quinta-feira, 28 de junho de 2012
Ao meu pai
A tua presença é constante
Nos caminhos que me ensinaste.
Já partiste.
Mas sinto o teu respirar.
-
( poema que me veio à mente no percurso de um caminho do meu alentejo )
terça-feira, 19 de junho de 2012
Diz-me a brisa que passa...
Puro o azul do céu,
O verde das folhas das árvores
e da relva dos jardins,
O vermelho das rosas,
O amarelo dos malmequeres,
O branco dos aloendros,
O rosa das hortênsias,
O lilás dos jacarandás...
......................................
- Todas as cores são puras -
diz-me a brisa que passa
na frescura da manhã !
-
Jacarandá - foto Net
O verde das folhas das árvores
e da relva dos jardins,
O vermelho das rosas,
O amarelo dos malmequeres,
O branco dos aloendros,
O rosa das hortênsias,
O lilás dos jacarandás...
......................................
- Todas as cores são puras -
diz-me a brisa que passa
na frescura da manhã !
-
Jacarandá - foto Net
terça-feira, 5 de junho de 2012
Vidas nossas de Amigos idos!
Palavras prontas,
Guardadas,
Só agora reveladas,
Mas com voz de alma desprendida!
Vidas nossas de Amigos idos
Abraços, afagos, desabafos perdidos
Por não dados!...
-
In " Os caminhos do silêncio " - meu último livro
Guardadas,
Só agora reveladas,
Mas com voz de alma desprendida!
Vidas nossas de Amigos idos
Abraços, afagos, desabafos perdidos
-
In " Os caminhos do silêncio " - meu último livro
sábado, 26 de maio de 2012
Escreves azul sobre o branco ao lado do verde
Observas o voo perfumado do sonho sonhado na cadeira onde estiveste sentado, e cheiras o perfume do sonho, e revês-te sentado a sonhar ao lado das árvores ( distraído ao longo os anos sem atentares na identidade da cadeira do sonho, só agora vês como é inócuo, infértil, amputado, embora sublime, o aroma que sobe no céu infinito e deixa confusas as estrelas debruçadas nas janelas do etéreo sobre as águas claras dos rios da terra, como que cheias de saudades das raízes, da frescura da terra, das mãos calosas que a trabalham, do cheiro do suor, do salgado da lágrima, da dança do riso, da liberdade festiva da aventura e da transgressão, da quentura dos corpos dos seres e da terra, ausências notadas nos incensos flutuantes evolando dos turíbulos movimentados por tuas mãos inaptas, impreparadas, inúteis ...)...!!
Acariciado pela luz do sol, e empurrado pela brisa, escreves azul em cima do branco do papel, sobre a mesa ao lado do verde das árvores floridas e com frutos...
Não resististe ao impulso conhecido em direcção às nascentes e aos regaços que sentes desde uma idade que não sabes localizar no mistério do tempo, e foste sentar-te ao lado do verde das árvores, e levaste a folha branca do papel, vazia como tu, vazio do verde, mas cheio dos cinzentos reflexos ecos ruídos guerras e conflitos, e imploraste pelo verde, o teu bosque de plenitude, brasonado em ti, mas situado muito para além da margem do teu rio de águas adormecidas, esquecidas, aparentemente abandonadas!...
Sentas-te então ao lado do verde, e começas por escrever: acariciado pela luz do sol, e assim permaneces, e vais mergulhando no colo da tua face não lembrada, até que já não te dás conta de que escreves, não a palavra: acariciado, mas sim inundado pela luz, e que já não escreves que te sentes empurrado pela brisa e que deixas de falar em árvores floridas e em frutos, porque o teu olhar, dissolvido nos rios que vão na corrente dos leitos frescos por dentro dos troncos das árvores e arbustos, é agora fotossíntese emergente nos dedos esguios das gavinhas e nos sorrisos embriagados das folhas verdes balouçando no mar azul do céu que com um abraço infinito te recebe.
Dás contigo sem palavras que escrever. A caneta suspensa no sorriso da luz. O corpo aliviado da necessidade de pensar. Bote atrelado ao cais, reencontro dos seres e das fibras e das pedras e dos átomos do teu corpo com os átomos de todas as estrelas do universo. É o momento em que terminas o poema e olhas com outro olhar, e acaricias com outras mãos, as tuas, mas cheias de amor pleno, a mesa, e a cadeira, onde sentado escreveste um poema sobre o sonho.
