sexta-feira, 25 de julho de 2008

Cantiga - e BOM FIM DE SEMANA

Fui colher uma romã
Estava madura no ramo
Fui encontrar no jardim
Aquela mulher que eu amo
Aquela mulher que eu amo
Deu-me um aperto de mão
Estava madura no ramo
E o ramo caiu ao chão.
( Cantiga do Baixo-Alentejo )
Nota: cantiga muito antiga. A gente cantava-a, na adolescência, nas noites quentes do Alentejo ..."pra elas ouvirem". Ainda apanhei o tempo de se namorar à janela. De se "pedir namoro": ritual chato, às vezes dramático, ter de decorar as frases: um dia, de tanto decorar, cheguei ao pé dela, que estava a apanhar a "camioneta da carreira" , e tinha pressa, e estava à espera "que eu me declarasse", e eu fiquei nervoso que sei lá, e só saiu: está uma tarde quente, não está? E foi assim que começámos o namoro, após o sorriso sábio dela... De se escreverem cartinhas e bilhetinhos que eram entregues a amigas intermediárias, que, "maganas", os liam, e de tudo sabiam, e nós, ingénuos, novinhos no amor,sem sabermos que essas nos amavam, ou vinham a aprender a amar-nos. Era o tempo em que os padres, do altar para baixo, sabendo dos namoricos, com os dedos espetados, na direcção dos interessados, ou dos pais dos interessados, faziam alusão a maus comportamentos que havia nos jovens, já influenciados, tão novos, pelo poder do demónio. Era o tempo dos pecados, mortais e veniais. Mas isso mais prazer nos dava para cantarmos para elas, debruçadas à janela, e a sonhar, tal como nós tínhamos visto no cinema, com o primeiro beijo.
Na cantiga fala-se em aperto de mão. É belo poeticamente. Mas também de certo modo corresponde à mentalidade da época. A romã simboliza a fertilidade. Vocês já viram a quantidade de bagos dentro dela? Mas também, a meu ver, o mistério: quem sabe o que está dentro da romã? E o prazer de comer os seus bagos depois do labor paciente de descascar a pele grossa, de retirar com cuidado a pele delicada, que protege os alvéolos, onde o tesouro se esconde...
Sim, é uma cantiga bonita. Que a gente cantava nas noites quentes do Alentejo...
Eduardo Aleixo

Onde estão as minhas vestes?

Um meteorito caiu
Montado nele vim eu
Que notícias de Infinito
Que anos perdidos de ceu !
Foi ilusão pretender
Ser dono do paraíso
Contar histórias encantadas
De noites sem voz e sem riso ...
Um meteorito caiu
Montado nele vim eu
Onde estão as minhas vestes?
Nem na terra nem no ceu!
Eduardo Aleixo

Poeta convidado: José Gomes Ferreira

1. ( Num carro para Campolide. Dia sexual )
Uma mulher de carne azul,
Semeadora de luzes e de transes,
Atravessou o vidro
E veio, voadora,
Sentar-se ao meu colo
Na nudez reclinada
Dum desdém de espelhos.
( Mas que bom! Nimguém suspeita
Que levo uma mulher nua nos joelhos.)
2. ( Arte poética )
Liberdade
É também vontade.
Benditas roseiras
Que em vez de rosas
Dão nuvens e bandeiras.
José Gomes Ferreira - Poesia III

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Palavras belas: que sejam úteis!

Palavras belas:
Que sejam úteis!...
Os passos que dê :
Sejam como arados
Na terra grata,
De grãos pesados.
Diga casa,
Com mãos quentes
De amor
E de suor.
E diga amada:
O vento trema de emoção,
E 0 sol fique cheio de inveja!...
Eduardo Aleixo

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Lavaste as mágoas

Vives leve
Como se voasses
Fio de luz
Uniu em ti
O céu
Ao ventre da mãe terra.
Aí,
Nas águas puras do ser
Lavaste as mágoas
Que de volta
Já são asas.
Eduardo Aleixo

terça-feira, 22 de julho de 2008

Longe de ser eu.

