domingo, 8 de março de 2009

Dia Internacional da Mulher

UM DIA DE AMOR VOS DESEJO

sexta-feira, 6 de março de 2009

É estranho: não há lugar para as mágoas!...

É com elevação o sentimento de unidade
que sinto no universo com os seres que amo
com quem falo no silêncio uma linguagem de amor
respeitosa, sublime, musical, bater de asas
leves, harmonia reunida em catedral de rosas,
carícias perfumadas, roçagar de mãos
como véus, os sorrisos são a música dos regatos,
suavidade de lua quando acaricio os teus seios...
É estranho!! Não há lugar para as mágoas!!...
Eduardo Aleixo

quarta-feira, 4 de março de 2009

O encontro mágico do amor...

As palavras rebolam pela estrada aberta
E eu senti o momento da abertura!
Uma fonte se abriu
Quando espetei o dedo no ponto certo
Da argila da montanha
E a água correu!
Recebo-a com cuidado na ponta d0s meus dedos.
Nem penso.
Deixo-a correr pelas mãos
E lavo com ela o corpo todo.
É o momento da minha ligação ao universo!
Agora revejo o meu rosto verdadeiro
Que se expressa
Feliz ou triste, não importa.
É a água da Fonte!
Não há estrangulamentos...
Sou a água que corre e me ilumina.
As palavras são de água.
Correm.
Ouvem-se no silêncio.
A alma está contente porque eu a ouvi no momento certo.
Ela esperava que eu a ouvisse.
Ela espera sempre ser ouvida.
Nem sempre a ouço...
Ando muitas vezes distraído...
Mas há momentos que não sei explicar:
- Descubro as fontes!
São os momentos do encontro maior!
- O encontro mágico do Amor
Eduardo Aleixo

terça-feira, 3 de março de 2009

Quando, Lídia...

Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa -
O amarelo actual que as folhas vivem
E as torna diferentes.
( Ricardo Reis - Odes - Ficções do Interlúdio )

domingo, 1 de março de 2009

Antoine de Saint- Exupéry ( ou uma laranja no deserto )

ENSAIO
Se há escritores que dificilmente podem ser considerados como pertencentes a uma determinada " escola literária ", Antoine de Saint Exupéry é um deles. Se o autor de " Terra dos Homens" tem uma " escola", essa escola é sem adjectivos. É a da Vida, por onde o Homem passa...
Exupéry mergulhou bem fundo no coração dos homens, aí onde o positivismo e a lógica, embora necessários, mas insuficientes para a compreensão da realidade, são substituidos pela ficção, pelo mundo do silêncio, da relação do Homem com o invisível, legando à humanidade das páginas mais belas da literatura do século vinte.
Literatura original. Incidente sobre determinada realidade do Homem, escondida embora, mas essencial à sua compreensão. Um Homem mais compreensível à luz duma psicologia individual do que de uma sociologia, a temática de Exupéry será, por isso mesmo, discutível e até impertinente para muitos e quiçá reaccionária para alguns! O Homem, viu-o ele como algo de essencialmente individual a despeito de viver em sociedade. Mas o maravilhoso do Homem que ele nos desnuda é, de facto, essa sua faceta escondida, que a sociedade ignora e quantas vezes escamoteia e despreza! É todo um mundo interior que se desdobra gradativamente e que ora aproxima o homem ou o afasta do seu semelhante.