-In "Os Caminhos do Silêncio" , Chiado Editora, Outubro de 2011
.
Foto Net
sábado, 12 de maio de 2012
Cavalgando as sílabas do silêncio
Preciso do tempo para o meu tempo como se não tivesse (houvesse) tempo. Único espaço onde respiro e me sinto livre. Nem preciso de espelho para me ver o rosto que tenho e ser a respiração que respiro. Pode existir ruído, mas só o silêncio se ouve. Catedral de espaço ilimitado. Autenticidade cinzelada a sulco de lâmina no jade mais profundo e puro. Arco luminescente giza o discurso língua vibrante entre o céu e a terra, entre as águas e o fogo, entre a vida e a morte. No céu desta boca de lume me vejo e falo e me atasco leve e me voo semente na terra amada e sulco as águas bote por janelas de vagas onde assomo as corolas ronronantes do mistério.No centro desta boca ventre sou eterna criança não nascida com memórias sem palavras e receios de esquecimentos de um tempo ainda por nascer ! Mas tudo decifro cavalgando as sílabas do silêncio que enche como almas velhas ondulantes o espaço sem tempo da catedral sem nomes, diluídos nos altares do amor pleno.
In " Os Caminhos do Silêncio ", Chiado Editora, Novembro de 2011
( Foto minha, Costa da Caparica )
( Foto minha, Costa da Caparica )
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Com a Vida
Não escrevo sobre
Mas com
A Vida
Que me escreve
Nas palavras
Em que sou !
-
In " Os caminhos do silêncio" - Chiado Editora, Nov. 2011
-
Foto Net
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Só nos sonhos vens
Só nos sonhos vens
tu que não vejo e com quem não falo
há tanto tempo
Surges de vez em quando nos sonhos que tenho
sempre calma e não sei se falamos
mas acho que sim
não sei
sei que és uma presença serena
sinto no sonho a perfeição
a harmonia
se falamos ou não
não sei
mas não me lembro de palavras
lembro sim de gestos
mas tudo suave
a encher o coração
que pelos vistos não dorme.
Será a alma?!
Não sei.
Sei que assim devia ser o mundo chamado do real.
Sei que o mundo chamado do real é a nascente do sonho,
mas também sei que é esta oposição que dá valor
ao sonho.
Mas também penso
que as nossas almas se encontram
e já decidiram
( - será ?! )
que é melhor assim
a gente encontrar-se no sonho
e acordarmos com a sensação doce e suave e feliz
de que mais vale o encontro nos sonhos
do que na vida
onde se nos encontrássemos
nenhuma palavra já nos traria a paz
porque já não sabemos usar as palavras.
Então
bem melhor será que nos encontremos nos sonhos...
Será que...se me leres...as palavras que digo se
transformam em verdadeiras?
Isto é: será que também sentes que te encontras
comigo nos sonhos?
Ah!!
Se me leres e nada sentires, o que escrevo é
indubitavelmente delírio
ou expressão de desejos inconscientes!
Se sentires o que digo, ficas a saber que não
vale a pena
trocar o mundo dos sonhos por qualquer encontro
em qualquer local
do mundo onde habitamos.
E se nos encontrarmos, poucas palavras devemos
proferir, apenas as
indispensáveis. Aliás, como disse, já nem sabemos
usar as palavras!
Se nada sentires, deixa-me dizer que os encontros
nesta vida
deveriam ser aqueles que tenho contigo nos
sonhos!
-
In meu último livro: " Os caminhos do silêncio " , Chiado Editora, Novembro 2011
domingo, 1 de abril de 2012
Estou de regresso aos ares africans, desta feita em Bissau, uma pequena cidade poeirenta, descaída, cheia de marcas dos últimos conflitos nos edificios a cair, mas também cheia de cores e sabores por descobrir.
