quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Poemas Manuscritos - livro de Eduardo Graça

Eduardo Graça dedicou este seu livro a Jorge de Sena.
É um livro composto « por três conjuntos de poemas que foram manuscritos, a lápis, nas páginas de três livros de poesia lidos com paixão, sendo a sua publicação, em suporte de papel, uma homenagem a Jorge de Sena que é, desde sempre, a minha referência cimeira como poeta.» , lê-se na sua Nota Introdutória.
-
Publico gostosamente alguns poemas do livro, agradecendo ao Eduardo Graça a amizade manifestada na oferta do mesmo.
-
CIDADE VELHA
-
A cidade velha imóvel ostenta
sua antiga grandeza arruinada
A revolução passou por aqui
e morreu jovem do povo separada
A cidade velha mostra seu ventre
de outros cobiçado e o heroi assassinado
se vende em moedas posters e canções
dedilhadas que suplicam liberdade
-
ESTAS PRAIAS
-
Estas praias e suas águas verdes
transparentes, areias de marfim,
perderam o povo que as não vê.
Estas praias e o mar que as beija
de águas tépidas, beleza sem fim,
foram vendidas, entendo porquê.
-
(« ..., poemas, manuscritos a lápis, entre 23 e 27 de Julho de 2007, nas páginas do livro " Poesia III ", de Jorge de Sena, nos dias de uma visita a Cuba. ....» )
-
O ROSTO (II)
-
" Sobre a poeira dos abraços
construo meu rosto "
-
Na poeira vinda
de longe
o rosto se expõe
admirável arte
de encantar
-
Construo meu rosto
a admirar
o teu rosto
sobre a poeira
dos abraços
-
O ROSTO (III)
-
Sinto-o como um frémito
a impossível arte
de apagar o teu rosto,
alimento o diálogo
de longe,
não o quero morto
-
Me constranjo como antes,
vejo
o lugar vazio silente,
o futuro
ausente,
não o quero morto
-
Sinto desprezo por errar
sentimento
do que sinto,
não te digo
mas o teu rosto,
não o quero morto
-
A TUA BOCA
-
A tua boca são muitas bocas
desenhadas qual perfeito desejo
de beijar a tua boca de beijos
-
A tua boca é a minha boca
toco-a ao olhar todas as bocas
e ao beijá-la a todas beijo
-
( «... poemas manuscritos, a lápis, entre Novembro de 2007 e Março de 2008, nas páginas do livro " Toda a poesia ", de Ferreira Gullar.José Olímpio Editora. Epígrafes: Ferreira Gullar, em itálico.....»
-
QUE MAIS DESEJAR DO MUNDO?
-
Se os dentes cravo no fruto
E o sabor se entranha sinto
Do prazer os primórdios
E já é ficar a saber muito
-
Se o corpo enterro no mar
E sinto o frio se entranhar nele
Já sei do prazer o suficiente
Para o mar desejar sempre
-
Se o mar se espraia ardente
Nas areias finas que gerou
E me abraça assim quente
Que mais desejar do mundo?
-
( Poema manuscrito a lápis, «pelas férias de Agosto de 2008, em Faro, nas páginas do livro " Arte Pobre ", de Casimiro de Brito», conterrâneo do autor, acrescento eu ).
-
« O presente livro assume, como os dois que o antecederam,uma natureza marginal ( à margem do sistema editorial tradicional ), mantendo fidelidade a uma postura de rejeição a qualquer interferência de outrem», pode ler-se na Nota Introdutória. A única excepção, diz o autor, é para Isabel Espinheira que « amavelmente aceita acompanhar-me como autora gráfica ». Os meus parabéns aos dois. E um abraço de amizade.
(In "Poemas Manuscritos ", de Eduardo Graça. Desgn: Isabel Espinheira)
Postar um comentário