sexta-feira, 28 de novembro de 2008

QUEM GANHOU A CONCHA FOI......

A atribuição da concha de S. Tomé obedeceu aos seguintes critérios, escritos no meu post, de 26 de Novembro, com o título, " ATENÇÂO ":
1. « Quem acertar no seu nome ( do poeta ) receberá um prémio...» 2. A « concha será entregue a quem, em primeiro lugar ( mais cedo no tempo) disser o nome do poeta...»
Assim, não pude tomar em consideração quem indicou mais do que um nome ( foi o caso do blogue, O Cheiro da Ilha, a despeito de ter sido o primeiro a indicar, mas juntamente com muitos outros nomes , o nome de Camões ). Tenho a certeza de que a Maria compreenderá as minhas razões.
Quem indicou o nome de Camões , e só o seu nome, foi um Anónimo. Lamento não poder atribuir-lhe o prémio por se tratar de um Anónimo. Mais do que uma vez, neste blogue, tenho pedido para que as pessoas se identifiquem. E neste caso o meu lamento ainda é maior, porque a análise que fez no seu comentário foi brilhante. Fico à espera que me dê a conhecer o seu nome e desejo do fundo do coração que continue a fazer parte da família do À Beira de Àgua.
O blogue que acabou por preencher os requisitos exigidos ( um só nome, o de Camões, e sua comunicação mais cedo no tempo ,como podem comprovar, acedendo ao post respectivo ) é: - PICO MINHA ILHA. parabéns. Resta-me agradecer a todos o modo entusiástico com que aderiram à ideia, dar-lhes muitos abraços de amizade e de ternura e dizer-lhes que ... há mais conchas para distribuir no futuro.
Quanto ao blogue, Pico minha Ilha, e tendo em vista combinar o modo de entrega da concha, peço-lhe para me contactar através do meu email, que se encontra no meu Perfil. Não tendo o email do blogue vencedor não vejo outra maneira de o contactar.
BOM FIM DE SEMANA PARA TODOS, ATÉ AO DIA 2 DE DEZEMBRO. QUE ME VOY ATÉ RONDA - SEVILHA. Eduardo

Convidado da semana: Luís de Camões

1. Descalça vai para a fonte
Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
vai fermosa e não segura.
-
Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.
-
Descobre a touca a garganta,
cabelos de ouro o trançado,
fita de cor de encarnado,
tão linda que o mundo espanta;
chove nela graça tanta
que dá graça à fermosura;
Vai fermosa e não segura.
2. Aquela triste e leda madrugada
Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de ûa outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.
-
Ela só viu as lágrimas em fio,
que de uns e de outros olhos derivadas
se acrescentaram em grande e largo rio.
-
Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas.
3. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
-
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem ( se algum houver ), as saudades.
-
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro o doce canto.
-
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.
4. Fala do velho do Restelo - de os "Lusíadas"
( extracto )
Mas um velho, d'aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só d'experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
-
" Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cûa aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles exp'rimentas!
-
--------------
---------------
Deixas criar às portas o inimigo,
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino Antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe;
Buscas o incerto e incógnito perigo
Por que a Fama te exalte e te lisonje
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia!
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5. Amor é um fogo que arde sem se ver
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
-
É um querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre as gentes;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
-
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
-
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo amor?
( Luís de Camões, 1524 ? - 1580 )

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O silêncio das gaivotas contado pela estrela do mar - continuação (2)

«As gaivotas andam recolhidas - começou ela , após um momento de silêncio. A coisa já dura desde o ano passado, mas o silêncio das gaivotas só aparece com a ordem dada pelas autoridades de despedirem o faroleiro. Ora elas só obedecem ao faroleiro.»
« Tu estás bem?! Com a tua cultura, os teus conhecimentos ... continuas a querer viver nesta poça, neste isolamento? », perguntei.Mas sem resposta.
« As gaivotas nasceram para voar, pescar e serem livres. Agora, querem dar-lhes outras funções! »

À medida que falava, os mexilhões aproximavam-se com respeito e os ouriços deslocavam-se imperceptivelmente na direcção da estrela , que, no seu cantinho, apenas movia a boca no centro do seu corpo . A água na poça era transparente, reflectia o azul do céu e tremia de modo permanente devido aos movimentos dançantes dos filamentos da planta marinha.

