quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sempre gostei de ti, Zé Gomes...

( José Gomes Ferreira - foto Google )
Escrito meses depois da morte da recitadora,
Manuela Porto, mas a fingir que foi no mesmo dia.
«Por favor, não me venham dizer que os mortos vivem!, que os mortos mandam!, que os mortos deixam ficar um perfume de saudade de fogo eterno nas almas!, etc, etc. Basta! Não me irritem com esses lugares-comuns de mentira com que toda a gente suja de flores murchas os tristes cabelos dos mortos.
Tenhamos a coragem de confessar que os mortos quanto mais mortos melhor, bem calcados de terra funda e esquecimento. Eu, por mim, sacudo-os com raiva do suor dos dias e das noites - feliz de respirar ainda.
Fora! Os mortos doem!
O resto - palavras de cinza enfeitadas de lágrimas de olhos ocos!
« Coitadinho! Era tão bom rapaz! Que pena! Tão novinho! »
Às vezes, no meio desses velatórios onde paira a insinceridade melancólica do remorso da alegria de continuarmos vivos, apetece-me desatar aos berros: « Calem-se! Não reduzam a morte à exiguidade do sussurro das nossa vidas! Dêem-lhe a grandeza do silêncio sem angústia!»
Mas sustenho-me sempre. Curvo a voz. ( Que bom entrar na comédia geral! ). E colaboro também, lacrimejante, a boca acesa de frio de lamúria...
( Foto cedida gentilmente por Diana Dionísio , a quem muito agradeço )
Ai da pobre Manuela Porto!, se não tivesse deixado algumas páginas tão malditamente humanas em Um Filho Mais que lhe garantem a eternidade na Selecta Terrível dos escritores de alma aberta. Se não, quem se lembraria dela depois de amanhã, ou amanhã mesmo?
Os poetas? Os poetas que Manuela Porto espalhou pelos quatro ventos de Lisboa numa dádiva de chama erguida - lenço vermelho na mão, túnica branca, ímpeto de bandeira?...
Mas os poetas ( eu, tu, ele...) não passam de poços de negrura que só a vaidade ilumina. A dor e a morte dos outros interessam-lhes apenas, ou quase sempre, como pretexto subterrâneo para se cantarem.
Nada - ouviram? -, nada conseguirá salvar do esquecimento de cova cheia a outra Manuela, a verdadeira Manuela do nosso convívio ( quero lá saber da escritora! ) que, no fim de contas, tudo valia para nós: a Manuela de todos os dias da Brasileira do Chiado, às seis da tarde, dos ensaios pacientes, na Academia dos Amadores de Música, das reuniões aos domingos em volta do chocolate em casa do João José Cochofel , dos jantares aconchegados na sua salinha diante do Enterro, de Mário Eloy; a Manuela que, como todas as mulheres superiores, possuía o segredo daquela intimidade misteriosa que, ao mesmo tempo, aproxima e afasta ( e assim quem lhe descobria os defeitos?); a Manuela a ocultar, sob a leve afectação de uma máscara exageradamente feminina, o seu coração de jacobina varonil; a Manuela, amiga e Anjo da Fama dos poetas - de todos! - , desde o Fernando Pessoa aos últimos escorraçados do neo-realismo...( Pedras de todos os cantos! Insultos de todos os céus! Ódios de todos os negrumes! E é por isso que estou com eles. A poesia é escândalo! A poesia é perigo!); a Manuela, ídolo insubstituível dessas trezentas pessoas heróicas que andam de um lado para o outro, em Lisboa, a fingir cultura, - a correr das dissonâncias da Sonata para o pescoço torcido da geral de S. Carlos; da Exposição de Artes Plásticas para o último concerto de canções de Lopes Graça; da estreia do Auto da Índia no teatrinho do Grupo Dramático Lisbonense para o recital poético na Associação Feminina para a Paz...A Manuela que, quando me encontrava, sempre me pedia em cadência de súplica: « Ó Zé Gomes: faça-me uma peça». A Manuela míope que punha os óculos para sorrir melhor. A Manuela que, na maior crise da minha vida, me escrevia com aquele tacto, tão bom!, de velar pelos amigos: « Sem querer de modo algum parecer-lhe importuna, pois sei que está magoado, atrevo-me no entanto a recordar-lhe que, depois de amanhã, sábado à noite, se encontrarão aqui em casa, alguns daqueles seus amigos mais devotados que...». A Manuela transitória, a Manuela companheira, a Manuela labareda nas estradas dos versos, com a voz do tamanho do entusiasmo do mundo em lágrimas:
( Manuel da Fonseca: autor do poema da Marcha de Almadanim )
- foto Google -
Eia!
vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era a tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha de Almadanim! »
( In " Imitação dos Dias - José Gomes Ferreira )
Eduardo Aleixo
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