Daqui parti para a região de Quinara por uns dias. É indiscritível. Estar numa tabanca na Guiné, uma dita cidade (TiTe), mas que mais parece uma aldeola pequena, sem estradas, sem
carros, sem cafés/lojas, sem energia , sem água canalizada, e muito menos
internet, onde fiquei alojada numa situação não planeada, numa casa vazia com
toneladas de pó no meio do escuro e desconhecido…bem, é complicado descrever
cada espaço de sentimento e imagem vividas em poucas horas, em que o sono foi
praticamente vencido pela ansiedade, medo e quase pânico. De estar sozinha, em primeiro lugar, de estar contextualmente sozinha, sobretudo, de não ver um palmo à frente e ouvir
imensos sons estranhos por todo o lado, ainda por cima parecendo que estavam
todos dentro da casa onde nada se via. E a certa hora da noite chegou um silêncio absoluto, outro
lugar estranho dentro de tudo o resto que me impressionou…
Dei por mim a deambular em pensamento sobre a vida das pequenas tabancas que visitei, das suas famílias e seus hábitos. Do que significará ser balanta, biafada ou papéis... Dos recantos que não percebi, das pequenas casinhas que constroem para o espirito protector “ishram”, dos
instrumentos que usam para cozinhar, de toda a logística familiar – milhentas crianças e bebes, água para ir buscar, banhos, roupa para lavar, lenha, etc –dos chás típicos que fazem com uma erva, enfim, de tudo que é tão diferente, como eles devem achar de mim ao olhar e chamar “Biancaaa”…
Até breve.Rita
sábado, 24 de março de 2012
As palavras são de água
As palavras rebolam pela estrada aberta
e eu senti o momento da abertura!
Uma fonte se abriu
quando espetei o dedo no ponto certo
da argila da montanha
e a água correu!
Recebo-a com cuidado na ponta dos meus dedos,
nem penso,
deixo-a correr pelas mãos
e lavo com ela o corpo todo.
É o momento da minha ligação ao universo!
Agora revejo o meu rosto verdadeiro
que se expressa
feliz ou triste, não importa.
É a água da Fonte!
Não há estrangulamentos ...
Sou a água que corre e me ilumina.
As palavras são de água.
Correm.
Ouvem-se no silêncio.
A alma está contente porque eu a ouvi
no momento certo.
Ela esperava que eu a ouvisse.
Ela espera sempre ser ouvida.
Nem sempre a ouço...
Ando muitas vezes distraído...
Mas há momentos que não sei explicar:
- Descubro fontes!
São os momentos do encontro maior!
- O encontro mágico do amor.
-
In, " As palavras são de água " - Chiado Editora, Setembro de 2009
-
Foto Net
e eu senti o momento da abertura!
Uma fonte se abriu
quando espetei o dedo no ponto certo
da argila da montanha
e a água correu!
Recebo-a com cuidado na ponta dos meus dedos,
nem penso,
deixo-a correr pelas mãos
e lavo com ela o corpo todo.
É o momento da minha ligação ao universo!
Agora revejo o meu rosto verdadeiro
que se expressa
feliz ou triste, não importa.
É a água da Fonte!
Não há estrangulamentos ...
Sou a água que corre e me ilumina.
As palavras são de água.
Correm.
Ouvem-se no silêncio.
A alma está contente porque eu a ouvi
no momento certo.
Ela esperava que eu a ouvisse.
Ela espera sempre ser ouvida.
Nem sempre a ouço...
Ando muitas vezes distraído...
Mas há momentos que não sei explicar:
- Descubro fontes!
São os momentos do encontro maior!
- O encontro mágico do amor.
-
In, " As palavras são de água " - Chiado Editora, Setembro de 2009
-
Foto Net
sexta-feira, 16 de março de 2012
Dia que amanhã já findou
Poema de Rita Aleixo
.
Perscruto o passado
Perscruto o futuro
Sondo memórias, falas e sonhos
Vejo imagens, palavras e mundos
Só para ver se me encontro
.
Mas nem num nem noutro mundo
Me escondo
Nem num nem noutro
Passado e futuro
Vivo
.
Apenas com um e outro
Me inspiro
Sorvo ar, experiência e valentia
Algum amor, inocência e sabedoria
Para acabar no ponto onde agora me encontro
- O hoje
.
Dia que amanhã já findou
e onde amanhã já não sou.
.
RITA ALEIXO
.
Foto Net
.
Perscruto o passado
Perscruto o futuro
Sondo memórias, falas e sonhos
Vejo imagens, palavras e mundos
Só para ver se me encontro
.
Mas nem num nem noutro mundo
Me escondo
Nem num nem noutro
Passado e futuro
Vivo
.
Apenas com um e outro
Me inspiro
Sorvo ar, experiência e valentia
Algum amor, inocência e sabedoria
Para acabar no ponto onde agora me encontro
- O hoje
.
Dia que amanhã já findou
e onde amanhã já não sou.
.
RITA ALEIXO
.
