quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A gaveta dos sonhos

Crónica
Dizia-me ele com emoção mal contida na voz, o cigarro suspenso nos dedos nervosos, um semblante ingénuo de criança que não consegue guardar mais um segredo, que ia ser promovido a partir de Novembro, depois de vinte anos de sacrifícios calados, de humilhações sem coragem de revolta. Mas aí estava ela, enfim, embora já o apanhasse velho e cansado, a ocasião por que tanto ansiara! O que lhe tinha custado! Quantas visitas diárias ao gabinete do Director de Serviços! Quantas viagens à sala do Chefe de Secção para tratar de " casos bicudos" que os pobres funcionários não tinham competência para resolver! Quantas canseiras no cerimonial de tirar e pôr o casaco, de cada vez que era chamado ao gabinete do Chefe de Serviços! Quantos dias e dias, anos e anos, em que aprendera a esquecer os sonhos justos da adolescência, as leituras de bons autores, a música dos clássicos que nos momentos de nostalgia gosta de recordar como se se quisesse encontrar com uma pureza antiga - para chegar a este momento sagrado em que se sente um velho!
Enquanto o ouvia, àquela hora calma, numa Repartição vazia, rodeados de papeis e de processos em bicha, à espera, que é o cenário anquilosante da vida burocrática, não deixava de ficar espantado com aquela mudança nele, que comigo tinha discussões de morte, porque eu faltava muito ao trabalho só porque precisava de tempo para estudar; porque lhe dizia que seria útil trabalhar-se com música de fundo, a qual amenizaria certamente a aridez do trabalho puramente manual, mecanicista, funcional; que, ao contrário do que ele afirmava, nós não éramos máquinas, mas homens e mulheres, de carne e osso, com cérebro, sensibilidade e até dotados de ideias novas e válidas; que já não vivíamos no tempo do artesanato medieval, mas dos computadores que evitariam grande percentagem de papeis e de dinheiro esbanjado inutilmente; que não era utopia, era verdade, em muitos lugares do mundo e mesmo em Portugal; que a importância não estava na gravata, mas na inteligência e sinceridade das pessoas; que se podia muito bem trabalhar sem estar em pose e em silêncio...Por isso me espantava a mudança nele, o seu ar confidencial, como se eu fosse o único a compreendê-lo e à sua alegria triunfante comunicada com carinho, assim, sem barreiras de chefe para funcionário, como se fossemos camaradas e irmãos...
No fundo, eu que o conhecia e sabia que ele não era intimamente, profundamente, como se mostrava, austero, frio, defensor do homem-máquina, mas tinha, por motivos vários e deploráveis, aprendido a fechar na gaveta os sonhos humaníssimos e possíveis, que, em certos momentos de desânimo e de desesperança, abria, como se olhasse para o seu rosto verdadeiro ( e era então que falávamos sobre Beethoven, Jorge Amado, Máximo Gorki ...), respondi-lhe, ironicamente, que era a altura de ir pondo de lado uns cobres para comprar uns fatiotes mais apresentáveis, umas gravatas com mais nível, compatíveis com o seu novo posto. Ele, limpando a cinza do cigarro, sentando-se a rir da minha piada muito séria, respondeu-me com seriedade: « E olhe que tem razão. Já viu com que cara vou entrar no gabinete do senhor Presidente ( sim, porque vou passar a trabalhar de paredes meias com o senhor Presidente ) com esta farpela rasca e estas camisas de meia tigela? Não! Agora o caro Tavares tem de mudar de cenário. Havia de ser bonito!Claro que isto é mesmo assim...»
E a conversa terminou com a mesma solenidade com que tinha começado. Só que eu esperava que ele se lembrasse ainda da gaveta onde tinha os sonhos da adolescência metidos! Mas não! A gaveta estava fechada. À chave. Tinha-a fechado naquele preciso momento. Ou antes, quando soubera da notícia célebre que o deixara envaidecido!
Só eu fiquei triste. Nunca mais falaríamos de Beethoven. Nem de Jorge Amado. Nem de Gorky. Iam-me levar o Tavares para bem longe. Para lugares inacessíveis. Já não iria reconhecer o Tavares dali a uns tempos. Quando a gaveta estivesse velha. Cheia de pó. Como ele. Gaveta do que foi Tavares. De que não precisa já. De que nunca precisou afinal. Que nunca desejou profundamente. Talvez os filhos a abram um dia e fiquem espantados e tristes e desiludidos pelas coisas lá dentro, esquecidas, violadas, como flores amachucadas, ou pérolas submersas pela ferrugem da indiferença.
Eduardo Aleixo
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