« Mas que outra funções»?, perguntei, intrigado.
« É preciso conhecer a história destes bichos, que são livres, e não domesticáveis. Não são bichos fáceis. Nunca foram. Só há coisa de uma centena de anos é que existe paz na costa , e em concreto nesta costa, oeste. São bichos de culturas diferentes. De saberes diferentes. Uma gaivota de Peniche é diferente de uma gaivota de Santa Cruz...»

« Pois sim, mas... falaste em funções , falaste em faroleiro...»
« Falei em faroleiro porque elas só obedecem aos faroleiros. Foram os faroleiros da costa que pacificaram o mundo das gaivotas. Só eles, aliás, o poderiam ter feito, porque receberam o conhecimento das gaivotas como herança dos seus antepassados. E elas sabem. E elas amam os faroleiros, mesmo que com eles discutam. Acabaram as guerras a partir do momento em que lhes foram distribuídas praias e rochedos, isto é, zonas para elas morarem. Onde têm morado e vivido, felizes, até ao dia em que foram chamadas ao faroleiro e este lhes disse ter recebido ordens superiores de que o mundo das gaivotas devia mudar radicalmente...»

« Mas quem manda no faroleiro, e qual o motivo da mudança? », perguntei, confuso.

« Quem manda no faroleiro é o chamado Ministério da Onda , que antes nunca se meteu nestes assuntos do mar, mas que agora vem dizer que com a globalização , não sei que mais, das questões marinhas e dos requisitos da excelência, coisas assim... as regras passaram a ser universais e a abranger drasticamente o mundo das gaivotas...
A bicharada na poça dizia que sim com as cabeças, os mexilhões abriam e fechavam as suas conchas de cor escarlate, os ouriços tinham os espinhos mais eriçados, as lapas descolaram levemente as suas conchas , mostrando os olhos aquiescentes, e os peixinhos navegavam parados, com a atenção suspensa...

« Desculpa lá, mas qual o motivo invocado pelo faroleiro para não cumprir a ordem?
« O faroleiro não cumpre essa ordem, e não cumprindo, pode ser afastado », esclareceu a estrela.
« Mas que ordem é essa e a que funções te referes? E qual o motivo por que as gaivotas estão escondidas e não aparecem nas praias? »
Aqui ela fez silêncio. O silêncio dela foi acompanhado por ligeira crispação dos corpos dos bichos em redor e reparei na paragem súbita da dança dos filamentos da planta marinha. Senti que o assunto era delicado e que a estrela precisava de medir as palavras. Seguindo o seu olhar, vi, no cimo das arribas, duas gaivotas adultas, que nos olhavam, denunciando que estavam ali desde o princípio atentas à nossa conversa.
- É melhor continuarmos a conversa noutro dia... - sibilou a estrela, olhando-me com aquele ar conspirativo, que herdou dos tempos antigos, quando militou no MRPP...
- Mas..
-É por causa da maré. - esclareceu - Está a subir. Podes ficar isolado e não teres tempo para saltares dos rochedos para o areal
- Ate manhã - despedi-me eu.
- Até.... - acenou-me ela, levantando a pontinha de uma das suas hastes de estrela, que logo se recolheu, para se proteger das primeiras águas trazidas por uma onda da enchente.
NOTA: A continuação, ou não, desta estória, depende da natureza, confidencial ou não , do que tenha para ouvir da parte da estrela do mar...)
Eduardo Aleixo

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

ATENÇÃO

Na sexa-feira, dia 28, este blogue vai receber, como convidado, um poeta.
Quem acertar no seu nome receberá um prémio, que darei com toda a alegria. O prémio é uma concha, rara, de S. Tomé e Príncipe. Podem vê-la no lado direito do blogue. É um poeta muito grande de Portugal. Muito grande, repito. A concha será entregue a quem, em primeiro lugar ( mais cedo no tempo ), disser o nome do poeta, em comentário a este post, até ao último segundo desta quinra-feira, dia 27 de Novembro. Boa sorte. Já está a contar. Eduardo Aleixo

