terça-feira, 29 de julho de 2008

Dois poetas para lembrar sempre

Pedro Correia publicou no Diário de Notícias, do dia 26 de Julho, este artigo, em memória de Jorge de Sena e de Ruy Belo e não se importa, certamente, que eu o transcreva no " À Beira de Água".
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Dois poetas. Dois espíritos superiores que andam escandalosamente esquecidos.Morreram faz agora 30 anos: Jorge de Sena ( 1919-78 ) e Ruy Belo ( 1933-78). Inconformistas, ambos exilados - um no exterior, outro no interior. Sem grupos ou capelinhas, habituados a arremeter contra ventos e marés. E acima de tudo dois excelentes poetas - do melhor que tivemos, não apenas no século XX, mas em toda a história da literatura portuguesa.
Partiram ambos demasiado cedo, ainda com muitos livros por escrever. Primeiro, Sena, um dos mais corajosos resistentes à ditadura salazarista, com a qual não transigiu em circunstância alguma - ele que era um adversário acérrimo de toda a espécie de ditaduras. Exilado no Brasil, por decisão própria, Viria igualmente a abandonar este país quando a ditadura militar se instalou em Brasília, acabando por fixar-se em Santa Bárbara, Califórnia, onde ainda hoje residem a sua viúva, Mécia de Sena, e vários dos seus nove filhos.
Sena distinguiu-se como tradutor ( de Malraux a Hemingway, por exemplo ), crítico literário, antologiador, ficcionista e dramaturgo. Mas sobretudo como admirável poeta - uma das mais originais vozes portuguesas das últimas décadas.Dele é por exemplo este fabuloso Camões dirige-se aos seus contemporâneos :

" Podereis roubar-me tudo:/ as ideias, as palavras, as imagens,/e também as metáforas, os temas, os motivos/os símbolos, e a primazia/nas dores sofridas de uma língua nova/no entendimento de outros, na coragem/de combater, julgar,de penetrar/em recessos de amor para que sois castrados./E podereis depois não me citar,/suprimir-me, ignorar-me,aclamar até/outros ladrões mais felizes./Não importa nada: que o castigo/ será terrível. Não só quando/vossos netos não souberem já quem sois/terão de me saber melhor ainda/do que fingis que não sabeis,/como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,/reverterá para o meu nome.E mesmo será meu,/tido por meu,contado como meu,/até mesmo aquele pouco e miserável/que, só por vós, sem roubo,haveríeis feito./Nada tereis, mas nada: nem os ossos,/que um vosso esqueleto há-de ser buscado,/para passar por meu.E para outros ladrões,/iguais a vós, de joelhos,porem flores no túmulo."

Ou a célebre Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya:

" Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes/aquele instante que não viveram,aquele objecto/que não fruíram, aquele gesto/de amor, que fariam "amanhã"./E,por isso,o mesmo mundo que criemos/nos cumpre tê-lo com cuidado,como coisa/que não é nossa,que nos é cedida,/para a guardarmos respeitosamente/em memória do sangue que nos corre nas veias,/da nossa carne que foi outra,do amor que/outros não amaram porque lho roubaram."

Ruy Belo foi igualmente um dos mais singulares nomes da poesia portuguesa. Ribatejano, de Rio Maior, celebrou em verso o campo e a cidade, o seu tempo e todos os tempos, o passado e o futuro, o corpo e a alma, o rincão natal e o universo sem fronteiras. Profundamente cristão, tal como Sena, mas descrente das várias igrejas, sem jamais deixar e confiar no Homem.É também o poeta da luz solar- em permanente rebelião contra o tempo crepuscular em que viveu.E foi afinal num Verão bem quente que o seu coração desistiu de bater, quando ainda havia tanto a esperar do seu talento.

Ruy Belo tem inúmeros poemas de uma qualidade ímpar- quase todos os de Homem de Palavra(s), por exemplo. Mas o de que mais gosto é do longo poema A Margem da Alegria, dedicado aos amores de Pedro e Inês - o mais belo e trágico romance de todos os tempos em Portugal:

" O mistério dos mares tenebrosos tem ali silêncios rasos/navegantes de pé entre o dossel do céu e a cama da maré/jazem serenos hoje nessa lousa onde o tempo apenas pousa/e só com a minha lâmina de aço língua de toledo os ameaço/no túmulo deitada Inês parece a própria placidez/ela que em vida ouvindo alguém chamar/julgava respirar esse cheiro envolvente português/dos laranjais e jamais a nave donde nunca mais/havia de sair não já para criança inaugurar/o dia a dia o vasto espaço onde cada folha/dos plátanos e até canas e oliveiras/valem humildemente mais do que a melhor palavra minha."

Dois grandes autores desaparecidos há três décadas.Façamos tudo para que a obra de ambos não sucumba à pior das mortes literárias: a do esquecimento premeditado. Fartos de figuras menores andamos todos nós."

Pedro Correia

( In Diário de Notícias, 26/7/2008 )

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O " À Beira de Água " concorda com Pedro Correia e com este "post" o que pretende é lembrar estes dois grandes poetas. Que eles nunca sejam esquecidos na voragem do tempo...

Eduardo Aleixo

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