domingo, 21 de dezembro de 2008

O cheiro da Terra e o brilho das Estrelas

A minha paixão pelas estrelas vem da meninice, das noites calmas de verão no Alentejo, sentado nos poiais da porta de casa dos meus avós, ouvindo o meu avô falar, o meu avô que tinha sido contrabandista na juventude - e que, curiosamente, casou com a minha avó, que era filha de um guarda-fiscal ! - , noites brancas, feitas de silêncio, de vultos oscilantes ao sabor das covas das ruas poeirentas, do uivar lancinante dos cães vadios, do piar azarento das aves nocturnas, noites nos povoados sem luz eléctrica, era a lua e as estrelas que iluminavam os caminhos, por isso conheço as estrelas, as constelações, os planetas, o sortilégio das noites em que ficava à espera de ver não só os pirilampos, mas também as estrelas cadentes riscando profusamente a imensidade do azul profundo do céu, enquanto o meu avô falava sobre a vida terrivelmente incerta da passagem da fronteira, da "raia" de Espanha, como se dizia, e como se deve dizer, com as " cargas " às costas, fugindo dos tiros dos " carabineros ", defrontando os frios, as chuvas e as incertezas das noites:

- Uma sorte danada , aquela noite, dizia ele com ar saudosamente enigmático...

Foi há muitos anos!...

Mas nunca mais esqueci as estrelas , como nunca esqueci a fome do meu povo sofrido , ambas as coisas me ficaram gravadas, fazem parte de mim, intimamente ligadas, em equilíbrio, céu e terra, voo e prisão, leveza e densidade, duas faces de uma moeda de Amor, complexa, sublime, misteriosa, tudo isso foi o princípio do que aprendi, e depois a vida me foi ensinando, ouvindo as histórias do meu avô sobre as tragédias do mundo, enquanto olhava embevecido para a beleza esplendorosa do universo... Eduardo Aleixo

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