O mistério do silêncio das gaivotas contado pela estrela do mar

Não é normal que não se vejam as gaivotas. Também não é normal , com uma vazante assim, que não se vejam homens, de calças arregaçadas, a apanharem mexilhões, ou polvos, ou lapas, no meio dos rochedos. Também é estranho que com um mar tão chão nem um pescador desportivo se veja. Está um lindo dia de sol de Novembro. Como sempre faço, aos fins de semana, passeio-me junto do mar, e perscruto as diversas tonalidades do azul e do verde ao longo de uma estrada que tem como alvo as Berlengas .
Hoje, as ondas deslizam suavemente e estendem os braços de espuma, que se espreguiçam languidamente na areia castanha da praia. Nem um barco; e as poucas pessoas na praia expõem os corpos ao belo sol da manhã.
As gaivotas não me saem do pensamento. Estou habituado a vê-las, em manhãs assim, reunidas em aglomerados, como se fossem famílias. Se ali estivessem, afastar-se-iam à medida que me fosse aproximando, em voos curtos, com excepção das mais jovens, que, essas, ou iniciam grandes e rápidas marchas na areia molhada, junto da rebentação, ou então ensaiam voos rasantes sobre as cristas das ondas, deixando-me a ideia de que andam a treinar as asas ainda jovens. Acho estranho que não estejam na praia quase deserta, onde costumo vê-las felizes e contentes. Ponho-me a pensar neste mistério... E foi então que me lembrei da estrela do mar!..
Só ela me pode explicar o mistério! Só ela sabe da vida de todos os bichos que vivem na costa, quer na terra quer no mar. Já há uma certo tempo que não a visito!...
Como tem mau feitio, fingirá, a princípio, que não me vê chegar, que não tem qualquer interesse na minha visita, mas, no fundo, não é assim: são mais as coisas que nos unem do que aquelas que nos separam, ou, se não são mais, são deveras essenciais, embora esta conclusão nos tenha chegado, presumo eu, a cada um no espaço próprio da sua intimidade, muito tempo depois das tempestades, que trouxeram mágoas , lavadas no entanto pela sabedoria das marés. Foi no tempo das mágoas que ela se retirou para a poça dos rochedos , descrente do amor, poça onde vive e pode ser vista na vazante, juntamente com mexilhões, lapas, ouriços do mar,búzios e plantas marinhas de filamentos ondulantes, e pequenos peixes, que perderam o comboio da vazante e ficaram, por distracção, sem água, para irem com as carruagens do mar.

Depois de algum tempo de silêncio, ela ergueu os seus olhos castanhos para mim e disse-me:

- Já sei ao que vens: queres saber o que se passa com as gaivotas...
( talvez possa ter continuação... )
Eduardo Aleixo

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro
da Babilónia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
( Manuel Bandeira )

domingo, 23 de novembro de 2008

ECO

Hoje, perguntando onde estás, e o
que fazes, ouço as palavras tristes
da solidão que me responde, sem
nada me dizer, ao dizer-me tudo.
-
O que fazes e onde estás, pergunto
ao silêncio que me deixaste; e ouço
em mim a resposta, num eco que
vem de ti, perguntando por mim.
-
E neste espelho que entre mim e ti
a ausência constrói, outro espelho
reflecte o vazio da sua imagem, até
-
esse infinito em que a minha pergunta
te responde, para que me devolvas
o eco em que as nossas vozes se juntam.
( Nuno Júdice, in " O Breve Sentimento do Eterno " )

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Convidado da semana: Mário Cesariny

1. falta por aqui uma grande razão
uma razão que não seja só uma palavra
ou um coração
ou um meneio de cabeças após o regozijo
ou um risco na mão
ou um cão
ou um braço para a história
da imaginação
-
podemos pois está claro
transferir-nos
imaginar durante um quarto de hora
os séculos que virão
- os séculos um
e dois
da colonização -
depois
depois é este cair na madrugada ardente
na madrugada de constantemente
sem sol
e sem arpão
-
faltas tu faltas tu
falta que te completem
ou destruam
não da maneira rilkeana vigilante mortal solícita e obrigada
- não, de nenhuma maneira resultante!
nem mesmo o amor
não é o amor que falta
-
falta uma grande realmente razão
apenas entrevista durante as negociações
oclusa na operação do fuzilamento cantante
rodoviária na chama dos esforços hercúleos
morta no corpo a corpo do ismo contra ismo
-
falta uma flor
mas antes de arrancada
-
falta, ó Lautréamont, não só que todo o figo coma o seu burro
mas que todos os burros se comam a si mesmos
que todos os amores palavras propensões sistemas de palavras e
de propensões
se comam a si mesmos
muitas horas por dia até de manhã cedo
até que só reste o a o b e o c das coisas
para o espanto dos parvos
que aliás não estão a mais
-
isso eu o espero
e o faço
junto à imagem da
criança morta
depois que Pablo Picasso devorou o seu figo
sobre o cadáver dela
e longas filas de bandeiras esperam
devorar Picasso
que é perto da criança, ao lado da boca minha
2. no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rodar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno
-
e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames imdestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história do amor só até ao pescoço
-
e no país no país que engraçado no país
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora aí está -
não é outro senão a divina criança ( prometida )
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite ( on ne passe pas )
dia que grandeza de alma. Honestos porque.
Calafetagem por motivo de obras.
É relativamente queda de água
e já agora hã muito não é doutra maneira
no país onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato

