quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Poeta convidado da semana: Cesário Verde

( Estátua de Cesário Verde, situada na Praça da Ilha do Faial, junto do Largo da Estefânia, em Lisboa - foto do autor )
O sentimento dum ocidental
- Dedicado a Guerra Junqueiro Avé Marias
Nas nossas ruas, ao anoitecer, / há tal soturnidade, há tal melancolia, / que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia / despertam-me um desejo absurdo de sofrer. / ----- O céu parece baixo e de neblina, / o gás extravasado enjoa-me, perturba; / e os edifícios, com as chaminés, e a turba, / toldam-se duma cor monótona e londrina. / ----- Batem os carros de aluguer, ao fundo, / levando à via-férrea os que se vão. Felizes! / Ocorrem-me em revista, exposições, países: / Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo! / ----- Semelham-se a gaiolas, com viveiros, / as edificações somente emadeiradas; / como morcegos, ao cair das badaladas, / saltam de viga em viga os mestres carpinteiros. / ----- Voltam os calafates, aos magotes, / de jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos; / embrenho-me a cismar por boqueirões, por becos, / ou erro pelos cais a que se atracam botes./ -----

E evoco, então, as crónicas navais:

mouros, baixeis, heróis, tudo ressuscitado!

Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!

Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

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E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

De um couraçado inglês vogam os escaleres;

e em terra num tinir de louças e talheres

flamejam ao jantar alguns hotéis da moda.

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Num trem de praça arengam dois dentistas;

um trôpego arlequim braceja numas andas;

os querubins do lar flutuam nas varandas;

às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!.

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Vazam-se os arsenais e as oficinas;

reluz, viscoso, o rio; apressam-se as obreiras;

e num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,

correndo com firmeza, assomam as varinas.

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Vêm sacudindo as ancas opulentas!

Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

e algumas, à cabeça, embalam nas canastras

os filhos que depois naufragam nas tormentas.

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Descalças! Nas descargas de carvão,

desde manhã à noite, a bordo das fragatas;

e apinham-se num bairro aonde miam gatas,

e o peixe podre gera os focos de infecção!

(Cesário Verde: o Livro de Cesário Verde)

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Depoimento ( poema ) de Alberto Caeiro sobre Cesário Verde: Ao entardecer, debruçado pela janela,

e sabendo de soslaio que há campos em frente,

leio até me arderem os olhos

o livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês

que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,

e o modo como reparava nas ruas,

e a maneira como dava pelas cousas,

é o de quem olha para árvores,

e de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando

e anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

que ele nunca disse bem que tinha,

mas andava na cidade como quem anda no campo

e triste como esmagar flores em livros

e pôr plantas em jarros...

( Alberto Caeiro : " O Guardador de Rebanhos - poema III )

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