Longe de ser eu
As águas não são claras
Mesmo que o poema seja belo
E o beijo seja ardente.
Longe de ser eu
Estou longe da Nascente.
Eduardo Aleixo

segunda-feira, 21 de julho de 2008

O PICO ( escrito de S. Tomé, pela Rita )

Este fim-de-semana fui ao Pico de São Tomé e Príncipe, cuja altura é de sencivelmente 2000 metros. Depois de uma semana de trabalho extenuante, com a cabeça a latejar, e numa ilha onde não se pode fugir para muito longe, decidi partir para o cume mais alto, para daí poder abstrair-me de tudo e conhecer o mais interior desta ilha encantada. Parti bem cedo, ás 5h, com uma amiga portuguesa, dois franceses, um santomente, mais o guia e o carregador. Fomos de taxi até ao Jardim Botânico e daí partimos a pé para o interior montanhoso. Essa travessia teve início ás 8h da manhã e só terminou ás 4.30 da tarde...Que posso dizer? Foi realmente um desafio físico e psicológico brutal. Pois para além de ser uma caminhada dura, tivemos que enfrentar um dia de chuva e névoa, em caminhos no meio de uma vegetação intensa, com passagens a trepar, a subir e a descer constantemente. Mas valeu o esforço. Não pelo que se podia observar lá de cima, pois estava um nevoeiro intenso (dizem que tem uma vista fantástica, pois pode-se ver os dois lados da ilha, desde as Rolas até Neves), mas pelo desafio em si mesmo, de esforçar as nossas capacidades até ao limite. Acampámos lá em cima, fizemos uma fogueira e pareciamos estar numa acampamento de ciganos, com mantas, roupa, panelas, tudo à volta para nos aquecermos da humidade e frio que se fazia sentir à noitinha. Aí tivemos o privilégio de ter a lua cheia por companhia com o céu estrelado em cima de nós - no meio de mais nada senão a natureza. No outro dia bem cedo - ás 7h - começámos a descida pelo outro lado das montanhas. Foi um desafio ainda mais duro, pois os músculos já estavam cansados e a descida era sempre íngreme (não recomendável para quem tem vertigens e problemas cardiacos). No final já tudo me doía e cada passo era um esforço assinalável. Só chegámos a Neves, onde um taxi nos esperava, por volta das 3.30h...Eu nem queria acreditar! Quando vi pessoas, quase foi um choque, pois vinha do total isolamento montanhoso e secular da Natureza. Maravilhoso! Nem dá para acreditar que existe tanta beleza escondida e por explorar num espaço tão reduzido... Bom início de semana para todos...!

Poeta convidado: Miguel Torga

Aceno
Longe,
Seu coração bate por mim;
E a sua mão desenha aquele afago
Que me sossega inteiro...
Longe,
A verdade serena do seu rosto
É que faz este dia verdadeiro...
( Miguel Torga )

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Alentejo - memórias ao sabor das teclas...( em memória do Serrão Martins e dedicado ao Pedro Martins, ao Casimiro , ao Belard e ao Arlindo )

Trigo já ceifado e debulhado mecânicamente. Campos cor do ouro. Lembro-me destes campos, há cinquenta anos. Eram mondados e ceifados por homens e mulheres. A ceifa era tarefa árdua. Elas, com espigas de trigo presas como enfeites nas fitas em redor dos chapéus de palha. Eles, com lenços ao pescoço por causa do calor tórrido. O trabalho era de sol a sol. Pequeno intervalo para a comida debaixo das azinheiras. Vigias por perto. Infusas de barro com água.

Atravesso a planície entre Ferreira do Alentejo e Beja e canto:

Resolvi ir até Lisboa

Resolvi ir até lá

Em busca duma vida boa

Que eu procuro

E não encontro cá.

