quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Pequenos textos

( Concha da ilha de S.Tomé, apanhada na praia das "sete ondas"- foto blogue À Beira de Água )
As pedras
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Muitas vezes, ao passear à beira-mar, tenho deparado com magníficos exemplares do mundo mineral. Alguns tornam-se mesmo difíceis de classificar, de distinguir a que reino pertencem, se são inanimados ou seres vivos que, recentemente, encetaram um processo de petrificação. A contemplação das pedras remete-nos frequentemente para reflexões sobre os limites. Da vida, da morte, do tempo e do espaço.

Uma pedra encerra em si segredos que ultrapassam a avaliação humana da sua grandeza ou interesse. Por exemplo, qualquer pedra é uma montanha potencial. Na realidade, só não o é para os olhos distraídos, imperfeitos e unicamente preocupados com tudo avaliar à sua medida e imagem. Acredito que existem pedras tão complexas como uma montanha ou, talvez, muitíssimo mais especiais.
Na China, durante a dinastia Song, as pedras eram altamente apreciadas. Alguém que encontrasse um exemplar especialmente agradável ao olhar ou com significados mágicos podia, pura e simplesmente, assiná-lo com o seu nome e apresentá-lo como obra de arte. Acreditava-se que ninguém encontra certa pedra por acaso e eu também gosto de acreditar nisto. Ainda hoje deparamos, aqui e ali, com resquícios deste antigo culto. Tratava-se, bem entendido, de uma das épocas mais avançadas da civilização chinesa.
Em certas pedras estão desenhadas, pela mão da Natureza, figuras humanas, animais e paisagens. Se quisermos dar largas à imaginação, poderemos admitir que, em remotíssimos tempos, algum acidente incrustou esses traços na predisposta superfície da pedra. Muitas vezes encontrei pedras onde estão nitidamente gravados seres humanos. Eles aí permanecerão até aos finais dos tempos. Talvez ao sabor dos elementos que, gradualmente, a vão erodindo. Para depois se dissiparem em pequenos grãos que formarão montanhas.
Experimentem agora olhar uma pedra macerada pelos elementos e pelo tempo.Cada uma das suas fissuras, cada requebro, cada veia de minério dissemelhante da substância essencial que a constitui. Imaginem-se, então, muito pequenos, como se a pedra que seguram fosse, de facto, uma montanha. Olhem-na fixamente até entrar nela e nela serem um ser estranho e autónomo. Aí começa uma viagem inesquecível por mundos insuspeitos.
É uma viagem fascinante percorrer-lhe os vales, as grutas, desfiladeiros e caminhos secretos. Poucos se aventuraram a tão temerária expedição. Talvez seja um mundo do qual não vale a pena voltar. Um universo de inexcedível beleza. Nalgumas, hão-de encontrar os seres bizarros, que há muito viajam convosco, mas que permanecem amordaçados num local secreto que a ninguém, nem a vós próprios, tendes a veleidade de revelar. Noutras, a calma tranquila dos grandes espaços, as cidades que se adivinham ao longe, o bulício de gente ocupada a erguer civilizações.

Recentemente, aprendi com as pedras uma outra lição. Como normalmente faço ao passear à beira-mar, deixo os olhos correr pela areia e sou surpreendido pela beleza de alguns exemplares que as ondas depositaram na praia. Alguns são tão belos que imediatamente me despertam a ânsia de os possuir, de os aconchegar em minha casa, onde os posso contemplar à mercê dos meus caprichos. Erro fatal. Passado pouco tempo de os roubar ao mar, empalidece o seu brilho e torna-se-lhe baça a superfície. Tornam-se objectos vazios, sem interesse e sem poder. De nada me servem então. O melhor será devolvê-los ao mar, onde resplandecem em toda a sua magnífica beleza.
Foi com prazer infantil que as devolvi ao mar. Para, pouco depois, deixar de as ver, embaladas pelo vaivém contínuo das ondas. O melhor de tudo isto é pensar que, um dia, talvez um pedaço de mim chegue a uma praia distante, alguém me há-de colher, mirar e devolver ao mar, o peito jubilante de um pequeno prazer infantil.
- Carlos Morais José, in " A COLUNA DA SAUDADE " - Edição do Autor, Macau, 1993
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