No primeiro caso, o Homem é um ser necessariamente responsável ( « ser homem é ser responsável, » escreve ele ). De uma responsabilidade que é, primeiro, uma forma de amor, e só depois o reflexo duma chama grupal. Quando ele conduz os homens, por avião, levando consigo as suas vidas, bem como centenas de cartas, ligando dois continentes, pondo em relação uma multiplicidade de destinos, sente, primeiro, que é grande, por isso mesmo; porque a sua missão é sublime; e que é maravilhoso, por fim, fazer parte de uma sociedade irmanada, que torne possível essa grandeza.
Neste aspecto, ele dá-nos a ideia de ser um condutor de homens. Inflexível. De feição moralizante. Que, muitas vezes, se torna um chefe naturalmente duro, porque são necessários os súbditos e a hierarquia obediente. Aqui se situa, a meu ver, a sua faceta menos simpática à luz de uma doutrina social multiforme que não tolera bem o espírito da hierarquia como ditame e forma de escravização do Homem. Essa escravização, ele não a contesta, nem a polemiza. Apenas a regista, não sorvendo as causas que a teriam engendrado. Em suma: a sua óptica interiorista do Homem não o levou à ponderação intelectual das circunstâncias históricas, que têm uma palavra a dizer sobre a situação precária do mesmo. Assim é que se limita a apresentar-nos o escravo, de súbito liberto, e que não sabendo que fazer da sua liberdade, se volta a apresentar ao seu senhor, para, de novo, o servir e recuperar a sua estrita segurança...
No segundo caso, ela está longe das fronteiras do social. É todo um outro mundo em que se desenha ( sobre que se alicerça ) a felicidade ou infelicidade do Homem. E neste campo a sua originalidade, a sua riqueza poética, a sua verdade, que, apesar de tudo, ninguém deixará de admirar. As relações de amizade e de ódio entrelaçam-se intimamente, tornando difícil traçar uma linha de separação. Os dois maiores inimigos vivem em função um do outro. As suas vidas justificam-se no ódio recíproco. Os dois inimigos acabam por esgotar as suas vidas, pensando-se mutuamente, que é uma forma de se amarem. Quando se encontram, acabam por se falar pela boca dos outros, e não raro, no fragor da batalha, se poupam, até ao último momento, adiando a vingança, porque é essencial continuarem a odiar-se, para que se justifique a espera de um futuro encontro!
As paisagens do Homem são tão originais como aquelas que nos oferece das nuvens, dos raios de sol filtrando-se nelas, da grande solidão do universo em que é sempre saudado festivamente o encontro com as folhas verdes de um oásis, com o sorriso isolado dum ribeiro, com o fumo das chaminés duma aldeia inesperada, marca reconfortante da presença do Homem sobre a terra...
Assim é que o Homem festeja o encontro com o mundo e resgata o seu silêncio original para voltar de novo à sua individualidade em que se abeira do divino. É quase divino quando o avião se despenha sobre as montanhas dos Andes, cobertas de neve, e se vê perdido, chamando a si todas as potencialidades dum pequeno deus. O homem ouve então o seu coração, a grande máquina que luta contra a montanha, e prossegue, construindo a esperança, em cada passo. Descansa. Ouve o pulsar do coração. E vai, até à última pancada deste, ao encontro dos homens. E quando está salvo, a sua estória é uma epopeia! É um epopeia a vaidade com que a conta, sem que jamais alguém se possa apropriar da sua grandeza! O Homem é realmente grande quando vence uma montanha! E mesmo quando nela morre os seus amigos transformam essa morte numa vitória, imortalizando-a, que é uma forma de louvarem a grandeza de todos os homens...
A paisagem do Homem é tão inédita como a das nuvens que só os aviadores observam e conhecem.
A mulher que faz renda no silêncio tirando do nada a obra prima em que a linha se transforma. O olhar da adolescente à porta da casa perdida no deserto, quantas esperas de sonho, quantas pérolas escondidas, quanta água que nenhum jovem ainda bebeu!...
E por fim... o valor de uma laranja no deserto, quando nada mais há do que a morte e o silêncio!...
Uma laranja de súbito encontrada no deserto é bem o símbolo do milagre da vida simultaneamente tão grandiosa e tão pequena em que o Homem se confina. Uma laranja no deserto, quem terá pensado nisso? Em reparti-la, por vários dias... Matematicamente! Com as mãos da esperança. Como o agarrar-se à vida que se esvai e se ama cada vez mais...
Éxupéry é, entre muitas outras coisas, o escritor do Sáara. Dos grandes silêncios de imagens luminosas. Nele se bebe o silêncio grandiloquente do mundo.
Mas...uma solidão, em que todos cabem, em que se saúda apoteoticamente o encontro com o primeiro oásis, a primeira aldeia, o primeiro rosto humano!
Eduardo Aleixo

