terça-feira, 22 de setembro de 2009

Chegaste, Outono

Já o sabia: as árvores já mo tinham dito, e o vento, lembrado. Já o sabia antes pelo escorregar dolente do sangue nas estradas ansiosas do meu corpo, pelo roçar lasso e ronronante com que as palavras se deitavam no colo do poema, pela ânsia de imitar as árvores ficando como elas languidamente recolhido, mesmo face ao desejo: um torpor, um adormecimento, uma aceitação de placidez, uma preferência suave e leitosa pela criança em detrimento do ser amante fogoso... Vem, Outono, preciso das outras cores que tu trazes, e que me acalmam, me equilibram com o universo, dá-me o teu castanho claro, o teu amarelo torrado, o teu laranja de sol macio, dá-me a suavidade que se respira nas tardes breves, a moderação e a sapiência que dão a força às árvores para as tempestades do inverno, a maturação da uva que fica à espera da hora adequada para o vinho ser bebido em copos merecidos... Preciso da tua concha, Outono! Não é hibernação, não! É o ritual adequado ao ritmo d0 meu corpo humanamente grandioso, como se fosse ( e é ) divinamente consagrado... É o regresso anual às nascentes do ser, ao tempo da criatividade maior, em que mais novo sou, seja qual for a idade que tiver, tempo em que me aproximo do momento em que nasci, em que vou rever a minha estrela, encher-me da seiva do universo de onde vim, esperma de amor, baba de orvalho, carícias de átomos e de tudo o que é germinação latente no ventre da terra. Assim me fazes renascer, Outono, e me preparas para o inverno, para todos os Invernos, violentos, sim, mas belos, e eu fico munido então com as armas do amor pleno... Eduardo Aleixo

( In Prosas Poéticas )

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