quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A poesia de Maria Azenha

1.
Esta é a página onde o poema não se deu
onde o alfabeto e a tinta se encontram
onde não há nenhum poeta nem acontece o som
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as vogais voam sem produzirem eco
abrem o céu através do espaço oco
uma nuvem tão terna um espelho tão doce
as crianças celebram-no esquecendo o seu nome
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( Primeira folha da inteligência dos bosques )
« O homem só muito lentamente
aprende o seu nome» - Guilherme de Occum
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2.
Não escrevas a palavra pedra se não tens à mão
uma pedra
não digas a palavra água se nunca quiseste morrer
não penses a palavra flama se o coração não arder
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guarda vagarosamente cada som
silenciosamente trabalha o desenho de cada letra
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a um poeta é reservado
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o alfabeto
uma árvore
o fogo
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3.
Três barcos seguem o luar do bosque
o luar segue os três barcos
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o rio
puro como a seda
é um caminho
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não procura haste
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reflecte
com seu olho límpido
o vazio
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( Segunda folha da ciência dos bosques )
« Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
Não queiras ser o de amanhã.
Faz-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.»
Cecília Meireles
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4.
No lago mais profundo repousa a jóia do bosque.
é esta a última palavra.
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( Quinta folha do coração dos bosques )
« Perdi o medo de mim. Adeus.»
Adélia Prado
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In " de amor ardem os bosques" , de Maria Azenha
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Com um abraço meu, dizendo-lhe que gostei muito da sua poesia.
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