quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Convidado de Setembro: Arménio Vieira

1. Canto das Graças
( Para Jorge Luís Borges,
de quem herdei o mote,
se é que ainda pode ler
quem já tudo leu )
-
Graças dou pelas Mil Noites
Mais Uma e também por Lewis Carrol,
já que os números mais não são
do que sonhos mergulhados num mar ainda por nomear,
onde os peixes com símbolos se confundem,
razão pela qual a álgebra,
abrindo-se como um livro ou flor,
se converte num conto de encantar.
-
Graças dou por Bento Spinoza
e também por Mallarmé,
já que ambos, em seu tempo
e seu lugar, viram o que jazia
oculto sob a máscara da Esfinge.
-
Sem se importar mesmo nada
com a maldição lançada pelos
rabinos lá do gueto, um judeu
de olhos meigos como as rolas
percebeu que os rios, o mar
e o firmamento não são meros
algarismos em que o Número
se divide, pelo que se torna
redundante dizer que há Deus e Natureza.
-
Esse ponto em que o texto como um rio
se desdobra e, nítido, surge o poema,
só se vê num mapa que Mallarmé doou
aos filhos que teve com a Musa.
-
Graças dou por Luís Vaz,
Ele-Mesmo, varão audaz,
como Ulisses, natatório,
ululado por ciclópicos
bêbedos canibais.
-
Mas quem pode afogar
tal homem,decepar suas mãos,
liquefazer seu poema?
-
Se é verdade que o Novo Reino
sucumbiu à foice com que Deus
decepa a espiga ruim, também é certo
que a partir de um bla-bla ruidoso
com que Viriato, mais que a funda,
espantava os filhos de Eneias,
Luís Vaz, pegando nele, criou o poema
e a pátria que deveras conta.
-
Graças dou pela flama de Rimbaud
e também pela flauta de Verlaine,
pois o que havia era um delido eco
de uma canção que outrora se ouvia no mar
quando Ulisses era deveras Ulisses
e a Musa vinha e se entregava ao poeta.
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Perdidos os sons e a chama
com que os deuses criavam o canto,
o que havia era um livro, *
pequenino, de amargas folhas,
no qual Satã, por crueldade ou gozo,
esteve quase a inscrever o derradeiro verso.
* Les Fleurs du Mal
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Graças dou por Fernando,
primogénito de todos os poetas
que vieram antes e depois.
-
Fernando o Fernando e eu
um novelo, só um,
sem fio na ponta,
eu sinto, e sentindo eu sei,
que o Fernando, como eu,
muita gente e ninguém,
para mim escreveu,
porém outra coisa,
isto é, o que jamais se revela,
dado que o branco do ovo,
ou seja, a parte que o sol alumia,
eu já trazia no sangue.
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Graças dou por cada flor
( entre todas o jasmim )
cujo perfume é o que inda sobra
de uma canção ouvida
há muito tempo
a lembrar alguém
que outrora me quis bem.
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E, sem puxar mais pela rima,
me descarto da memória.
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2. Dez poemas mais um
( para João Cabral de Melo Neto,
pão sem miolo, apenas côdea,
se é que o finado Severino
ainda pode ouvir )
-
Não há guara-chuva, João,
contra o suão que em Setembro
é uma vespa mordendo
como se para o martírio
não bastasse o calor e a secura.
Tão duro é o suão
que, embora não tenha um som,
se porventura o tivesse,
jamais seria o som
da chuva, que, ainda que molhe
e mate, nunca mata queimando.
Quiçá o som de uma pedra
noutra pedra batendo,
talvez fosse esse o som
se acaso o suão, que é mudo,
soltando-se, soasse.
-
Não há guarda-chuva, João,
contra o azar
( que nem chega a ser falta de sorte )
pois que, parando a roleta
sobre o número com que havemos sonhado,
tão parca era a moeda,
que nem deu para jogar.
-
Não há guarda-chuva, João,
contra quem não te ama,
já que o amor só se dá
quando alguém, como um rio,
se alonga e entra no mar,
o qual, embora líquido e salgado,
não é teu suor nem teu sangue.
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Não há guarda-chuva, João,
contra uma noite que é só noite,
sem moeda para comprar o sono,
tão-pouco uma praga
para exorcizar a insónia.
Numa noite assim, qual a chance
de pegar um trem,
no qual, subindo,
principiasse o sonho?
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Não há guarda-chuva, João,
contra eu já não ser a criança
que brinca à chuva e, contente,
assobia bailando, como se a vida,
que é ácido e roda dentada,
fosse um momento sonoro, só música,
que, alegre, ficasse.
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E, por último, sem que isto seja o fim,
não há guarda-chuva, João,
contra os enguiços do poema,
o qual jamais é a deusa
tal como o poeta a viu
( em silêncio e na matriz ).
Razão por que, fingindo,
ele inventa pedaços
de um canto
que ouviu por inteiro.
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3. Poema de amor
-
Se o teu coração e o meu
fossem dois relógios batendo
a mesma hora, nunca chegarias tarde
aos encontros, e eu, no minuto exacto,
chegaria a ti como um rio
que entra no mar.
-
Gostaria de estar contigo
e fôra essa a minha sina, que anjo
ou demónio se lembraria de vir dizer-me
que todos os paraísos
são paraísos perdidos?
.
Amar-te sempre queria eu
até que a morte nos viesse cobrir
de flores. No entanto, que posso fazer
contra os semáforos indicando o vermelho,
com tantas curvas impedindo
que eu siga em linha recta?
-
De resto, quando menos se espera
acontece chover e a seguir à chuva
vem a bruma. Como se não bastasse,
surge um guarda a exigir o santo-e-senha,
porém não recordo nenhum,
apenas sei o número de um telefone
que alguém me deu
quando andava de espingarda e boina verde.
-
Adeus, meu bem e deusa minha,
quando eu morrer, se morrer primeiro,
cobre-me de rosas vermelhas e brancas
e canta para mim uma canção de amor,
não faz mal se for alegre.
-
4. As coisas são como são
-
As coisas são como são - umas sim,
outras sopa. Por acaso as moreias
não são cobras. Pescam-se no mar,
como as lulas. O camaleão é
um assombro: tem todas as cores
e não tem nenhuma. O helicóptero
e a borboleta não sã aves.
O cisne é, mas não gosta de voar.
-
Algumas cobras têm veneno,
tal-qual o escorpião e a cicuta.
A girafa chega aos altos ramos,
a toupeira come no chão.
O Sol abrasa, a Lua não queima.
Uma circunferência é redonda,
um triângulo não é. Nenhum albino é preto,
todos os pigmeus são pequenos.
Eu sei que geito se escreve
com jota, da esquerda para
a direita. Há quem dê erros
de ortografia, da direita para a
esquerda. Os pinguins do Pólo Sul
vivem de cabeça para cima,
tal-qual os esquimós,
que vivem no Pólo Norte.
As coisa são como são.
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Arménio Vieira, in MITOgrafias
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