domingo, 28 de dezembro de 2008

POEMAS

1.
Humildade ( 1954 )
Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.
-
Amigos entre deuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis.
-
E os pássaros detrás de grades de chuva,
e os mortos em redoma de cânfora.
-
( E uma canção tão bela! )
-
Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos
nem para quê.
2.
Exercício ( 1955 )
Ciência, amor, sabedoria,
tudo jaz muito longe, sempre
- imensamente fora do nosso alcance.
-
Desmancha-se o átomo,
domina-se a lágrima,
já se podem vencer abismos
- cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.
-
Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram
no espelho do silêncio reflectidos,
neste longo exercício de alma.
( Cecília Meireles, in " Antologia Poética " )
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