Abalei

Embarquei

No comboio

Que assobiava pela linha

Às vezes

Penso comigo

E digo

Não sei que sorte

É a minha.

E depois que cheguei ao Barreiro

No barco que atravessa o Tejo

Chora por mim

Que eu choro por ti

Já deixei o Alentejo

Chora por mim

Que eu choro por ti

Já deixei o Alentejo...

Poema que se fosse ordenado consoante o modo de cantar teria ordenação completamente diferente das letras e das palavras. Cantiga, de qualquer modo, difícil de cantar, esta... Há outras ainda mais complicadas, que têm muitos volteios, arabescos, arrebitos e tempos de folga respiratória, só conhecidos por quem lá nasceu e muito viu e muito ouviu e muito cantou. As tabernas eram coliseus de cântico polifónico. Sem maestro. O canto alentejano não precisa dele. Depois de um dia de ceifa os corpos estavam cansados, mas para o canto não. Era através do canto que os camponeses falavam, iam pensando, iam ruminando as alternativas difíceis que se punham ao modelo atávico dos sons. Desabafavam. De tão lentamente que cantavam parecia que rezavam, até podia ser, e era também, mas era mais um desabafo, uma libertação possível dentro da impossilidade da porra da vida. As vozes que havia e que já morreram!...Que vozes magníficas havia!...Começava o Joaquim Caixinha, no silêncio das mágoas. À luz do petróleo, ou depois do petromax. No silêncio de quantos séculos de escravidão? Voz enrolada. Os homens figuras sombras encostadas ao balcão sombrio da tasca. Sempre foi assim desde os tempos mais antigos: quando a quadra introdutória ficar completa...levanta-se do chão da garganta da terra da dor de que memórias de sangue levanta-se a voz vibrante do Manel Matias, que é um introito para o coro que aí vem, e que enche a noite, com o "alto" a sobressair, mas com harmonia, como se estivesse por detrás do canto, mãos de seara e espiga nas mãos do povo, a maestrar, e todas as vozes sabendo como se tivessem estudado, todos os tons casando, enchendo a noite, pondo em sentido o seu silêncio, não há mais nada para os homens senão o canto, o calor do canto, não vale a pena ir chamá-los à taberna, as mulheres sabem, sabem que eles cantam e enquanto cantarem vão serenando e suavizando a dor que todos sentem...Assim se cantavam as cantigas. Vozes que já não há. Há apenas os que como eu ainda sabem. E se lembram...

