quarta-feira, 25 de março de 2009

Crónica Semanal (desta vez mais Poética)

E agora? O que resta quando a rajada passa? O que fica quando o nosso real deixa de existir? Que semente irá brotar, Que passo se irá dar, Que palavras dizer – quando os seus significados deixaram de fazer sentido? A estrada é a mesma, junto ao mar, junto à areia que se mistura com as rochas e conchas. Tudo é o mesmo mas deixou de o ser. Lágrimas inexistentes, sentidas mas invisíveis. Percorrem soltas esse caminho desconhecido. Ontem tão familiar. Hoje estranho, amigo antigo desaparecido. O que resta então? O que fica por fazer senão prosseguir com outro olhar – o mesmo mar repousante, a areia da praia e as suas rochas e conchas como se fosse a primeira vez que as estivéssemos a ver. Renovadas. Surpreendentes. beijos a todos de São Tomé Rita

Coisas de que falo!

Falo das casas de rosto contente virado para o mar,
da procura apaixonada das conchas raras abandonadas na vazante,
do mistério nunca desvendado da canção dos búzios,
da postura majestática dos cactos com flores vermelhas sobre as dunas,
falo da robusta madureza do teu corpo
aberto como um suspiro
liberto no cansaço do tempo certo!...
É das fontes que falo,
insubstituíveis, teimosas fontes,
escondidas,esquecidas, não lembradas,
mas avidamente luminosas,
sequiosas nos olhos que procuram, se procuram,
no enleio confusamente inevitável
de quem caíu de borco das estrelas,nos labirintos e becos da cidade,
onde as crianças sabem
não haver fronteiras claras entre a vida e a morte,
entre o riso e a tristeza,
e acariciam silenciosamente, com mãos de jade, as lágrimas
que parecem tombar do céu,
mas que brotam violentamente da terra!...
Eduardo Aleixo

É triste estar triste...

É triste estar triste!
Estar triste é como estar doente ainda que sem culpa.
Gosto da alegria.
Do sorriso pleno.
Assim foram os meus sonhos.
Assim são os meus sonhos.
Barco de proa firme
desafiando as ondas com um sentido determinado
sem medo de fantasmas e de papões na noite escura.
Assim quero a vida,
que assim não é!
Mas a vida...
não sou eu que quero?!...
Eduardo Aleixo

segunda-feira, 23 de março de 2009

Anoitecer

Não sei o nome dos pássaros
que cantam nos canaviais
antes de se porem a dormir.
Não é dia, não é noite.
O ar é calmo e as cores são difusas.
Pode haver brisa ou vento.
Se houver vento ouvir-se-à a canção do mar.
Se não houver nuvens fico a olhar as estrelas do céu.
Em qualquer caso ouvir-se-á o silêncio.
É noite sobre o mundo. As rãs coaxam. Os cães ladram.
Os pássaros dormem.
É bom ter nascido.
Eduardo Aleixo

domingo, 22 de março de 2009

Amo as árvores

Amo as árvores. Principalmente as que ajudei a crescer. É um sentimento análogo ao que acalentamos pelos filhos e por tudo o que criamos. É assim também com aquilo que construimos na vida, com muito esforço.
Amo as árvores. Somos amigos durante todo o ano. Mas o nosso encontro na primavera é um encontro especial. O inverno foi duro. Há que ver como elas resistiram. Quando chegou o inverno escrevi um poema em que mostrava as árvores de braços despidos erguidos para o céu. E dizia que as árvores pareciam mortas, mas que não estavam. Dormiam. Sonhavam. Esperavam por Março. Pela chegada dos noivos. Que trariam as flores do noivado. Para elas se engalanarem de beleza, oferecendo-lhes os seus corpos com alegria e amor.

Março chegou. E os noivos também. Para algumas árvores. As já floridas. As outras, ainda não têm o vestido pronto. Mas está quase. Os pássaros fazem corridas chilreando e esperam que as folhas cresçam um pouco mais para aí esconderem os seus ninhos. Os dias são maiores. A primavera ainda é uma menina. Mas não tarda que as flores abram por todo o lado, os frutos cresçam e dos ninhos saltem os pássaros novos a treinarem os primeiros voos, rasantes, até que, de músculos rijos, ultrapassem os muros altos, e livres se ponham a dançar no céu azul.
Amo as árvores. Durante todo o ano. Mas principalmente na primavera.
Eduardo Aleixo

sábado, 21 de março de 2009

Anunciação da Primavera

Não sei de onde vem esta bruma,

se dos meus olhos, se

do rio. Um sol frouxo, próprio

das manhãs de domingo, escurecia

o vermelho, o amarelo das casas.