Foto Net
domingo, 11 de março de 2012
ECOS...
As vozes das almas calam-se face à inundação alienada dos ecos que ressaltam sobre as montanhas da pele. O ruído que provocam faz cair as brumas sobre o anúncio de todos os sentimentos verdadeiros.
Há que partir da voz original e que ela não se perca.
Só ela fala das águas puras do interior das rochas e deixa ver o essencial do mundo.
É demasiado o ruído e este faz tremer as pontes entre as águas soltas e as que correm transparentes no ventre secreto da terra.
Por isso fujo dos ecos prevalecentes sobre os poros das encostas da pedra.
Prefiro a voz pura, tosca, mas original, que se eleva na madrugada como as névoas na superfície das águas quando o sol desce no vale e vai no bico das cegonhas dizer o que a alma diz sem outra pretensão que não seja:
- Estou aqui, só, debaixo do céu, mas acompanhado por todo o amor do mundo !...
-
In " Os caminhos do silêncio ", Chiado Editora, Novembro 2011
Há que partir da voz original e que ela não se perca.
Só ela fala das águas puras do interior das rochas e deixa ver o essencial do mundo.
É demasiado o ruído e este faz tremer as pontes entre as águas soltas e as que correm transparentes no ventre secreto da terra.
Por isso fujo dos ecos prevalecentes sobre os poros das encostas da pedra.
Prefiro a voz pura, tosca, mas original, que se eleva na madrugada como as névoas na superfície das águas quando o sol desce no vale e vai no bico das cegonhas dizer o que a alma diz sem outra pretensão que não seja:
- Estou aqui, só, debaixo do céu, mas acompanhado por todo o amor do mundo !...
-
In " Os caminhos do silêncio ", Chiado Editora, Novembro 2011
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
E assim passamos...
Como as ondas do mar
os seres vêm e vão,
partem e regressam .
Nas encruzilhadas das águas da vida
cruzam-se.
Uma vezes afastam-se.
Outras aproximam-se
e sentem-se próximos
como se já se conhecessem !
Como se não houvesse longe nem perto
comunicam.
Diz-se que é durante a noite
que somos visitados
e visitamos
e viajamos
sem nada nos lembrarmos
quando a luz do sol
nos invade os quartos !
Percorremos caminhos misteriosos...
E sorrimos no sol ou na bruma dos dias
sem conhecermos a nascente dos sorrisos !
Nem sobre a dor sabemos
e muito menos dos tormentos
com que aprendemos
e crescemos !
( E assim passamos
e morremos...)
-
Março de 2012
-
Foto minha
os seres vêm e vão,
partem e regressam .
Nas encruzilhadas das águas da vida
cruzam-se.
Uma vezes afastam-se.
Outras aproximam-se
e sentem-se próximos
como se já se conhecessem !
Como se não houvesse longe nem perto
comunicam.
Diz-se que é durante a noite
que somos visitados
e visitamos
e viajamos
sem nada nos lembrarmos
quando a luz do sol
nos invade os quartos !
Percorremos caminhos misteriosos...
E sorrimos no sol ou na bruma dos dias
sem conhecermos a nascente dos sorrisos !
Nem sobre a dor sabemos
e muito menos dos tormentos
com que aprendemos
e crescemos !
( E assim passamos
e morremos...)
-
Março de 2012
-
Foto minha
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Nudez plena. Sem máscaras.
Terra nua com luz intensa e fresca ao longo dos revezes da lonjura!
Regaço ilimitado, sem refúgios, esconderijos, encontros secretos, proibidos, recolhimentos de oração!
Nudez plena. Sem máscaras. Plana. Rasa. Árvore perfeita. Asas com cheiro de restolhos nos bicos e raízes de ervas nas patas!
Deserto. Com poços de água fresca e pura.
Meu bosque de brancura. Com todas as cores. E sombras. E portas. E janelas.
Abertas.
Laranja de manhã.
Inexpugnável!
.
Foto Net
Regaço ilimitado, sem refúgios, esconderijos, encontros secretos, proibidos, recolhimentos de oração!
Nudez plena. Sem máscaras. Plana. Rasa. Árvore perfeita. Asas com cheiro de restolhos nos bicos e raízes de ervas nas patas!
Deserto. Com poços de água fresca e pura.
Meu bosque de brancura. Com todas as cores. E sombras. E portas. E janelas.
Abertas.
Laranja de manhã.
