segunda-feira, 18 de abril de 2011

O velho e a horta

A horta que plantaste
Toda a vida
Como o sonho
Da tua vida
Olhas para ela
Agora
Velho
Sentado
Inválido:
- Como podes evitar as lágrimas?
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In " As palavras são de água "
-
Foto Net

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sede de palavras com sede

Sede de palavras com sede
de água fresca e pura
manhã
tão luminosa como a luz,
descerra as cortinas do meu sonho
e mata as saudades das coisas que nunca vi,
conduz-me à fonte do sorriso
e ajuda-me a ser o ser
p'ra que nasci!
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" Os caminhos do silêncio "
-
Foto minha: Cabo Verde.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Caminho

Sei o caminho que trilhas
solitário
como o rastro
de um navio...
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In " As palavras são de água "
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Foto Net

domingo, 27 de março de 2011

Há mais sonhos

Sempre que me curvo sobre o espelho da minha idade
revejo lá longe
como estrela luzindo
sobre as alegrias e as tristezas,
as derrotas e as vitórias
dos anos que passaram,
o rosto do tempo
em que era pequenino,
barco de manhã,
olhos cristalinos,
gotas de orvalho,
proa firme e remos vigorosos
sorrindo aos portos imaginariamente seguros...
Então, digo-lhe:
- Estamos ainda vivos!
Os teus sonhos ainda não se concretizaram,
mas não vamos desistir...
Ou então:
- Olha que nos enganámos nos sonhos,
ou eles nos enganaram!...
Ou alguém nos enganou!..
Mas não faz mal, sabes?!
Há mais sonhos!
Muitos sonhos!
Então...a criança sorri!
Como se fosse o primeiro dia do mundo...
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In, "Os caminhos do silêncio" ( em preparação )
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Foto Net

segunda-feira, 21 de março de 2011

Amanheço

Fome e sede de manhã.
Licor de sol.
Frescura de brisa nos caminhos da alma.
Talvez porque envelheço
e saturei as gorduras da noite,
quero ser erva.
Amanheço.
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Lx, Março 2011

quinta-feira, 17 de março de 2011

Camponês da poesia

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Arado das palavras
Na terra do mistério
Da vida e da morte
Da dor e d'alegria
Em cada dia
Sou camponês.
Da Poesia.
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Lx, Março 2011
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Foto Net

quarta-feira, 16 de março de 2011

Traços

Também as rochas têm traços
que o vento não apaga...
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Lx, Março 2910
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Foto Net

segunda-feira, 14 de março de 2011

As palavras que escrevi

Fui ver o eucalipto da minha infância
e já não vi
as palavras que escrevi
na pele do seu tronco!
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Lx, Março 2010
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Foto Net

quarta-feira, 9 de março de 2011

flor sem memória

Onde e quando o espaço sem espaço
e tempo onde as mágoas não existem,
cada um de nós pétala
da mesma flor
sem memória...
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" Os caminhos do silêncio "
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Lisboa, 9 de Março

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia da Mulher

Poema de Herberto Helder - LUGAR
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As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce nos pés, ou da vulva, ou do ânus -
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.
-
Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São broncas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias brilhantes de desgraça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga -
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
alagam a inteligência do poema
com o fogo podre de um sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.
-
O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.
-
Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e loucura parem em mim,
e depois a europa tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
-
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
- Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada.
E no dia luzente cheio de raios.
-
Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas - envoltas pela sua roseira em brasa -
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.
-
E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tonam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma europa exaltada.
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( Lugar ) - HERBERTO HELDER - 1930
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Foto minha

quarta-feira, 2 de março de 2011

O significado das raízes

Só os cerros recortados contra o céu
Parecem os mesmos da minha infância!
Já as águas do rio, no vale, não são transparentes como eram.
Há peixes que desapareceram
E não sobem nas águas de Março.
Nos postigos fechados da vila antiga,
Alcandorada na encosta íngreme,
Assoma o rosto do silêncio.
O que vejo, mas não conheço,
São os filhos e netos da minha geração de amigos,
Alguns já mortos.
O que significa que o tempo foi correndo,
A poluição conspurcou as águas
E fui envelhecendo.
Hoje, sou um estrangeiro no cenário em que fui como actor
Um sonhador dinâmico,
Mas onde sinto que só as raízes das árvores escutam o meu canto!
Olho para elas com outros olhos
E compreendo melhor o significado das raízes!
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In " As palavras são de água "
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Foto minha

