sexta-feira, 17 de abril de 2009

Convidado do mês de Abril: Alves Redol

Livro: Uma Fenda na Muralha
«Precisamos de navegar, ainda bem que o Tó vai a tomar conta do motor, não posso deixar que as vagas se desfaçam em riba da popa, isso seria o fim, e também não é bom fugir depressa à frente das ondas avagalhoadas que correm sempre aos galões, umas escondem as outras, e cada uma traz a sua manha, e nunca se sabe a que vem com a morte dentro; num mar assim a morte vem sempre dentro de cada onda;

é uma luta danada, de vida ou de morte, DEUS NOS ACUDA!, um homem parece ter olhos à volta da cabeça e nas mãos e em todo o corpo, mas a morte tem mais olhos ainda, vê tudo, CORTA-LHE A FORÇA AGORA, TÓ!, CORTA-LHE A FORÇA!, e está à espreita que eu abrande ou me distraia, um só instante, para atirar o golpe fatal, já a conheço, já não é a primeira vez que a morte me espera nas veredas do Mar, que o digam estas rugas e estes cabelos brancos;

começo a estar velho, velho, triste coisa é ficar velho, embora os nervos sejam de aço, rijos como aço, mas até o aço estende, estende, e um dia quebra, talvez quebre duma vez por ser tão rijo;
as mãos parecem firmes no leme, bem as sinto agarradas com toda a alma, e começo a recear que assim seja, as coisas com a força toda não acabam bem, no Mar, pelo menos, não pode ser, porque só eu sei o que é preciso vencer e pisar dentro de mim para não desatar aqui aos gritos e levantar os braços para terra, a pedir paz ao Mar, e a dizer ao Mar: «Pronto! Acabou-se! Leva-me, foste tu que ganhaste, andaste atrás de mim a vida inteira e agora aqui me tens como queres, acanalhado e sem força, uma coisa qualquer para aqui. Mas acaba depressa com isto, pelo amor de Deus te peço, acaba depressa com a gente, senão atiro-me sozinho à água e deixo-me morrer...É melhor, ó Mar, sim, é melhor morrer agora que esperar que tu te canses de brincar com a gente.»
- Agora não, Joaquim! Agora, não ...É melhor voltar outra vez!
Vencer, pisar e esquecer o medo de raiz que um homem traz da barriga da mãe, e ainda conseguir juntar tamanho gosto pela vida, pelas coisas boas e ruins que a vida dá, de maneira que um homem parece mais seguro aqui, mais firme aqui do que quando está deitado na areia ou a falar com os camaradas em raparigas e em peixes; a vida é uma coisa tão arrenegada e tão prometida, que o Mar nem sempre pode com um homem, quando no mundo não há nada mais forte do que o Mar,
nada mais forte a não ser um homem,
um homem que parece menos do que um alcatraz; um alcatraz tem asas e abala, e um homem fica ali amarrado com o Mar nos olhos, na boca, no coração, no sangue, e mesmo assim, desgraçado de todo, um homem volta só com o seu gosto de viver, e com o que aprendeu com os mais velhos, e com o próprio Mar, que é a mulher mais safada, mais reles...
e mais honrada, carago!
e mais honrada que um homem do mar pode conhecer.
- Mais devagarzinho, Tó! Mais devagarzinho!
Vai por aí fora, outra vez direito à ondulação donde veio. Precisa de voltar ainda atrás, duas e três vezes, para apalpar o Mar todo naquele sítio, o pior é que a luz do dia está mesmo a morrer, e agente morre aqui mesmo, coisa desgraçada!, senti-lo bem, palmo a palmo, não deixando fugir um único sinal, de maneira a descobrir a traição das ondas que o não largam.
- Eia, que grande vagalhão! - grita o Tó.
- Deixa-o ir. E que vá pró Inferno!
As ondas parecem a sombra do bote, sombras a toda a volta, e a pior é a que já tenho nos olhos, e a gente pequenos, tão pequenos, aqui esquecidos de tudo, e aqui lembrados de tudo, à espera de um milagre, embora o Tó diga que é na mão da gente que está a vida;
uma vontade danada de fugir e voltar sempre, vir aqui ao mesmo sítio, e a morte ali mesmo, à espera; apalpar tudo bem, porque o milagre só se dará se eu souber meter o bote neste inferno e enfiar pelo meio duma fenda que se pode abrir agora ou mais daqui a bocadinho.
As raivas babosas e desencontradas golpeiam-lhe os flancos da lancha como machados agudos.
- Meu rico botezinho!
E nem uma trégua, um momento de calmaria para a gente ganhar alma, não vejo o Manel, o Zé está mesmo entre o Corrucho e o Barrasquinho, o Álvaro agarrou-se ao bico da proa, e vai a levar porrada que nem eu sei como se aguenta.
- Mete agora o motor a meia força!
- Já está!
- Eu não oiço!
- Mas está! Importe-se lá com o leme. A gente já podia estar em terra.
- Vais com medo?
- Vou, sim, e depois? Vossemecê não tem? Olha! pois não que não tem!...
Sim, é um medo danado, que ninguém o sonhe, o Tó é capaz de perceber tudo, se calhar já podíamos estar em terra, onde tenho agora os olhos, que já ia atravessando o bote? Mas saber que estou vivo, ainda vivo, e os outros também, é uma bazófia maior do que o Mar. Não sei porquê, apetecia-me agora beber uma litrada de vinho, bebia-o duma vez, e outra logo a seguir, e então acabava-se tudo; sei lá se não é melhor passar o leme ao Tó, que esse já eu sei que tem sorte para uma companha inteira.

