diligentes que acabam por realizar - para quem é bom e paciente- o trabalho de fazer sozinho."
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"O que captamos como primavera , Deus o vê como um sorriso fugidio,pequeno, que passa sobre a Terra. A Terra parece lembrar-se de alguma coisa, que no verão ela conta a toda a gente, até que se torna mais sábia no grande silêncio outonal com que faz confidências aos solitários. Todas as primaveras que ambos já vivemos, reunidas, ainda não bastam para encher um segundo de Deus. A primavera que Deus assinala não deve ficar apenas nas árvores e nos prados, mas precisa, de alguma maneira, tornar-se poderosa nas pessoas, pois então ela ocorre, por assim dizer, não no tempo, mas na eternidade e na presença de Deus."
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" É difícil viver neste mundo porque há pouco amor entre a Natureza e o Homem e entre o Homem e Deus. O Homem não precisa de amar nem a natureza nem Deus - mas deve comportar-se em relação a Ele do mesmo modo que a natureza o faz. "
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Rainer Maria Rilke
In, " Da Natureza, Da Arte e Da Linguagem"
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Fotos de À Beira de Água tiradas na Ilha de S. Tome
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REEDIÇÂO - dedicado à Rita que regressou definitivamente de S. Tomé
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