sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O mistério do nevoeiro na serra de Sintra

De caminho para o Algueirão, aonde me desloco, duas vezes por semana, a uma escola de correcção, para levar o meu cão, o Gwyn, que tem um problema de desvio comportamental, olho para a serra de Sintra e acho que já não é a mesma, aquela serra que bem conheço, instável e transmutável nas suas névoas e nos seus firmamentos azulados, o que me fazia logo saber como estavam as praias para os lados da Adraga ou para os lados de Carcavelos, mas , nos últimos tempos, as coisas complicaram-se : enquanto as gaivotas abandonaram as praias e estão em meditação, ponderando a hipótese de luta, à maneira delas, o nevoeiro sobre a serra de Sintra é permanente, cada vez se adensa mais, o ar já é irrespirável, ultrapassando o problema, ao que nos dizem, o nível autárquico e nacional, sugerindo-se que as responsabilidades do mesmo deverão ser imputadas à crise da Névoa Internacional, é o que ouço, na rádio do Oeste , com os olhos colados nas nuvens brancas que encobrem a serra, se querem mesmo saber dou a palavra ao meu Gwyn, que é inteligente, sensível e politizado, e a quem delego a responsabilidade de mostrar com fidelidade a coerência do discurso oficial, que a rádio debita, para que a minha imagem fique poupada, como se costuma fazer, ainda ontem o nosso primeiro o fez, em relação aos professores, não falou sobre o assunto, delegou no secretário de estado, salvo erro, o mesmo faço eu, pois que fale o meu cão, com o devido respeito pelo secretário de estado, não é essa a minha intenção, o meu cão, dizia eu, que tem desvio comportamental, mas que é meigo, lindo, inteligente, e a quem não fazem com facilidade o ninho atrás da orelha, neste aspecto é mais lúcido e político do que os funcionários públicos, em geral, a cuja classe, aliás, me honro de pertencer, funcionários que têm sido o bombo da festa, coisa que nunca foi devidamente evidenciada, mas bem-feito, não fizeram como os professores, quando houve greves tiveram medo de perder o salário e de de serem prejudicados na avaliação, não a fizeram, a greve, como intimamente desejavam, no entanto levaram estes últimos anos uma vida de inferno por causa da avaliação, vendo serem promovidos os amigos dos chefes, que deram aos amigos ou a quem já exercia funções de coordenação, por exemplo, os prémios das quotas pré-estabelecidas, e agora ( e agora, José? ) não há mais quotas para os outros, muitos deles bem mais inteligentes e mais competentes, mas ouçam o cão, o assunto é o nevoeiro, a questão é: o nevoeiro sobe ou baixa sobre o país, isto é, sobre a serra de Sintra, deixando-a definitivamente queimada, arrasada, derrotada no campo de batalha, como o rei D. Sebastião, ou em banho-maria, como os processos da pedofilia, da corrupção, das casas da Câmara e dos outros em que entra, sempre, gente influente, mas ouçam o Gwyn a falar, é como se fosse eu, deleguei-lhe competências, e o Gwyn diz, começa com uma voz calma, de ladrar suave e cavo, nobre, um tom preparado para ficar bem nas câmeras à hora do tele-jornal, mas quem fala na rádio é o nosso primeiro, o cão limita-se a ouvir e a reproduzir, embora à sua maneira, e eu gosto muito de ouvir o meu cão, estou farto dos políticos, fala cão, isto é, reproduz, à tua maneira, que o nevoeiro vai subir, as famílias vão, em 2009, ver os nevoeiros treparem a serra e deixarem vislumbrar o sol, os funcionários públicos, com o aumento salarial que vão ter ( o Gwyn traduziu mal e disse, isto é: ladrou: o trepanço que os funcionários vão ter...) , após sete anos em que perderam já cerca de dez por cento, e foram tratados, com o devido respeito pelo Gwyn, como cães, com esse aumento o sol volta a cair sobre o palácio da serra, , o sol cai, é uma bênção do governo, assim como cai a energia, a gasolina, o gasóleo, tudo isto, não fruto da crise internacional, mas consequência da política do governo, pelo menos é isso que se pretende que seja entendido ( aqui a interpretação é a do dono do cão ) , caem também as taxas de juro para alívio das árvores que ficarão livres da alta taxa de pressão dos incêndios e dos fogos, permitindo às famílias, que abandonaram as casas, devolvidas à Banca, carente de bens, o regresso aos lares, e com esse regresso, o regresso da alegria, cai também a inflação, até que aconteceu que ...o meu cão se calou e mudou de tom.É que, na rádio,outra voz, outro timbre, nada combinados com os escutados anteriormente, o que é estranho e talvez denote algum desnorte na área do poder, tom que era o do ministro das finanças, mais sabedor, vem dizer coisas bem diferentes, ficando as famílias a saberem a verdade sobre as dificuldades que aí vêm, que são de ordem internacional, as famílias ficaram a saber a verdade e ficaram confusas sobre o nevoeiro, que afinal não sobe, mas vai descer, é grande a instabilidade, e começa a fazer-se na serra o mesmo silêncio que há nas praias, com as gaivotas escondidas a pensarem atrás das dunas...
Eduardo Aleixo
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