quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O mistério do silêncio das gaivotas contado pela estrela do mar

Não é normal que não se vejam as gaivotas. Também não é normal , com uma vazante assim, que não se vejam homens, de calças arregaçadas, a apanharem mexilhões, ou polvos, ou lapas, no meio dos rochedos. Também é estranho que com um mar tão chão nem um pescador desportivo se veja. Está um lindo dia de sol de Novembro. Como sempre faço, aos fins de semana, passeio-me junto do mar, e perscruto as diversas tonalidades do azul e do verde ao longo de uma estrada que tem como alvo as Berlengas .
Hoje, as ondas deslizam suavemente e estendem os braços de espuma, que se espreguiçam languidamente na areia castanha da praia. Nem um barco; e as poucas pessoas na praia expõem os corpos ao belo sol da manhã.
As gaivotas não me saem do pensamento. Estou habituado a vê-las, em manhãs assim, reunidas em aglomerados, como se fossem famílias. Se ali estivessem, afastar-se-iam à medida que me fosse aproximando, em voos curtos, com excepção das mais jovens, que, essas, ou iniciam grandes e rápidas marchas na areia molhada, junto da rebentação, ou então ensaiam voos rasantes sobre as cristas das ondas, deixando-me a ideia de que andam a treinar as asas ainda jovens. Acho estranho que não estejam na praia quase deserta, onde costumo vê-las felizes e contentes. Ponho-me a pensar neste mistério... E foi então que me lembrei da estrela do mar!..
Só ela me pode explicar o mistério! Só ela sabe da vida de todos os bichos que vivem na costa, quer na terra quer no mar. Já há uma certo tempo que não a visito!...
Como tem mau feitio, fingirá, a princípio, que não me vê chegar, que não tem qualquer interesse na minha visita, mas, no fundo, não é assim: são mais as coisas que nos unem do que aquelas que nos separam, ou, se não são mais, são deveras essenciais, embora esta conclusão nos tenha chegado, presumo eu, a cada um no espaço próprio da sua intimidade, muito tempo depois das tempestades, que trouxeram mágoas , lavadas no entanto pela sabedoria das marés. Foi no tempo das mágoas que ela se retirou para a poça dos rochedos , descrente do amor, poça onde vive e pode ser vista na vazante, juntamente com mexilhões, lapas, ouriços do mar,búzios e plantas marinhas de filamentos ondulantes, e pequenos peixes, que perderam o comboio da vazante e ficaram, por distracção, sem água, para irem com as carruagens do mar.

Depois de algum tempo de silêncio, ela ergueu os seus olhos castanhos para mim e disse-me:

- Já sei ao que vens: queres saber o que se passa com as gaivotas...
( talvez possa ter continuação... )
Eduardo Aleixo
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