terça-feira, 1 de julho de 2008

O massacre de 1953 - S. Tomé

Foi a primeira vez que ouvi falar neste trágico acontecimento, ocorrido em 1953, era então Governador de S. Tomé, Carlos de Sousa Gorgulho.
Como acontecia naquela época e naquele regime, muita coisa deste género era ocultada.
O meu primeiro contacto com o evento foi quando visitei, no dia 24 de Junho, a roça que foi de Fernão Dias, roça que explorava o óleo de copra e a aguardente de cana. Como a esmagadora das roças, abandonada. E esta, por sinal, em ruínas.
O contacto deu-se quando olhei para o que vem escrito no monumento que lá se encontra, junto do mar, e que foi construido em 1957. Trata-se de um poema evocativo da tragédia e da autoria de Alda do Espírito Santo, e que está incluído no seu livro de poemas, " É nosso o solo sagrado da Terra":
" Onde estão os homens caçados neste vento da loucura
O sangue caindo em gotas na terra
Homens morrendo no mato
E o sangue caindo, caindo...
Nas gentes lançadas no mar...
Fernão Dias para sempre na História
Da ilha verde rubra de sangue,
Dos homens tombados
Na arena imensa do cais
(................)
O sangue das vidas caidas
Nos matos da morte
O sangue inocente
Ensopando a terra
Clamando justiça.
É a chama da humanidade
Cantando a Esperança
Num mundo sem peias
Onde a Liberdade
É a pátria dos homens...
( Alda do Espírito Santo )
Houve ceca de 1000 mortos de Fevereiro a Março de 1953. Mortes em cadeiras eléctricas. Homens lançados no mar. Pessoas asfixiadas. Acorrentadas. Mulheres violentadas. Conforme se encontra documentado e com fotos no Museu Nacional, que funciona no Forte de S. Sebastião.
O Dr Mário Soares fez por mais de uma vez referência a este acontecimento na sua estadia em S. Tomé, nomeadamente na Casa da Cultura, aquando da exposição de documentos e fotos ilustrativos da sua prisão nesta ilha, em 27 de Junho. Fiquei também a saber que o Dr Palma Carlos foi advogado de defesa de muitas famílas das vítimas, entre elas a mãe da poetisa, Alda do Espírto Santo, Maria de Jesus Agostinho das Neves e também de Maria dos Ramos, ambas presas noForte de S.Sebastião.
A poetisa, figura lendária de S. Tomé, tive oportunidade e muito prazer em vê-la : embora velhinha, tem os olhos brilhantes e bonitos. Tive pena de não ter podido falar-lhe, mas estava muito ocupada com a imprensa.
Eduardo Aleixo
( Cidade de S. Tomé, 27 de Junho de 2008)
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