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Crónica Semanal

Olá a todos os visitantes e amigos, Esta será a primeiras das crónicas semanais que virão directamente de África, mais especificamente de uma pequena ilha no Atlântico chamada São Tomé e Príncipe. Estou de regresso e, após uma semana, já estou reintegrada no ritmo e calor equatorial. Não foi fácil após 1 mês inteirinho passado a descansar em solo lusitano, com os miminhos familiares e sem preocupações...e muito frio!! Mas cá estou de volta, e claro, por cá, voltei a lidar com os constrangimentos diários que tanto caracterizam estas terras. Para começar, as falhas de energia diárias, às quais já me desabituara, e ainda não consigo ligar o gerador...A isso seguem-se as falhas de água, não ter internet, nem telefone e a companhia de comunicações levar séculos a pensar em resolver o problema...Muitas vezes não ter carro e ter que andar sob o calor intenso, etc, etc, etc... Mas a luta diária é um desafio e as recompensas valem a pena tanto esforço. Desta vez fico por aqui, pois receio que a net não dure muito tempo e lá se vai toda a escrita...! Beijos e saudades, Rita

Cântico Negro

« Vem por aqui» - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: « vem por aqui» !
Eu olho-os com olhos lassos,
( Há, nos meus olhos, ironias e cansaços )
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
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A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre de minha mãe.
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Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam os meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: « vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, escorregar os pés sangrentos,
A ir por aí...
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Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
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Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes , os desertos...
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Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
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Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe:
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e 0 Diabo.
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Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: « vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!
( José Régio - in " Poemas de Deus e do Diabo ! )

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A gaveta dos sonhos

Crónica
Dizia-me ele com emoção mal contida na voz, o cigarro suspenso nos dedos nervosos, um semblante ingénuo de criança que não consegue guardar mais um segredo, que ia ser promovido a partir de Novembro, depois de vinte anos de sacrifícios calados, de humilhações sem coragem de revolta. Mas aí estava ela, enfim, embora já o apanhasse velho e cansado, a ocasião por que tanto ansiara! O que lhe tinha custado! Quantas visitas diárias ao gabinete do Director de Serviços! Quantas viagens à sala do Chefe de Secção para tratar de " casos bicudos" que os pobres funcionários não tinham competência para resolver! Quantas canseiras no cerimonial de tirar e pôr o casaco, de cada vez que era chamado ao gabinete do Chefe de Serviços! Quantos dias e dias, anos e anos, em que aprendera a esquecer os sonhos justos da adolescência, as leituras de bons autores, a música dos clássicos que nos momentos de nostalgia gosta de recordar como se se quisesse encontrar com uma pureza antiga - para chegar a este momento sagrado em que se sente um velho!
Enquanto o ouvia, àquela hora calma, numa Repartição vazia, rodeados de papeis e de processos em bicha, à espera, que é o cenário anquilosante da vida burocrática, não deixava de ficar espantado com aquela mudança nele, que comigo tinha discussões de morte, porque eu faltava muito ao trabalho só porque precisava de tempo para estudar; porque lhe dizia que seria útil trabalhar-se com música de fundo, a qual amenizaria certamente a aridez do trabalho puramente manual, mecanicista, funcional; que, ao contrário do que ele afirmava, nós não éramos máquinas, mas homens e mulheres, de carne e osso, com cérebro, sensibilidade e até dotados de ideias novas e válidas; que já não vivíamos no tempo do artesanato medieval, mas dos computadores que evitariam grande percentagem de papeis e de dinheiro esbanjado inutilmente; que não era utopia, era verdade, em muitos lugares do mundo e mesmo em Portugal; que a importância não estava na gravata, mas na inteligência e sinceridade das pessoas; que se podia muito bem trabalhar sem estar em pose e em silêncio...Por isso me espantava a mudança nele, o seu ar confidencial, como se eu fosse o único a compreendê-lo e à sua alegria triunfante comunicada com carinho, assim, sem barreiras de chefe para funcionário, como se fossemos camaradas e irmãos...
No fundo, eu que o conhecia e sabia que ele não era intimamente, profundamente, como se mostrava, austero, frio, defensor do homem-máquina, mas tinha, por motivos vários e deploráveis, aprendido a fechar na gaveta os sonhos humaníssimos e possíveis, que, em certos momentos de desânimo e de desesperança, abria, como se olhasse para o seu rosto verdadeiro ( e era então que falávamos sobre Beethoven, Jorge Amado, Máximo Gorki ...), respondi-lhe, ironicamente, que era a altura de ir pondo de lado uns cobres para comprar uns fatiotes mais apresentáveis, umas gravatas com mais nível, compatíveis com o seu novo posto. Ele, limpando a cinza do cigarro, sentando-se a rir da minha piada muito séria, respondeu-me com seriedade: « E olhe que tem razão. Já viu com que cara vou entrar no gabinete do senhor Presidente ( sim, porque vou passar a trabalhar de paredes meias com o senhor Presidente ) com esta farpela rasca e estas camisas de meia tigela? Não! Agora o caro Tavares tem de mudar de cenário. Havia de ser bonito!Claro que isto é mesmo assim...»
E a conversa terminou com a mesma solenidade com que tinha começado. Só que eu esperava que ele se lembrasse ainda da gaveta onde tinha os sonhos da adolescência metidos! Mas não! A gaveta estava fechada. À chave. Tinha-a fechado naquele preciso momento. Ou antes, quando soubera da notícia célebre que o deixara envaidecido!
Só eu fiquei triste. Nunca mais falaríamos de Beethoven. Nem de Jorge Amado. Nem de Gorky. Iam-me levar o Tavares para bem longe. Para lugares inacessíveis. Já não iria reconhecer o Tavares dali a uns tempos. Quando a gaveta estivesse velha. Cheia de pó. Como ele. Gaveta do que foi Tavares. De que não precisa já. De que nunca precisou afinal. Que nunca desejou profundamente. Talvez os filhos a abram um dia e fiquem espantados e tristes e desiludidos pelas coisas lá dentro, esquecidas, violadas, como flores amachucadas, ou pérolas submersas pela ferrugem da indiferença.
Eduardo Aleixo

