sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Convidado da semana: Mário Cesariny

1. falta por aqui uma grande razão
uma razão que não seja só uma palavra
ou um coração
ou um meneio de cabeças após o regozijo
ou um risco na mão
ou um cão
ou um braço para a história
da imaginação
-
podemos pois está claro
transferir-nos
imaginar durante um quarto de hora
os séculos que virão
- os séculos um
e dois
da colonização -
depois
depois é este cair na madrugada ardente
na madrugada de constantemente
sem sol
e sem arpão
-
faltas tu faltas tu
falta que te completem
ou destruam
não da maneira rilkeana vigilante mortal solícita e obrigada
- não, de nenhuma maneira resultante!
nem mesmo o amor
não é o amor que falta
-
falta uma grande realmente razão
apenas entrevista durante as negociações
oclusa na operação do fuzilamento cantante
rodoviária na chama dos esforços hercúleos
morta no corpo a corpo do ismo contra ismo
-
falta uma flor
mas antes de arrancada
-
falta, ó Lautréamont, não só que todo o figo coma o seu burro
mas que todos os burros se comam a si mesmos
que todos os amores palavras propensões sistemas de palavras e
de propensões
se comam a si mesmos
muitas horas por dia até de manhã cedo
até que só reste o a o b e o c das coisas
para o espanto dos parvos
que aliás não estão a mais
-
isso eu o espero
e o faço
junto à imagem da
criança morta
depois que Pablo Picasso devorou o seu figo
sobre o cadáver dela
e longas filas de bandeiras esperam
devorar Picasso
que é perto da criança, ao lado da boca minha
2. no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rodar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno
-
e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames imdestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história do amor só até ao pescoço
-
e no país no país que engraçado no país
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora aí está -
não é outro senão a divina criança ( prometida )
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite ( on ne passe pas )
dia que grandeza de alma. Honestos porque.
Calafetagem por motivo de obras.
É relativamente queda de água
e já agora hã muito não é doutra maneira
no país onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato

3. poema podendo servir de posfácio

ruas onde o perigo é evidente

braços verdes de práticas ocultas

cadáveres à tona de água

girassóis

e um corpo

um corpo para cortar as lâmpadas do dia

um corpo para descer uma paisagem de aves

para ir de manhã cedo e votar muito tarde

rodeado de anões e de campos de lilases

um corpo para cobrir a tua ausência

como uma colcha

um talher

um perfume

-

isto ou o seu contrário, mas de certa meneira hiante

e com muita gente à volta a ver o que é

isto ou uma população de sessenta mil almas devorando almofadas

escarlates a caminho do mar

e que chegam, ao crepúsculo,

encostadas aos submarinos

-

isto ou um torso desalojado de um verso

e cuja morte é o orgulho de todos

ó pálida cidade construída

como uma febre entre dois patamares!

vamos distribuir ao domicílio

terra para encher candelabros

leitos de fumo para amantes erectos

tabuinhas com palavras interditas

- uma mulher para este que está quase a perder o gosto à vida -

tome lá -

dois netos para essa velha aí no fim da fila - não temos mais -

saquear o museu dar um diadema ao mundo e depois obrigar a

repor no mesmo sítiio

e para ti e para mim, assentes num espaço útil,

veneno para entornar nos olhos do gigante

isto ou um rosto solitário como barco em demanda de

vento calmo para a noite

se nós somos areia que se filtre

a um vento débil entre arbustos pintados

se um propósito deve atingir as suas margens como as correntes

da terra náufragos e tempestade

se o homem das pensões e das hospedarias levanta a sua fronte

da cratera molhada

se na rua o sol brilha como nunca

se por um minuto

vale a pena

esperar

isto ou a alegria igual à simples forma de um pulso

aceso entre a folhagem das mais altas lâmpadas

isto ou a alegria dita o avião de cartas

entrada pela janela saída pelo telhado

ah mas então a pirâmide diz coisas?

então a pirâmide é o segredo de cada um com o mundo?

sim meu amor a pirâmide existe

a pirâmide diz muitíssimas coisas

a pirâmide é a arte de bailar em silêncio

-

e em todo o caso

-

há praças onde esculpir um lírio

zonas subtis de propagação do azul

gestos sem dono barcos sob as flores

uma canção para ouvir-te chegar

( Cesariny, in " UMA GRANDE RAZÃO - Os poemas maiores " )

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