3. poema podendo servir de posfácio

ruas onde o perigo é evidente

braços verdes de práticas ocultas

cadáveres à tona de água

girassóis

e um corpo

um corpo para cortar as lâmpadas do dia

um corpo para descer uma paisagem de aves

para ir de manhã cedo e votar muito tarde

rodeado de anões e de campos de lilases

um corpo para cobrir a tua ausência

como uma colcha

um talher

um perfume

-

isto ou o seu contrário, mas de certa meneira hiante

e com muita gente à volta a ver o que é

isto ou uma população de sessenta mil almas devorando almofadas

escarlates a caminho do mar

e que chegam, ao crepúsculo,

encostadas aos submarinos

-

isto ou um torso desalojado de um verso

e cuja morte é o orgulho de todos

ó pálida cidade construída

como uma febre entre dois patamares!

vamos distribuir ao domicílio

terra para encher candelabros

leitos de fumo para amantes erectos

tabuinhas com palavras interditas

- uma mulher para este que está quase a perder o gosto à vida -

tome lá -

dois netos para essa velha aí no fim da fila - não temos mais -

saquear o museu dar um diadema ao mundo e depois obrigar a

repor no mesmo sítiio

e para ti e para mim, assentes num espaço útil,

veneno para entornar nos olhos do gigante

isto ou um rosto solitário como barco em demanda de

vento calmo para a noite

se nós somos areia que se filtre

a um vento débil entre arbustos pintados

se um propósito deve atingir as suas margens como as correntes

da terra náufragos e tempestade

se o homem das pensões e das hospedarias levanta a sua fronte

da cratera molhada

se na rua o sol brilha como nunca

se por um minuto

vale a pena

esperar

isto ou a alegria igual à simples forma de um pulso

aceso entre a folhagem das mais altas lâmpadas

isto ou a alegria dita o avião de cartas

entrada pela janela saída pelo telhado

ah mas então a pirâmide diz coisas?

então a pirâmide é o segredo de cada um com o mundo?

sim meu amor a pirâmide existe

a pirâmide diz muitíssimas coisas

a pirâmide é a arte de bailar em silêncio

-

e em todo o caso

-

há praças onde esculpir um lírio

zonas subtis de propagação do azul

gestos sem dono barcos sob as flores

uma canção para ouvir-te chegar

( Cesariny, in " UMA GRANDE RAZÃO - Os poemas maiores " )

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

OUTONO

o.
Outono.
( A palavra é cansada...)
Tudo a cair de sono,
Como se a vida fosse assim, parada!
-
Nem o verde inquieto duma folha!
O próprio sol, sem força e sem altura,
Olha
Dum céu sem luz e levedura.
-
Fria,
A cor sem nome duma vinha morta
Vem carregada de melancolia
Bater-me à porta.
Canção da pura humildade
Fio de água,
Vou por tojos e urgueiras
A cantar esta mágoa,
Sabendo que há mais água e mais maneiras.
-
Vou sem nenhuma inveja.
Apenas peço ao ceu
Que, espelhando-se em mim, me veja,
Porque afinal sou eu.
( Miguel Torga, in DIÁRIO I )

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

YouTube - ANSIEDAD

É que dá-me...,mais do que vontade de escrever,
saudades desses tempos, e ficar, assim, sem nada fazer...
Eduardo Aleixo

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Crise leva famílias a retirarem idosos dos lares

