segunda-feira, 7 de julho de 2008

Ilheu das Rolas - (2)

No outro lado do ilhéu , sentámo-nos a admirar a praia Joana e fomos bebendo sumo de coco que os rapazes cortavam com os seus "maxins" ( espécie de catanas ), utensílio que sempre acompanha os homens do campo, quer aqui quer em S. Tomé. A seguir fomos ver o que eles chamam de " furna ", e que é uma cratera na rocha por onde sai com muita pressão e muito barulho um jacto fortíssimo de água, de cada vez que as ondas são projectadas contra os rochedos e as águas são estranguladas e depois se libertam como "geysers".
Nas arribas podem ver-se muitas tocas de caranguejos da terra. E também campos da capim, cujas folhas ( canablabos) eles cortam e usam para pescarem o " peixe voador ". Para isso colocam o capim sobre tábuas, amarradas a cordas, tábuas que lançam para o mar, com as cordas seguras. Como o peixe-voador anda na época da desova e avalia a tábua como um leito ideal para o seu propósito, salta para as tábuas, feliz e contente, não imaginando que vai ser pescado.

Ao meu lado vou trocando impressões com os rapazes da ilha. Pergunto-lhes se vão à escola. Nem todos vão. A escolaridade não é obrigatória. Os que vão têm de ir todos os dias até Porto Alegre, que fica no sul da ilha de S. Tomé, de barco, de manhã, e regressam à noite. Os meninos, cujos pais não têm dinheiro para comprarem os alimentos e os artigos escolares em Porto Alegre, eses não vão. Pergunto onde vivem. Fico a saber que na única aldeia que existe no ilhéu, que tem cerca de 40 pessoas, mas que já teve, há uns cinco anos, cerca de 400. O que aconteceu foi que cada habitante foi aliciado para receber uma indemnização de 2500 euros. ( 1 euro equivale a cerca de 24.000 dobras , moeda local ) para sair da aldeia e da ilha. A maioria não resistiu. Num país em que o salário médio mensal ronda os 20 euros, aquela importância era muito convidativa. Hoje...os que partiram, para o sul de S. Tomé, para a zona de Porto Alegre, estão arrependidos. Muitos estão no desemprego. Os que não estão no desemprego têm uma vida difícil, pois o dinheiro foi gasto na aquisição da casa e do seu recheio. Os que ficaram vivem pobremente. A maioria , da pesca. Os seus barcos podem ver-se logo a seguir às instalações do hotel. Quando por lá passamos em direcção à praia chamada de " Monte Café " eles propõem vender-nos o almoço de peixe, pescado por eles, ali na praia, ou então uma viagem de barco até às praias em frente na ilha de S. Tomé... Ao lado... outro mundo, como acontece em todo o mundo, capitalista, socialista ou comunista: o mundo de quem pode ir para sítios belos e aí deliciar-se:...

Finalmente, gostaria, em síntese, de dar a minha impressão sobre as danças e cantares que ouvi nas noites na ilha das Rolas. Danças, na sua maioria, de origem cabo-verdiana, mas todas assumidas como são-tomenses. Sem dúvida, que todas africanas, com o ritmo de África, o corpo de África, porque estamos em África. Com a lua cheia no céu, a espreitar pelos ramos dos coqueiros, apreciei o tom gracioso da Ússua, com movimentos de corpo a mostrar, a quem não conhece a dança, que era o meu caso, o que é universal na arte de fazer a corte, o voltear do corpo, o insinuar, o mostrar que quer e não quer, a conquista do par...

Alegre, a Deixa, uma roda, palmas, alguém sempre no centro da roda, uma dança que surgiu após a independência de S. Tomé. A Atafua, corpos desengonçados, movimentos rápidos, em roda, as pernas em movimento como se fosse twist... Daco Torno... de origem cabo-verdiana...elas dançam com garrafas na cabeça... Funanam.. A mais erótica... A Puita...a mais erótica-sexual. Finalmente...a quizamba. Aqui deixo os nomes. Não sei descrever melhor. Sei ouvir. E sentir. Trouxe um dvd com estas danças. E não há dúvida: assim como os alentejanos sabem o que é cantar, eles, os africanos, são mestres na arte de dançar...
Eduardo Aleixo ( Ilha das Rolas, 18/6/2008)

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