Era a praça dos ceifeiros. A vila de Mértola sabe. Mas não só. Falo de Mértola porque foi lá que vi as coisas que conto.Na sua sua praça principal é que acontecia a praça dos ceifeiros:
Era o largo da vila. Era o centro. Era onde paravam as camionetas. Era onde havia o barbeiro. Era onde havia o engraxador. Era onde se compravam os jornais. Era onde a GNR não deixava que houvesse ajuntamentos de mais do que uma pessoa. Era onde havia o comércio. O mercado. Era onde os que queriam ir a salto eram detectados pela GNR, caras novas acabadas de chegar e já se sabia que ficavam ali o dia à espera da camioneta das oito para a Mina de S. Domingos, junto da fronteira, onde eram presos por denúncia da Guarda de Mértola. Era o centro da vila. Hoje já não. Mas era. Era aí que nós, jovens, falávamos sobre a vida. Sonhávamos a vida. Queríamos outra vida que não aquela. Mas não sabíamos nada de política. Líamos muito. Sabíamos de uma coisa que os livros diziam que era justa e que se chamava comunismo. E era coisa que parecia óbvia. Mais tarde é que passámos a conhecer as coisas mais de perto. Do que tem de bom.E do que tem de mal. Do que foi bem feito. E do que foi mal feito. Mas vamos lá àquilo que quero contar. A praça dos ceifeiros... Sim, era em Julho. Eu vou agora entre Ferreira e Beja e vou cantando a moda que mostra como o povo partiu para Lisboa. Mas outros partiram para a Alemanha. A maioria para Paris. O Alentejo viu partir dois terços da sua mão de obra, e olhando para os campos de restolho doirado, para os molhos rectangulares de trigo, vejo chegar ao largo da vila carrinhas carregadas de homens e mulheres, começam a chegar ao por do sol, não param de chegar, vêm do Algarve e da Beira, a estes chamam-lhe de "ratinhos," são cada vez mais, enchem o largo, a GNR não se importa, não lhes vai dizer que é proibido haver ajuntamentos de mais do que uma pessoa no alcatrão ( o cabo da GNR que disse isso ficou com a alcunha de cabo alcatrão), só na manhã seguinte se poderia perceber o motivo, se poderia perceber para quem andasse afastado destas coisas, na manhã seguinte chegavam os automóveis e outros transportes pertencentes aos lavradores, aos donos das terras, àqueles que mais tarde, no 25 de Abril, passaram a chamar-se de latifundiários, então o que aconteceu era simples, diz-se em poucas palavras : os donos das terras escolhiam os camponeses, como se escolhessem gado: em primeiro lugar os mais musculosos, que uma vez escolhidos subiam para as camionetas, depois os outros, e assim sucessivamente, e sempre com a supervisão da GNR... Era este povo que fazia a ceifa. De sol a sol. Muito mal pago. Numa época de muita fome. Se não fosse a fome o povo alentejano, que nunca foi de largar a terra e rumar para outros países, de lá não saía com certeza... Foi disso que me lembrei e me lembro sempre em todos os Julhos quando vou para Mértola, a cantar, e passo pela planície, nos campos de Beja, onde hoje se podem ver também lindos girassóis... Eduardo Aleixo

O mar, o meu cão ( gwyn) e eu...

O meu gwyn ficou com ciúmes de ver o veado do poema do Manuel Bandeira na Net e ele, não. De modo que lhe faço a vontade. Não é lindo o meu cão?.
Claro que o mar é mais importante.
E mais ainda a sua canção. Que não se ouve aqui.Mas vocês imaginam.
Eduardo Aleixo

Poeta convidado: Manuel Bandeira

Lenda Brasileira
A MOITA BULIU.
Bentinho Jararaca levou a arma à cara:
O que saíu do mato foi o veado branco!
Bentinho ficou pregado no chão.
Quis puxar o gatilho e não pôde.
- Deus me perdoe!
Mas o Cussaruim veio vindo, veio vindo,
Parou junto do caçador
E começou a comer devagarinho
O cano da espingarda.
Manuel Bandeira

quarta-feira, 16 de julho de 2008

De um dia para o outro...

De um dia para o outro
A flor abriu!
- Quem foi que te sorriu?
Eduardo Aleixo

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Poema idealista (1)

É como tocar... sem ver,
E mesmo assim... conhecer!
Como dizer?
Se calhar não temos só dois olhos
Para ver!
Certamente que não...
Se não...
Eu não diria aquilo
Que há muito sabe o coração!
(1) Escrito com a lucidez de quem sabe, no entanto, que usado como estilo de vida ,tem uma elevada percentagem de fracasso. Mas também sabe que a pequena percentagem é o oásis dos eleitos!
Eduardo Aleixo

Porque não há equilíbrio

Só o equilíbrio
Entre a praia dos pescadores,
Onde os barcos
Vão buscar o pão ao mar,
E a praia
Dos "résorts"
E das "massagens",
Secará
Um dia
A lágrima suja
Do rosto da criança
Que entra descalça
Na indiferença
Da cidade...

Eduardo Aleixo

domingo, 13 de julho de 2008

Poeta convidado: Fernando Pessoa

Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão,
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está, e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza.
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!
( Poemas completos de A. Caeiro )