sábado, 9 de janeiro de 2010

Convidado de Janeiro: Jorge de Sena

1. Diáfana
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No que existe e não existe,
no que é alegre e é triste,
em tudo aquilo que passa
há um perfume de graça...
-
E haverá na realidade
essa vaga idealidade?
Ou somos nós que a sentimos
e, por não vermos, a vimos?
-
Que importa que não exista,
que nos engane ou não a vista?
Ou que exista e seja assim?
-
Se lhe basta irradiar
para nos fazer sonhar
outro fim além do fim!...
26/5/1938
Caderno preto, pág.4
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2. Véu interior
-
É bem certo
que temos
ante os olhos d'alma
um véu
de cor
que muda com o nosso estado.
Ora coberto,
ora azul de céu,
ora atormentado,
ora todo calma,
nós vemos
o mundo
através dele
conforme é sublime amor,
ódio profundo,
enorme desalento,
melancólica tristeza
envolvendo a nossa natureza
o que temos
cá no fundo
do alento.
Como desejaria conhecer
o segredo
de o fixar
num só tom
claro e luminoso,
simples e gracioso
para sem medo
olhar
através dele
e ver
o mundo sossegado,
tranquilo,
inefavelmente dourado
e poder
gostar
de tudo aquilo
que ele encerra
- seja sonho enganador
vertigem que erra...
seja o que for!
31/5 e 1/6/1938
Obras - Volume 2, págs 56-57
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3. Imortalidade
-
O meu tempo começou quando nasci
mas não há-de acabar quando eu morrer.
Eu não sei terminar nada,
gosto de não saber
e tudo fica assim, no ar, indefinido...
-
A minha morte talvez seja incompleta.
-
Morrer é ocupar no espaço
uma posição que não depende da vontade.
Mas quem a ocupa é o corpo.
-
O corpo deixa então
de existir no tempo.
-
Só o espaço ficará connosco?
Que direitos tem o espaço a mais do tempo?
Do nós que na verdade somos
não haverá um resto acorrentado ao tempo?
-
Se o espaço sem tempo não é vida,
talvez o tempo sem espaço o possa ser.
-
E eu fique assim
vivendo sem matéria...
-
E o meu tempo,
sendo então eu mesmo,
não há-de acabar quando eu morrer.
25/9/1938
Obras - Vol. 7º, págs. 5-6
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Jorge de Sena
POST-SCRIPTUM II - 1º VOLUME
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