quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Convidado da semana : José Agostinho Baptista

Vem aos meus sonhos
Vem aos meus sonhos,
faz em mim a tua casa.
Planta, em frente, a cerejeira dos
pássaros brancos,
deixa que eles pousem nos ramos e cantem
eternamente,
deixa que nas suas asas de luz eu leia o meu
nome,
antes de os relâmpagos acenderem os prados.
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Vem aos meus sonhos,
vê os labirintos por onde me perco,
vê os meus países do mar,
vê, em cada barco que parte do meu coração,
as viagens que não fiz,
os amores que não tive,
a luz cruel da minha solidão.
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Vem aos meus sonhos,
traz um fio de água para as dálias do meu
quarto vazio,
não queiras que as suas pétalas sequem muito
depressa,
caindo pelos delicados muros de cristal,
apagando a cor que dava vida aos aposentos
do solitário.
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Deixa que ele evoque a secreta doçura das
colmeias,
e vem,
vem aos meus sonhos,
ilumina o meu domingo de cinzas, o meu
domingo de ramos, o meu calvário,
diz que estás aqui,
nesta página que escrevo para nunca te esquecer.
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A noite
A noite
rodeia-nos com os seus braços longos,
com as suas ferramentas negras,
e aperta-nos,
como se fosse a grande mãe antiga,
inclinada sobre os berços à deriva.
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A noite
pinta os lábios de vermelho e as unhas,
abre os decotes de algodão e seda,
calça sapatos muito altos,
quando dança sobre as nossas vidas.
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A noite
acende as suas luzes, as suas violentas
luzes amarelas,
e então vemos as estrelas, os recifes,as
ruas sem árvores,
todas as portas fechadas.
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A noite
deita-se mais tarde, ao lado dos que não têm
nada,
nem amantes, nem amadas,
perseguidos por uma secreta ansiedade,
por uma dúvida:
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quem é esta meretriz,
de quem é este corpo de mistério com os seus
anéis que brilham?
E a noite beija-os com o veneno doce da sua
boca,
morde com os dentes brancos a carne que os
conduziu para o sono.
A noite não responde.
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Há quem a sinta mais cedo,
quem a procure quando o sol começa a cair no
horizonte,
porque quer os seus seios altos,
o seu regaço de rosas ternas onde esquecer a
dor,
as atribuladas noções do tempo,
onde ler, nos espelhos turvos da
madrugada,
o destino dos órfãos e dos malditos.
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A noite
atira os seus despojos aos litorais do mundo,
remos, crucifixos,
cadáveres azuis de barcos naufragados,
de suicidas ternos,
de paixões assassinadas por Setembro.
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A noite
canta nos íngremes becos da cidade,
e a sua voz rouca bate nas nossas fontes,
nos búzios que trazemos por dentro.
( José Agostinho Baptista - no livro " Esta voz é quase o vento " )
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