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Quem prende a água que corre...

Quem prende a água que corre
É por si próprio enganado
O ribeirinho não morre
Vai correr por outro lado...
( António Aleixo, poeta popular, in " Este livro que vos deixo " )

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Chamar a música

Um bom domingo. Goza o sol. E chama a música. De dia ou de noite. Com açucenas. E chá de jasmim. E poema de cetim. Que queres mais?

Eduardo Aleixo

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Boa viagem, Rita, e... traz mais conchas!

Esta última é como as anteriores, mas em estado adulto. Enquanto as pequenas são apanhadas na areia da " praia das sete ondas" , perto da cidade de S. Tomé, as adultas são apanhadas no fundo do mar pelos pescadores. Reparem que, ao crescerem, as conchas mantiveram a estrela central, embora tivessem desaparecido os interstícios periféricos.
Boa viagem, Rita. E quando regressares para a próxima, traz mais.
Eduardo Aleixo
PS: Gostaria que passasses a enviar uma crónica semanal de S. Tomé. Vá lá, não sejas preguiçosa...
.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O meu Gwyn e o mar...

Praia de Santa Cruz, 15/2/2009

Poema

Às vezes tenho ideias, felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
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Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
( Álvaro de Campos )

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Lunário

Na vasta tela azul profunda
Surge subitamente uma forma circular
Que se passeia sempre segura
Reflectindo sua luz pela terra milenar.
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Tons mesclados de intenso branco
Traçam a vigilante da Noite.
E não há tempo que não se espante
Com seu silêncio puro e harmonioso.
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Cintilantes pontos estrelados
Seguem-lhe os passos na longa vigília
Que num melodioso, breve, compasso
Inundam pelo mundo uma terna magia.
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E seja ela uma terna canção de embalar
Ou uma dura reflexão em pranto,
É na Noite, com suas asas a voar,
Que a lua se impõe com o seu eterno encanto...
Rita Aleixo

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Vem sentar-te comigo, Lídia...

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
( Enlacemos as mãos )
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Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
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Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
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Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
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Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quisessemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
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Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Esse momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
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Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-às de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
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E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-às suave à memória lembrando-te assim - à beira rio.
Pagã triste e com flores no regaço.
( Ricardo Reis )