terça-feira, 12 de agosto de 2008

China e os jogos olímpicos

Confesso que não me surpreenderam a grandiosidade e a beleza do espectáculo da abertura dos jogos olímpicos de Pequim. Conheço da China o suficiente para saber que, se em condições normais, ela não costuma deixar os créditos por mãos alheias; sente-se humilhada só em pensar que vai "perder a face"; põe ao serviço de uma grande capacidade de organização a inesgotável e barata quantidade de braços de trabalho do seu povo, que vê a obediência e a hierarquia como Confúcio deixou ensinado desde há muitos séculos; muito menos iria perder esta oportunidade, ainda por cima na data quase sagrada, de 8/8/08, de mostrar-se, e ao seu poder, no centro do palco, a toda a comunidade internacional, mormente aos outros dragões do pacífico, para esclarecer aqueles que ainda não sabiam - e há muitos que ainda não sabem - que a China de hoje não é mais a China da tigela de arroz de Mao, mas sim a China de Deng Xiaoping, o homem que abriu o país ao capital estrangeiro, que liberalizou o sistema, que criou no mundo esta coisa original, chamada " um país, dois sistemas", isto é, um país comunista, que se diz comunista, mas que também tem o outro sistema , o capitalista, o que existe nas chamadas " Regiões Económicas Especiais"... Daí, a designação!....É assim que funciona a China desde o início da década de 80. Capitalismo de Estado. Nunca vi, no entanto, capitalismo mais ostensivo do que o de Hongkong, ou de Macau, por exemplo. E tenho a certeza que é aquele que vigora na nova Changai ( zona de Pudong ).
A China não perderá assim esta oportunidade para lembrar que é uma potência. Que não fica a dever nada às restantes.
Claro que a China não é só isso. É um país conhecido pelo desrespeito constante dos direitos humanos. Que devem ser denunciados. Cada vez mais. Não o sendo pelos Chefes de Estado que visitam a China e se calam por questões de protocolo ou de realismo político ( e aí a esmagadora maioria, para não dizer a quase totalidade deles, democrática e respeitosamente , nada dizem ), a verdade é que não faltam outros espaços, e meios, para que se abram portas e mais consciências e um dia naquele país - e em muitos outros - também o sistema do respeito pelos direitos humanos se abrirá e a liberdade passará também a ganhar medalhas. Levará o tempo que a gente não sabe, mas esse tempo chegará.
Tenho para mim que não serão estes jogos olímpicos que farão de Pequim o que os da Coreia fizeram por aquele país. São países diferentes. Com culturas diferentes. A cultura chinesa é muito forte nestas coisas em que o povo põe a grandeza da Pátria sobre todos os outros problemas. Será a abertura, ela própria, que está acontecendo há duas décadas que há-de abrir as portas das consciências individuais e da sociedade. A sociedade da Informação , a abertura do sistema ao capitalismo, tem feito muito mais pela democratização do sistema da China do que outras acções a despeito das suas boas intenções. Claro que ambas as coisas serão indispensáveis.
Quanto às ausências do nosso primeiro ministro ou do nosso presidente nas cerimónias, todo o país foi informado: tratou-se de uma questão de agendas. Sobrecarregadas.
Quanto à RTP 1, nosso canal público, estar a dar a fotonovela àquela hora, são opções!
Valeu a RTP 2. Que prefiro, aliás.
Eduardo Aleixo
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