" O Presidente da União de Misericórdias Portuguesas ( UMP ), Manuel Lemos, alertou ontem para o facto de já haver " famílias que estão a retirar idosos dos lares e levá-los para casa para tirar proveito da reforma que eles recebem".
Nos últimos quatro meses, segundo Manuel Lemos, o número de casos de idosos que foram retirados das instituições levou a que várias misericórdias comunicassem o facto à entidade que as coordena a nível nacional. " Numa época de crise, a reforma de um idoso é mais uma fonte de rendimento para as famílias".
Manuel de Lemos precisou que se trata " sobretudo de idosos que se encontravam em instituições localizadas na periferia urbana das cidades do litoral". Sem avançar com números ou as localidades onde têm acontecido mais abandonos, o responsável pela UMP avisa que " se a tendência se mantiver nos próximos meses, o Governo terá que tomar medidas".
Sem controlo
A preocupação das misericórdias, que continuam a ter listas de espera para a admissão de idosos, prende-se com o tipo de tratamento que eles estão a ter no seio da família.
" Se estavam institucionalizados, é porque familiares, médicos e assistentes sociais acharam que era a melhor solução. Em casa de familiares, não há qualquer controlo sobre a forma como estão a ser cuidados. "
A legislação em vigor prevê que as instituições de acolhimento de idosos possam reter até 85 por cento do valor da reforma da pessoa acolhida. A esta verba a segurança social acrescenta mais 388,51 euros por cada utente.
" Todas as informações que nos chegam referem que os idosos só regressam à famílias não porque houvesse mais condições ou mais disponibilidade para tratar deles, mas sobretudo pela questão financeira", afirmou Lemos. "
( Em o jornal, Público, dia 18/11/2008 )

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

ramalhete das rosas

A febre das palavras prontas para o edifício das pegadas quando o mar já foi vencido... A alegria das palavras lidas por crianças, esses animais respeitáveis com radares infinitos no corpo para o corpo infinito do mundo... A vitória das palavras, ceifadas, filtradas, construídas, modeladas, no altar da sublime solidão, regaço procurado, onde se compõe o ramalhete das rosas mais frescas das mais puras madrugadas. Eduardo Aleixo

domingo, 16 de novembro de 2008

Astronomia

Vou buscar uma das estrelas que caiu
do céu, esta noite. Ficou presa a um
ramo de árvore, mas só ela brilha,
único fruto luminoso do verão passado.
---
Ponho-a num frasco, para não se
oxidar; e vejo-a apagar-se, contra
o vidro, à medida que o dia se
aproxima, e o mundo desperta da noite.
---
Não se pode guardar uma estrela. O
seu lugar é no meio de constelações
e nuvens, onde o sonho a protege.
---
Por isso, tirei a estrela do frasco e
meti-a no poema, onde voltou a brilhar,
no meio de palavras, de versos, de imagens.
( Nuno Júdice, in " O Breve Sentimento do Eterno " )

sábado, 15 de novembro de 2008

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Convidado da semana: Jorge de Sena

1. Diáfana
No que existe e não existe,
no que é alegre e é triste,
em tudo aquilo que passa
há um perfume de graça...
---
E haverá na realidade
essa vaga idealidade?
Ou somos nós que a sentimos
e, por não vermos, a vimos?
---
Que importa que não exista,
que nos engane ou não a vista?
Ou que exista e seja assim?
---
Se lhe basta irradiar
para nos fazer sonhar
outro fim além do fim...
( 26/5/38, Caderno peto, pág. 4. Obras- Vol. 2.º, pág. 42 )
2. Imortalidade
O meu tempo começou quando nasci mas não há-de acabar quando eu morrer.
Eu não sei terminar nada,
gosto de não saber
e tudo fica assim, no ar, indefinido...
--
A minha morte talvez seja incompleta.
---
Morrer é ocupar no espaço
uma posição que não depende da vontade.
Mas quem a ocupa é o corpo.
---
O corpo deixa então
de existir no tempo.
---
Só o espaço ficará connosco?
Que direitos tem o espaço a mais do tempo?
Do nós que na verdade somos
não haverá um resto acorrentado ao tempo?
---
Se o espaço sem tempo não é vida,
talvez o tempo sem espaço o possa ser.
---
E eu fique assim
vivendo sem matéria...
---
E o meu tempo,
sendo então eu mesmo,
não há-de acabar quando eu morrer.
(25/9/38, Obras, Vol. 7.º, págs. 5-6 )
3. Casos
De ti
já me esqueci.
Não recordo com a mínima saudade
qualquer pormenor,
qualquer intimidade, do amor
que nos distraíu alguns momentos.
---
Já me esqueci
do espírito desse mesmo amor
e tudo o que existiu
ou nós imaginámos
não consegue interessar-me
como coisa própria.
---
Por isso,
se quiseres voltar,
compo parece,
é preciso que o passado não te importe,
é preciso que tudo seja novo e nós sejamos outros.
---
Assim ao menos
tempo depois
podemos afirmar de envolta com um um sorriso
que dum caso só fizemos dois...
( 30/10/38, Obras - Vol. 7º, págs. 59-60 )