- Ah Tó! Ajuda-me aqui!

O filho não o ouviu. Pôs-se a limpar as mãos ao desperdício e o velho já sabe o que esse movimento quer dizer quando o Mar aperta.
- Ah meu pai! Experimente agora! Se fosse a si, experimentava agora...
-Lá vou..
- A noite caiu já em cima da gente.
- Ajuda-me aqui!
- Hã?...
- Hã, gaita!
Este gajo quer que eu diga em voz alta para me ajudar, e isso custa-me, não quero que mais minguem oiça que me faltam os olhos. É sinal de que estou velho e que não estou velho só para o Mar. E isso é pior ainda. Pior, não, mas essa é uma coisa danada. Não, não posso ficar mais à espera, já perdi muito tempo, trago aqui sete vidas e o bote, que é o pão de todos e ainda o há-de ser doutros; um bote que é uma espada, e logo uma rabiosa assim no primeiro dia de Mar, nunca nenhum barco novo teve um noivado destes, é mesmo azar, é mesmo um filho da mãe dum azar que anda agora comigo. Lá à proa eles vão cheios de medo: se pudesse, embebedava-os...

- Ah Tô! Tô! Vê se ouves bem! Dá a essa gente o resto da garrafa de aguardente! - E acrescenta em voz baixa: «Morram todos bêbedos, ao menos. Não custa tanto...»

Apetece-lhe chorar mais, chorar nunca ninguém o viu, mas agora precisa de abrir a água dos olhos, senão as veias rebentam-lhe.

Hei-de também chorar em terra, sozinho, se a gente chegar a terra, hei-de esfregar os olhos na areia para que fique cego duma vez.

- Ah Mar!... - diz aquilo e levanta-se de mão erguida.

Uma onda enrola-o, não sabe bem se os pés estão firmes, ou se já baldeou, mas a mão continua agarrada ao leme, agora já vê a proa, estarão todos?, e depois põe-se a contar os camaradas.

- Eles não querem beber, pai!

- Então, bebe tu.

- Não preciso.

- Dá cá a garrafa.

- Pra si, não. Vossemecê vai ao leme...

O Tó joga a garrafa às ondas e aproxima-se do velho, oferecendo-lhe a cara para que lhe bata. Zé Diabo Negro sorri num esgar, quer fazer-lhe uma carícia, mas atira-lhe uma bofetada, que é o carinho maior de que se sente capaz.

- Vem para aqui e ajuda-me. Já não tenho olhos...

- Nem eu, pai. Mas os dois juntos somos capazes.

- Já perdemos muito tempo. E lixámos o Joaquim. Fui eu que o lixei.

Acena a cabeça - sabe lá o que mais deve dizer.

Esperar mais um bocadinho, só mais um bocadinho, a morte está à espera ali mesmo, ah coisa danada!, e não me deixar vergar por outra vaga como aquela que me quis levar, por muita gana que traga, porque ao cabo de tudo sempre se acaba por encontrar uma fenda na muralha, basta agarrar bem o medo e atirá-lo com força para os pés, já que não se pode jogá-lo para o Mar.

- Isto é um inferno, não é o Mar! - cicia para o Tó.

O Gaivota anda também a seguir-me a rota, da borda talvez saiba mais do que eu, sempre foi pescador da xávega muito tempo, e ninguém conhece melhor a borda do que os arrais dessa arte. Ele está a emproar a terra, talvez vá agora, sim, é agora, Deus me ajude! A Senhora da Nazaré me ajude, vamos lá agora que já não é sem tempo.

- Vamos lá com Deus! - clama o velho com a voz quebrada. Que a virgem da Nazaré ajude e veja a gente todos!

A companha tem agora os olhos postos no areal. Adivinham o rumorejar da gente, o que estão a fazer para os salvar; aqueles instantes parecem não ter fim.

O Tó segura bem o leme, o velho percebe-o. Ainda deixa a sua mão, quase mal lhe toca, mas afrouxa-a; sentiu uma tontura O que será isto?

- Vamos prá vida ou prá morte, rapazes! Agarrem-se bem!... - brama o filho.

Ele ouve-o, quer ainda reagir, mas depois quebra-se.

- Queres que vá tomar conta do motor?

- Não, fique aqui comigo. O pai é que é o arrais. Diga lá mais qualquer coisa aos homens.

Zé Diabo Negro empertiga-se no banco e grita:

- Vamos agora pra terra! E vamos chegar, rapazes! Eu cegue se não vamos chegar em bem!

A proa endireita, começando a romper o capelo das ondas que se agarram aos flancos do bote.

( Uma Fenda na Muralha - de Alves Redol )

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