quinta-feira, 17 de julho de 2008

Alentejo - memórias ao sabor das teclas...( em memória do Serrão Martins e dedicado ao Pedro Martins, ao Casimiro , ao Belard e ao Arlindo )

Trigo já ceifado e debulhado mecânicamente. Campos cor do ouro. Lembro-me destes campos, há cinquenta anos. Eram mondados e ceifados por homens e mulheres. A ceifa era tarefa árdua. Elas, com espigas de trigo presas como enfeites nas fitas em redor dos chapéus de palha. Eles, com lenços ao pescoço por causa do calor tórrido. O trabalho era de sol a sol. Pequeno intervalo para a comida debaixo das azinheiras. Vigias por perto. Infusas de barro com água.

Atravesso a planície entre Ferreira do Alentejo e Beja e canto:

Resolvi ir até Lisboa

Resolvi ir até lá

Em busca duma vida boa

Que eu procuro

E não encontro cá.

Abalei

Embarquei

No comboio

Que assobiava pela linha

Às vezes

Penso comigo

E digo

Não sei que sorte

É a minha.

E depois que cheguei ao Barreiro

No barco que atravessa o Tejo

Chora por mim

Que eu choro por ti

Já deixei o Alentejo

Chora por mim

Que eu choro por ti

Já deixei o Alentejo...

Poema que se fosse ordenado consoante o modo de cantar teria ordenação completamente diferente das letras e das palavras. Cantiga, de qualquer modo, difícil de cantar, esta... Há outras ainda mais complicadas, que têm muitos volteios, arabescos, arrebitos e tempos de folga respiratória, só conhecidos por quem lá nasceu e muito viu e muito ouviu e muito cantou. As tabernas eram coliseus de cântico polifónico. Sem maestro. O canto alentejano não precisa dele. Depois de um dia de ceifa os corpos estavam cansados, mas para o canto não. Era através do canto que os camponeses falavam, iam pensando, iam ruminando as alternativas difíceis que se punham ao modelo atávico dos sons. Desabafavam. De tão lentamente que cantavam parecia que rezavam, até podia ser, e era também, mas era mais um desabafo, uma libertação possível dentro da impossilidade da porra da vida. As vozes que havia e que já morreram!...Que vozes magníficas havia!...Começava o Joaquim Caixinha, no silêncio das mágoas. À luz do petróleo, ou depois do petromax. No silêncio de quantos séculos de escravidão? Voz enrolada. Os homens figuras sombras encostadas ao balcão sombrio da tasca. Sempre foi assim desde os tempos mais antigos: quando a quadra introdutória ficar completa...levanta-se do chão da garganta da terra da dor de que memórias de sangue levanta-se a voz vibrante do Manel Matias, que é um introito para o coro que aí vem, e que enche a noite, com o "alto" a sobressair, mas com harmonia, como se estivesse por detrás do canto, mãos de seara e espiga nas mãos do povo, a maestrar, e todas as vozes sabendo como se tivessem estudado, todos os tons casando, enchendo a noite, pondo em sentido o seu silêncio, não há mais nada para os homens senão o canto, o calor do canto, não vale a pena ir chamá-los à taberna, as mulheres sabem, sabem que eles cantam e enquanto cantarem vão serenando e suavizando a dor que todos sentem...Assim se cantavam as cantigas. Vozes que já não há. Há apenas os que como eu ainda sabem. E se lembram...

Era a praça dos ceifeiros. A vila de Mértola sabe. Mas não só. Falo de Mértola porque foi lá que vi as coisas que conto.Na sua sua praça principal é que acontecia a praça dos ceifeiros:
Era o largo da vila. Era o centro. Era onde paravam as camionetas. Era onde havia o barbeiro. Era onde havia o engraxador. Era onde se compravam os jornais. Era onde a GNR não deixava que houvesse ajuntamentos de mais do que uma pessoa. Era onde havia o comércio. O mercado. Era onde os que queriam ir a salto eram detectados pela GNR, caras novas acabadas de chegar e já se sabia que ficavam ali o dia à espera da camioneta das oito para a Mina de S. Domingos, junto da fronteira, onde eram presos por denúncia da Guarda de Mértola. Era o centro da vila. Hoje já não. Mas era. Era aí que nós, jovens, falávamos sobre a vida. Sonhávamos a vida. Queríamos outra vida que não aquela. Mas não sabíamos nada de política. Líamos muito. Sabíamos de uma coisa que os livros diziam que era justa e que se chamava comunismo. E era coisa que parecia óbvia. Mais tarde é que passámos a conhecer as coisas mais de perto. Do que tem de bom.E do que tem de mal. Do que foi bem feito. E do que foi mal feito. Mas vamos lá àquilo que quero contar. A praça dos ceifeiros... Sim, era em Julho. Eu vou agora entre Ferreira e Beja e vou cantando a moda que mostra como o povo partiu para Lisboa. Mas outros partiram para a Alemanha. A maioria para Paris. O Alentejo viu partir dois terços da sua mão de obra, e olhando para os campos de restolho doirado, para os molhos rectangulares de trigo, vejo chegar ao largo da vila carrinhas carregadas de homens e mulheres, começam a chegar ao por do sol, não param de chegar, vêm do Algarve e da Beira, a estes chamam-lhe de "ratinhos," são cada vez mais, enchem o largo, a GNR não se importa, não lhes vai dizer que é proibido haver ajuntamentos de mais do que uma pessoa no alcatrão ( o cabo da GNR que disse isso ficou com a alcunha de cabo alcatrão), só na manhã seguinte se poderia perceber o motivo, se poderia perceber para quem andasse afastado destas coisas, na manhã seguinte chegavam os automóveis e outros transportes pertencentes aos lavradores, aos donos das terras, àqueles que mais tarde, no 25 de Abril, passaram a chamar-se de latifundiários, então o que aconteceu era simples, diz-se em poucas palavras : os donos das terras escolhiam os camponeses, como se escolhessem gado: em primeiro lugar os mais musculosos, que uma vez escolhidos subiam para as camionetas, depois os outros, e assim sucessivamente, e sempre com a supervisão da GNR... Era este povo que fazia a ceifa. De sol a sol. Muito mal pago. Numa época de muita fome. Se não fosse a fome o povo alentejano, que nunca foi de largar a terra e rumar para outros países, de lá não saía com certeza... Foi disso que me lembrei e me lembro sempre em todos os Julhos quando vou para Mértola, a cantar, e passo pela planície, nos campos de Beja, onde hoje se podem ver também lindos girassóis... Eduardo Aleixo

Postar um comentário