terça-feira, 30 de setembro de 2008

Berlengas (1)

- Por Raul Brandão
( em " Os Pescadores )
Passo três dias deitado numa pedra a namorar o recorte delicado das Berlengas. Atraem-me como em pequeno as ilhas misteriosas e desertas dos meus sonhos. Por fim meto-me num barco, e depois de três horas a remos, vejo-as mudar de cor e encher o horizonte. Distingo as minúcias na Berlenga grande, em Santa Catarina e Farilhões, e ponho o pé em terra com assombro. É um monte espesso com um castelo na base, assente numa pedra destacada e ligada à terra por uma ponte em aqueduto.
…Mas o monte solitário sai todo vermelho da água vede e grossa como um vidro e o castelo é o último refúgio dum pirata que surpreende mulheres na costa para as violar na ilha…Este granito está coberto de líquenes ferrugentos , que ao por do sol escorrem sangue, e à cor da rocha compacta contrapõe-se a da fortaleza de tijolo, carcomida e doirada, que data de 1676, e que se revê na água translúcida. Nunca vi água assim: é uma lente esverdeada que desvenda fundos mágicos. Subo um carreirinho a pique. Sento-me no planalto e olho. Olho, não é bem – trespasso-me. Trespasso-me de cor, de luz, de amplidão. O que aqui existe e domina é o azul do céu e o azul do mar. Bebo-o. Vagueio uns dias ao vento falando só. Viver aqui é viver em pleno céu. É ser nuvem e mar, é ser azul. A vida sobre esta base de granito não tem cor. A grande rocha está suspensa no vácuo – porque o mar é pó verde muito ténue e a costa pó roxo a diluir-se. Do alto vê-se o cabo Carvoeiro e, mais para o sul, a praia da Consolação, a Ericeira e a praia de João Salgado, e, para o norte, o Baleal, a Foz do Arelho, S. Martinho do Porto e, até onde a vista chega, a ocidental praia lusitana. Mas isto num sonho fundido em azul, para lá do mar com veios espelhados, desde o pedestal desta rocha imensa, onde vegeta o perrexil e o cardo, até ao infinito,. Do outro lado, para além dos recortes afiados dos Farilhões, das Estelas e de outras pedras escumantes, fica o mar eterno.
São extraordinárias as manhãs, com uma ponta de névoa em que o mar se dissolve, e os fins de tarde, oiro e verde, a que se sobrepõe o violeta com aquela voz magnética sempre a chamar-nos lá em baixo, já escuro, do fundo das águas – e o morro vermelho a emergir do oceano… Não me canso, extasiado. Vou por outro carreiro, pelas escadas de palmo abertas na pedra. Dou com as ruínas dum convento. Nos restos arruinados da capela copio diferentes datas: fr. Lobato, 1622; outra: 1606; um coração com duas letras enlaçadas L e R – 1615. Fico a cismar…No fundo, avisto uma praia solitária, um côncavo do tamanho da mão, onde nunca entrou o sol. Fria e pálida, entre grandes rochas negras e cenográficas que emergem do mar e se recortam no azul, transe-me como um sítio misterioso que o homem visse pela primeira vez. Olho-a com medo. Não me atrevo a devassá-la…É isto mesmo…As ilhas desertas são habitadas. Tenho a sensação estranha de um contacto gelado: desconfio que anda por aqui uma alma virginal e pura e ao mesmo tempo cruel…
Raul Brandão
( Em " Os Pescadores )
Agosto de 1919
- continua...
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