sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Convidado da semana: Jorge de Sena

1. Diáfana
No que existe e não existe,
no que é alegre e é triste,
em tudo aquilo que passa
há um perfume de graça...
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E haverá na realidade
essa vaga idealidade?
Ou somos nós que a sentimos
e, por não vermos, a vimos?
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Que importa que não exista,
que nos engane ou não a vista?
Ou que exista e seja assim?
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Se lhe basta irradiar
para nos fazer sonhar
outro fim além do fim...
( 26/5/38, Caderno peto, pág. 4. Obras- Vol. 2.º, pág. 42 )
2. Imortalidade
O meu tempo começou quando nasci mas não há-de acabar quando eu morrer.
Eu não sei terminar nada,
gosto de não saber
e tudo fica assim, no ar, indefinido...
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A minha morte talvez seja incompleta.
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Morrer é ocupar no espaço
uma posição que não depende da vontade.
Mas quem a ocupa é o corpo.
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O corpo deixa então
de existir no tempo.
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Só o espaço ficará connosco?
Que direitos tem o espaço a mais do tempo?
Do nós que na verdade somos
não haverá um resto acorrentado ao tempo?
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Se o espaço sem tempo não é vida,
talvez o tempo sem espaço o possa ser.
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E eu fique assim
vivendo sem matéria...
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E o meu tempo,
sendo então eu mesmo,
não há-de acabar quando eu morrer.
(25/9/38, Obras, Vol. 7.º, págs. 5-6 )
3. Casos
De ti
já me esqueci.
Não recordo com a mínima saudade
qualquer pormenor,
qualquer intimidade, do amor
que nos distraíu alguns momentos.
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Já me esqueci
do espírito desse mesmo amor
e tudo o que existiu
ou nós imaginámos
não consegue interessar-me
como coisa própria.
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Por isso,
se quiseres voltar,
compo parece,
é preciso que o passado não te importe,
é preciso que tudo seja novo e nós sejamos outros.
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Assim ao menos
tempo depois
podemos afirmar de envolta com um um sorriso
que dum caso só fizemos dois...
( 30/10/38, Obras - Vol. 7º, págs. 59-60 )
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