Inexpugnável!
.
Foto Net
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
VI
Vi a velhice
vi a solidão
vi os olhos teus rirem ao encontrarem-se com os meus
que de ti nasceram,
vi a decrepitude do corpo,
a nossa decadência,
como se estivessemos todos numa fila
à espera,
vi.
Vi também o carinho dos mais jovens tratando
dos velhos
sós
e tristes e muitos já sem lembranças na cabeça
e repetindo as mesmas palavras,
vi.
Vi também que é Fevereiro
e as amendoeiras abriram já seus olhos brancos
floridos para o céu.
Vi também as flores brancas raiadas de desenhos
castanhos das estevas.
E os brincos floridos brancos dos gaimões.
E vi ao lado da estrada principal as cegonhas
limpando e rearrumando aos pares os seus ninhos.
Vi.
Vi que não tarda a flor da urze e do rosmaninho.
Vi que está chegando a Primavera
na mesma terra
à beira do rio
onde a velhice adormece.
Vi nos campos verdes os borregos pastando.
E vi que sempre foi assim.
E vi que não estava contente nem triste.
Estava assim.
-
In, " Os caminhos do silêncio", Chiado Editora, Nov. 2011
-
Foto Google
vi a solidão
vi os olhos teus rirem ao encontrarem-se com os meus
que de ti nasceram,
vi a decrepitude do corpo,
a nossa decadência,
como se estivessemos todos numa fila
à espera,
vi.
Vi também o carinho dos mais jovens tratando
dos velhos
sós
e tristes e muitos já sem lembranças na cabeça
e repetindo as mesmas palavras,
vi.
Vi também que é Fevereiro
e as amendoeiras abriram já seus olhos brancos
floridos para o céu.
Vi também as flores brancas raiadas de desenhos
castanhos das estevas.
E os brincos floridos brancos dos gaimões.
E vi ao lado da estrada principal as cegonhas
limpando e rearrumando aos pares os seus ninhos.
Vi.
Vi que não tarda a flor da urze e do rosmaninho.
Vi que está chegando a Primavera
na mesma terra
à beira do rio
onde a velhice adormece.
Vi nos campos verdes os borregos pastando.
E vi que sempre foi assim.
E vi que não estava contente nem triste.
Estava assim.
-
In, " Os caminhos do silêncio", Chiado Editora, Nov. 2011
-
Foto Google
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
MOMENTO
Poema de Rita Aleixo
Algo rebentou.
Uma semente
Um soluço de absoluta necessidade
Uma tristeza demasiado pesada
Para continuar ali presa no esquecimento.
Ficaste parado, como que em câmara lenta,
À espera de perceber o que de estranho se passara.
Que acontecera?
Permaneces aí enquanto o vento rebola na tua face,
Enquanto as pessoas passam distantes
E as folhas caem das árvores nuas para o inverno.
E tudo à volta gira, seguindo o natural ritmo das coisas.
Os dias passam, as horas flutuam umas sobre as outras,
Noites e novos dias sobrepõem-se,
Tudo está em movimento excepto
Esse momento em que te encontras aí
Longe do tempo que parece ter parado embasbacado
Por uma certa indeterminada razão que ainda
Não surgiu em ti.
Surpreso como tu, parece esperar que te recomponhas
Para então também seguir em frente
Com o presente estacado nas profundezas do passado,
E com o que passou presente a cada instante
Desse momento vazio onde tudo se move menos tu.
Algo mudou
Um estremecimento interior
Um murmurar incessante
Uma fina gota cortante
Algo cujo impacto parece ter abalado os alicerces
Por onde respiravas, por onde andavas, por onde tudo fazias.
Tudo à tua volta traz asfixia, prisão, fragilidade
Tudo parece desmoronar com uma maior facilidade que um
Baralho de cartas jogado ao mar.
Apetece chorar, desistir, desfalecer.
As vozes ecoam incertas,
A clareza de outrora esvai-se, distancia-se, já não se encontra em lado nenhum.
Tudo parece ter desaparecido tal como era
Tal como sempre o tinha sido
A ilusão, os sons, as imagens do quadro somem-se
Com o olhar de cada minuto focado
Em tudo o que ali estivera e já não existe.
Não mais…
Talvez nunca mais
Talvez nunca lá tivesse estado.
A folha ficou em branco
Pronta para um novo tempo que há-de vir…
Rita Aleixo
13/Novembro/11
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