Dentro de mim, a musical

floração das cerejeiras havia começado.

Noutro lugar, noutro dia.

De repente, um pássaro inesperado

começou a cantar num ramo

que não havia, sobe a prumo no céu

onde a manhã total principia.

( Livro: " Os lugares do lume " - Eugénio de Andrade )

sexta-feira, 20 de março de 2009

A teoria da roda

- poema de Vieira Calado ( a quem envio um abraço )
" - Ó meu coração sê diferente da roda.
Mas só como o centro da roda que permanece em repouso.
Se a roda roda tão activamente
é porque o seu centro é imóvel...."
CANTO DE OLEIROS HINDUS
Afinal fui sempre uma roda. Sempre
a propensão para vaguear os contornos fluidos
da precisão equacionada a partir dum centro estático.
Embora desde muito verde tivesse coabitado
com a áurea do mistério
das mais insignificantes humílimas, criaturas,
embarcadas no comboio do sol, é certo.
E tivesse ido com elas até ao limite mais meridional
do esquecimento ou do medo. Percorrido
as imediações do real as arestas afiladas do vento
a soprar os olhos trans-
-lúcidos dum sombrio silêncio,
hábil malabarista de palavras e fumo.
-----
Mas nunca conheci nada de jogos de fortuna e azar
apostei sempre a partir do calafrio alargado
à matéria dos ossos
inscrito nos ácidos ribonucleicos que conduzem
invariavelmente o fim ao princípio
circular da roda.
( Do livro, " Itinerário ", de Vieira Calado )

quinta-feira, 19 de março de 2009

MENINO

- poema de Maria Paula Raposo ( a quem envio abraço amigo )
Vejo-te chegar
no passo melancólico
de um poema,
das mãos os desenhos
que fazes
na solidão
do teu atelier
e do olhar
as cores
com que pintas
as imagens
e o sonho fantástico
que te preenche
os dias longe de mim.
---
Vejo-te chegar
e ainda é doce
o teu sorriso de menino.
Outubro de 2008
( Livro: " Golpe de Asa ", Maria Paula Raposo )

quarta-feira, 18 de março de 2009

Há um momento em que a juventude se perde

- Poema de Eduardo Graça ( a quem envio um abraço de amizade )
um momento em que a juventude se perde. É o momento
em que os seres se perdem. E é preciso saber aceitar. Mas
esse momento é duro.
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Para ti um dia nascerá a luz e sem mim irás correr
atrás da tua memória e nunca me encontrarás nela
com os traços iguais aos do dia de hoje tão nítidos
presentes.
---
Ausente deixarei de te olhar. O teu corpo ficará
sempre igual ao meu corpo que se transformará
num eco longínquo ressoando em ti comigo lá
dentro.
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Gostava de te ver sempre mas não posso. Um dia
todos os corpos se retiram e as viagens parecem
mais pequenas na cidade percorrida em círculos
concêntricos
---
Sei que nos encontrarmos agora é natural para ti,
Que me olhas e me interrogas silenciando o teu
medo de enfrentar o desconhecido numa espera
ausente
---
Para ti um dia nascerá a dúvida se afinal amaste
o suficiente. Se iluminaste a vida com a tua luz
própria ou se a roubaste aos outros sem sombra
de perdão
---
É esse o momento em que a juventude se perde
e com ela se esvai a inocência. É preciso saber
aceitar. Esse momento é duro e estarás só, sem
ninguém
( Livro: " Há um momento em que a juventude se perde..." - de Eduardo Graça - livro dedicado ao seu filho )

segunda-feira, 16 de março de 2009

Crónica Semanal III (de São Tomé)

