sábado, 8 de novembro de 2008

Obama: somos todos americanos

"Aqueles que ganharam a vida através da diabolização de Bush já têm um novo ganha-pão. a beatificação de Obama. Passei os últimos anos a dizer que " Bush não é assim tão mau" . Calculo que vou passar os próximos anos a dizer que " Obama não é assim tão bom". Mas esta não é a hora para uma análise política. Esta é a hora de celebrar a minha América. Dado que sou demasiado céptico para acreditar em seitas abraâmicas, a América é o meu culto pagão. E os meus deuses são Hamilton e Lincoln.
Alexander Hamilton é o meu pai-fundador preferido. Este homem era um bastardo que tinha como mãe uma escultural taberneira francesa. Mas, mesmo assim, Hamilton foi uma figura central nos primeiros anos da República americana. Além disso, Hamilton sempre contestou a escravatura. Um século mais tarde, Abraham Lincoln reactualizou o legado de Hamilton. Lincoln, tal como Hamilton ( e Obama ), tinha origens humildes. Lincoln, tal como Obama, subiu na vida através do talento revelado no Direito e nos discursos políticos. E Lincoln formou o Partido republicano para combater a escravatura defendida pelo Partido democrático. Aliás, no seu discurso de vitória, Obama não se esqueceu da dívida histórica que os negros têm para com os republicanos. Enfim, estejam onde estiverem, Hamilton e Lincoln estão felizes com a vitória de Obama. É que Obama representa essa inquebrantável força moral da América. Uma força moral que se situa a montante de qualquer consideração política. Uma força que advém da bomba atómica da Ética: um filho de uma taberneira pode ser alguém na América. Na Europa, Obama, Hamilton e Lincoln seriam taxistas ou taberneiros. É por isso que amo a América.
A força da América não está no porta-aviões bizantino que eu adorava nos tempos em que queria ser o Tom Cruise. A força da América não está na sua economia liberal que permitiu aos meus pais terem uma casa que é só deles e que me permitiu viver nos 30 anos mais prósperos da História. A força da América não está nos filmes que me ensinaram a falar inglês e que me lançaram para um caminho que não deveria ser o meu; filmes que me transformaram num " acaso sociológico ", como diria o grande Fernando Lopes. A força da América vem de outro sítio. A força da América é aquele enorme coração que consegue cravar lágrimas deste lado do Atlântico às quatro da manhã. A força da América é aquela esperança que dá vontade de pegar no barco de borracha e remar até Nova Iorque. O encanto da América está em ver aquele menino magrinho, sem sangue azul e com pai queniano, a transformar-se no presidente dos EUA. Como não sentir a justiça redentora deste momento? O meu cepticismo impede-me de ser um optimista lírico, mas lambem me impede de ser um pessimista apocalíptico. Reconheço a existência de lúciferes e demais arcanjos mal-dispostos, mas também acredito nos " better angels of our nature ". Na terça-feira, os anjos de Lincoln apareceram nos ombros de Obama.
Certa vez, Thomas Jefferson afirmou que cada homem tem duas pátrias:
a sua e a França. Jefferson, como sempre, estava errado. Cada homem tem duas pátrias: a sua e a América. Fui americano nos últimos oito anos. Continuarei a sê-lo nos próximos anos. "
( Artigo de Henrique Raposo, in Expresso, de 8 de Novembro de 2008 )
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