domingo, 15 de junho de 2008

José

AMIGOS. a partir de segunda-feira, dia 16, estarei ausente de Lisboa. Até ao fim do mês estarei em S. Tomé e Príncipe. Prometo trazer algumas fotos e "postar" , mesmo ausente, algum apontamento, ou poeminha, sobre aquele paraíso, caso me seja possível. Entretanto, deixo-vos com o José... ...de Drummond de Andrade... E agora, José? A festa acabou, A luz apagou, O povo sumiu, A noite esfriou, E agora, José?, E agora você?, Você que é sem nome, Que zomba dos outros, Você que faz versos, Que ama, protesta? E agora, José? Está sem mulher, Está sem discurso, Está sem carinho, Já não pode beber,

Já não pode fumar,

Cuspir já não pode,

A noite esfriou,

O dia não veio,

O bonde não veio,

O riso não veio,

Não veio a utopia,

E tudo acabou,

E tudo fugiu,

E tudo mofou,

E agora, José?

E agora, José?

Sua doce palavra,

Seu instante de febre,

Sua gula e jejum,

Sua biblioteca,

Sua lavra de ouro,

Seu terno de vidro,

Sua incoerência,

Seu ódio - e agora?

Com a chave na mão

Quer abrir a porta,

Não existe porta;

Quer morrer no mar,

Mas o mar secou;

Quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

Se você gritasse,

Se você gemesse,

Se você tocasse,

A valsa vienense,

Se você dormisse,

Se você cansasse,

Se você morresse...

Mas você não morre,

Você é duro, José!

Sozinho no escuro

Qual bicho-do-mato,

Sem teogonia,

Sem parede nua,

Para se encostar,

Sem cavalo preto

Que fuja a galope,

Você marcha, José!

José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

( Antologia Poética )

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