Na última noite, sob um calor infernal, estive sem energia em casa, o que é perfeitamente natural, mas estava sem gerador, pois tinha ido para uma actividade de trabalho e veio com problemas…Resultado, à luz das velas e com o que me restava da bateria do portátil, inspirei-me para escrever a crónica semanal… Reflicto sobre os vários privilégios que tive ao longo da vida. Entre os mais essenciais estão a educação e a possibilidade de ter uma “família”, da forma como a vemos nós ocidentais. Penso nos miúdos e jovens que tenho conhecido aqui e nas suas tão grandes limitações. Uma rapariga estudiosa e responsável que teve bolsa de estudo para ir para a faculdade em Portugal, mas que não obteve visto, e por isso, aqui ficou. Um rapaz que sonhava estudar arquitectura, mas que não conseguiu, por varias vezes, obter visto. Agora já tem mais de 21 anos e não pode ter bolsa nem visto de estudante…e tantos outros. Em São Tomé não existe um verdadeiro ensino superior, a massa critica vem de fora. Estes jovens falam com revolta, outros simplesmente resignaram-se e vivem doutras coisas. Mas que impacto têm estas decisões nas suas vidas? Penso em mim e em todas as possibilidades que me foram oferecidas. Se quisesse, estudava noutra faculdade, noutra cidade, noutro país. Questão essencial: podia optar e decidir o meu futuro. Estas pessoas, na sua grande maioria, não podem. Pus-me no seu lugar, e senti-me numa autêntica prisão. E fiquei ao mesmo tempo revoltada e triste por eles, e grata por ter tudo o que eles não tiveram. Escolas e ensino de qualidade (comparadas com as de cá, sem dúvida!), estímulo para aprender e conhecer coisas novas, pais que escutam e incentivam a seguir adiante, com todos os custos que também tiveram, fronteiras abertas para seguir o meu caminho desde que me esforçasse para isso. Sim, sinto-me grata e privilegiada.
E vejo-os a eles presos num ciclo vicioso.
Devemos todos dar valor ao que temos pois NADA é certo, há quem nunca tenha provado um sugo, folheado um livro, recebido uma prenda, tido uma roupa novinha em folha e deixado sobras num jantar por haver tanta fartura...
Boa semana a todos!
Rita

A voz do mar

O meu ser é embalado pela música do mar
Antes de mim e depois de mim
A voz do mar
é sem fim...
Eduardo Aleixo

sábado, 14 de março de 2009

É por isso que dura para sempre

Poema
Sob o céu, todos vêem o que é belo
apenas porque existe o feio.
Todos podem conhecer o bom como bom
apenas porque existe o mal.
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Ser e não ser produzem-se mutuamente.
O difícil nasce do fácil.
O comprido é definido pelo curto,
e o alto pelo baixo.
Antes e depois caminham lado a lado.
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Assim, o sábio vive abertamente
em aparente dualidade
e paradoxal unidade.
O sábio pode agir sem esforço
e ensinar sem palavras.
Alimentando as coisas sem as possuir,
ele trabalha, mas não pela recompensa;
ele compete, mas não pelo resultado.
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Quando a obra está feita, é esquecida.
É por isso que dura para sempre.
( In Tao Te Ching - Lao- Tzu )

