quinta-feira, 28 de agosto de 2008

poeta convidado da semana - Luíza Neto Jorge

( Foto do Google )
Difícil poema de amor
Separo-me de ti nos solstícios de Verão, diante da mesa
do juiz supremo dos amantes. Para que os juízes me possam
julgar, conhecerão primeiro o amor desonesto infinito feito
de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras onde as ruas
são os pontos únicos do furor erótico e onde todos os pontos
únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas que se
percorrem como um fio de prumo sem oscilação.
Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes
deste número-tempo deste número-espaço uma boca feita de
lábios alheios beijou.
Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.
Porque este contágio de precipícios foste tu que mo
comunicaste maléfico como um pássaro sem bico.
Num silêncio breve vestiu-se a cidade. Muito bom-dia
querido moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande
paz mundial quando abrindo os olhos me deste de comer
cronometricamente às mil e tantas horas da manhã de hoje.
Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade
acordas-me só de pensares nela. As casas e os bichos
apoiam-se em ti. Não fujas não te mexas: vou fixar-te para
sempre nessa posição.
Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhes o
fundo. Tens os olhos vasados. Qual de nós os dois " quero-te " gritou?
Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta
que fazes tu? Comes crianças jogas ases sentado és uma
estátua de pé a cauda de um cometa.
Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda?
Entregas-te a cálculos. Amas-me demais.
Confesso: não sei se sou amada por ti.
Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos
mais vivos. Então virás
vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado.
Desiludiste-me.
E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o
riso, onde o leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de
teus braços de meus cabelos benignos que faremos?
Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por
vezes. Conheces-me. Não me tens amor.
Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos
para me afundar.
Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te
veio a cidade e os minúsculos objectos que já amaste ou que
irás amar um dia espero.
Ah a cratera o abismo eléctrico!
Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso que
este imaculado com mais visco de amor cópula mortal.
Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a
falar. Coisas de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei
sem ti os passeios rectos esvaziarei os gordos manequins
falantes. A razão é uma chapa de ferro ao rubro: se acredito
na tua morte começo o suicídio.
Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os
pássaros coalharam enquanto te espero. O leite enquanto te
espero coalhou. Haverá outro verbo?
Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso
qualquer existo eu. Existirão tais palavras?
É a altura de escrever sobre a pedra. A espera tem unhas
de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de
frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a
cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a
ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em
volta de mim em volta de mim de ti.
Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento.
Ou antes: separei-me de ti no solstício de um verão
ultrapassado. As mulheres viajavam pela cidade
completamente nuas de corpo e espírito. Os homens
mordiam-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim
nos separámos.
Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro
porque ambos ao mesmo tempo será impossível enquanto não
houver relógios que meçam este tempo e as horas fielmente
se adiantarem e atrasarem.
Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse? Falava
por paixão por tibieza por desgosto por claridade por frio por
cansaço
nunca por pretender dizer o que quer que fosse.
Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto
os ombros é porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma
pedra escura que carrego sobre o corpo a horas e desoras
ostentando-a como objecto público sagrado purulento. O
odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo
quando amamos.O nosso sangue em pó tornado entornado.
O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por
gestos lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras
íntimas medos reclusos beijos nos dentes.
A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados
de manhã e de tarde ou simplesmente de noite despertos.
Ambos meu amigo estamos sentados neste momento
perfeitamente incautos já. Contemplamos um país e sentamo-
-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e
morremos.
Inventei a nossa morte em toda a possível extensão das
palavras. Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo
nu ouvindo-me adormecias devagar.
Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito
passeei de noite pela casa. Um fantasma forçou uma portas
atrás de mim. Gemendo como um animal estrangulado
acordei-te.
Enterro o meu temor como um alfange na terra. Porque
é preciso ter medo bastante para correr bastante toda a casa
celebrar bastantes missas negras atravessar bastante todas as
ruas com demónios privados nas esquinas.
Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da
ideia que me impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.
Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de
visita o meu nome profissão morada telefone.
Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.
Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!.
( Luíza Neto Jorge )
Lisboa, 1939 - 1989
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