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Renascer

Nascemos nus, despojados,
A não ser com que planos pré-fixados?
Renascemos, ao que lemos nos livros velhos,
Quando aqueles podem ser ultrapassados!
Ajudados somos nos caminhos vários
Rumo à Luz onde algumas aves voam leves.
Viagem sem tempo, ao que vamos aprendendo
À medida do decorrer do nosso tempo.
Teremos tempo?
Teias nos prendem na liberdade concedida.
É por socalcos, ou por saltos
Que aprendemos a voar?
As duas coisas.
Em muitas direcções.
Muitos são os sentimentos.
Mas é inesquecível o cheiro de certos perfumes
E a grandiosidade de certos bosques
E a luminosidade de certos momentos
E o encantamento de certos cantares...
É o que nos salva: esta memória na viagem sem tempo...
É difícil perder o grandioso que um dia as mãos de barro tocam
E as lágrimas ajudam a moldar em poema de anjo!
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" Os Caminhos do Silêncio"
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Foto Net

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Carta de Marta para Maria

"Amar a sua inocência foi o meu primeiro pecado "

- Marguerite Yourcenar

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" Há olhos que só olham o sonho e, quando o sonho se dissipa, ficam cegos " - Nuno Júdice - " Um canto na espessura do tempo"

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3 ( terceira carta )
- por Graça Pires

" Fecho os olhos para ancorar as mãos perante as ideias insensatas. Às vezes é preciso ignorar as leis da escrita, falar sem nexo, disfarçar as palavras indefesas. Seria mais fácil escrever-te de longe, se eu pudesse partir sem rumo, sem pensar voltar. Mas eu sabia que nenhuma parte de mim podia regressar à inocência. E a minha vida encheu-se de afazeres diários. « Andas inquieta e perturbada com muitas coisas, mas uma só é necessária», ele mo disse. A censura saindo-lhe dos lábios. Alastrando-me no sangue até doer. Palavras desajustadas ao imenso galope do meu peito. Ninguém me ensinou a fazer a distinção entre o lado mais prático da vida e o lado mais íntimo das emoções. Eu punha o mesmo desvelo no que fazia, no que pensava, no que sentia. Nunca foram tão íntimas as minhas mãos, ocupadas no lento prazer de preparar o fogo. Gostava de cumprir as tarefas de sempre, a rotina caseira, os mesmos hábitos. Gostava, igualmente, de ver os barcos que saíam de madrugada e de os ver voltar, rodeados de gaivotas, voando em círculos. Depois, coleccionava conchas de todos os tamanhos para entender as marés. E gostava de me esconder nos campos de cevada, deixando, por lá, a marca do meu corpo e a imensa deriva dos meus sonhos. Eu não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos. "
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11 Cartas de Marta para Maria,
in: "não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos" - livro de Graça Pires
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Foto Net

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Porta do amor

Bate à porta do amor, amor,
Que sabes da solidão
Do ventre da terra
E tens o coração
No centro da noite...
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In " As palavras são de água "
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Foto minha, de S. Tomé

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Vi

Vi a velhice
vi a solidão
vi os olhos teus rirem ao encontrarem-se com os meus que de ti nasceram,
vi a decrepitude do corpo,
a nossa decadência,
como se estivessemos todos numa fila
à espera,
vi.
Vi também o carinho dos mais jovens tratando dos velhos
sós
e tristes e muitos já sem lembranças na cabeça
e repetindo as mesmas palavras,
vi.
Vi também que é Fevereiro
e as amendoeiras abriram já seus olhos brancos floridos para o céu.
Vi também as flores brancas raiadas de desenhos castanhos das estevas.
E os brincos floridos brancos dos gaimões.
E vi ao lado da estrada principal as cegonhas
limpando e rearrumando aos pares os seus ninhos.
Vi.
Vi que não tarda a flor da urze e do rosmaninho.
Vi que está chegando a primavera
na mesma terra
à beira do rio
onde a velhice adormece.
Vi nos campos verdes os borregos pastando.
E vi que sempre foi assim.
E vi que não estava contente nem triste.
Estava assim.
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Mértola, 7 de Fevereiro 2011
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Os caminhos do silêncio
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Foto Net