quinta-feira, 12 de março de 2009

Confissões duma gaivota

« O meu avô pescador ensinou-me a amar-me a mim mesma de forma incondicional. Ele disse-me uma grande verdade: que eu era ÚNICA, e tinha razão. Mas sabem uma coisa?, vou dar-vos uma óptima notícia: vocês também são únicas. Podem não ter tido um mestre e mentor como eu encontrei nele. Podem ter sido expulsas do ninho mal acabaram de nascer. Podem ter quebrado as asas quando começaram a voar...pode ser. Mas a bênção que ele e as suas palavras significaram para mim foi uma dádiva que o Céu sempre teve também para vós, que pôs à vossa disposição...Só que vocês nunca tiveram um avô pescador que vos dissesse que eram uma luz única, de Amor e de Asas.
O meu avô ensinou-me o riso e a espuma das ondas. Ensinou-me a voar ao entardecer de um dia de Verão. A ele devo a marca de uma infância passada com um avô magnífico, que acompanhou os meus voos de gaivota mediterrânica. As asas molhadas pelo mar, o bico repleto de sal e a alma abundante de formosura. Os meus pilares foram tão fortemente implantados que não existe terramoto existencial capaz de os derrubar. O Universo presenteou-me com a mais bela fortuna do mundo: o amor e a alegria. Pode ser que eu me tenha esforçado por isso noutras praias, noutras vidas, é bem provável. Ou talvez não. Pode ser que eu me tenha oferecido a mim mesma a oportunidade de aprender a desfrutar de um manjar tão delicioso como este, e garanto-vos que aprendi a saboreá-lo. Adoro os seres que rodearam a minha aterragem no voo 1959, creio firmemente que fui eu quem os escolheu antes de vir. E assim foi, fui genial nisso.
Um avô, pescador de sabedoria, que embelezou as tardes de estio brincando com o vento, permitindo que as minhas asas se abrissem sozinhas. A minha infância foi a base sólida onde assentaram as minhas estruturas e colunas à prova de tornados, tormentas e maremotos. A minha infância foi um belo presente de anjos que me deram o bilhete para este voo mediterrânico. Recordo-o feliz, repleta das suas sábias mensagens. Custou-me distinguir quem ele era. Quando deixou o mar, inteirei-me de quem era na realidade: um iniciado na eternidade, disfarçado de pescador. Foi um privilégio tê-lo tido como avô neste voo. Ele mostrou-me a luz, ensinou-me a mantê-la acesa, e aqui está ela, presa às minhas asas, resplandecendo sobre o mar, serpenteando na areia.
Do lugar onde presentemente vive e evolui, continua a vigiar o meu voo sobre o mar , ainda ri das minhas travessuras, continua a amar-me e a animar-me a voar em direcção â noite cheia de estrelas...Continua a impelir-me a voar na direcção da Via Láctea, rumo à comunicação eterna. »
( Do livro, " Asas de Luz ", de Rosetta Forner - À descoberta da magia interior )

quarta-feira, 11 de março de 2009

Por um Tibete Livre

Fez ontem 50 anos que as tropas chinesas ocuparam o Tibete.

A cultura tibetana tem sido ao longo deste período desprezada pela China.

O povo tibetano é discriminado em todos os aspectos da vida.

O meu abraço fraterno a este povo que muito amo.

O meu desejo: que a sua cultura se mantenha e seja respeitada e que esta questão passe a ser vista pelos países democráticos como um imperativo de justiça e de ética..

Eduardo Aleixo

segunda-feira, 9 de março de 2009

Crónica Semanal II ( da ilha de S. Tomé )

Olá... Cá estamos outra vez reunidos para uma sessão de partilha cultural... Este domingo caiu manhã bem cedinho uma grande carga de água tropical, como nunca tinha assistido na minha vida (tirando os tufões em Macau!). Foi uma chuva torrencial acompanhada de trovões e relâmpagos que estavam exactamente em cima da ilha e que faziam um barulho aterrador - a terra parecia tremer. E eu até gosto da trovoada...Não dormi mais e nessas alturas em que a natureza é assustadoramente real e presente, uma pessoa não consegue evitar pensar na vida e afins. Pois assim me pus eu a pensar, pois esta última semana foi particularmente dura. Isto de trabalhar nestes contextos não é fácil, sobretudo quando nos pomos a reflectir realmente sobre o que andamos aqui a fazer e no impacto real das nossas acções. Mas não vou maçar-vos com isso agora. Como foi também no domingo o Dia da Mulher e nós aqui (quando digo nós é a organização onde trabalho - a bem dizer, Médicos do Mundo) temos um programa de rádio semanal aos sábados, pelo que decidi incentivar a minha equipa de activistas a falar sobre o tema das desigualdades existentes entre o homem e a mulher no país. Infelizmente, o nível de espírito crítico, capacidade de escrever e empreender no geral é muito baixo. Se não somos "nós" a puxar a corda...mas bom, quanto ao dia da mulher em si, neste lado do mundo, ainda é mais fundamental trabalhar as questões de género - vemo-las por aí nos rios a lavar roupa, a caminhar com lenha na cabeça, com um filho no colo e outro dentro da barriga, dependente do homem e sem poder de decisão sobre a sua vida. Quando falamos, nas nossas saídas junto da comunidade, sobre coisas tão "simples" como a pílula, o período fértil e mostramos imagens do que é o seu aparelho reprodutor, muitos olhos brilham de interesse - para algumas é a primeira vez que estão a ouvir falar nisso...Enquanto as pessoas não tiverem as informações e conhecimentos suficientes para "agarrar" de facto na sua vida, não podemos pensar em desenvolvimento. Enfim. Conheço alguém que vai ficar com um sorriso nos lábios ao me ver escrever sobre o tema do Género. :) Bjs a todos e obrigada pelos simpaticos comentários Rita