terça-feira, 12 de agosto de 2008

Intervalo para apanhar amoras e fazer doce - para a Rita ( S. Tomé )

Nos fins de semana de Agosto, olhando para o mar tristonho, com as praias poluídas de banhistas, de toalhas, de sombrinhas, de corta-ventos, de colchões, de bóias, de bolas sem espaço para rolarem, de brinquedos , de corredores estreitíssimos por onde se passa pé- ante -pé, com receio de os pés levantarem areia que o vento levante para os olhos dos banhistas, ainda por cima sem sol, a aumentar a angústia das ondas com saudades das praias do Inverno, que é quando o mar fala com os amantes verdadeiros, com os pescadores, com os barcos, com as redes, com a liberdade do vento, com a solidão livre e cheia de quem ama a canção dos búzios , o segredo dos braços abertos e silenciosos das estrelas do mar nas poças transparentes da vazante onde o céu luminoso se espelha, as estrelas do mar, quietas, sábias, meigas,cálidas, carentes das carícias dos poucos que sabem das suas casas, onde vivem ao lado dos ouriços, dos mexilhões de cascas luzidias, das algas de cabelos castanhos, macios, dizia eu que nem sol em Agosto, mas mesmo com sol em Agosto o mar chora de angústia, está preso, como eu, que não posso ficar aqui no meio desta multidão, de gritinhos, de guinchos, de anúncios, de ruídos de avionetas, mil vezes a ventania, o grasnar das gaivotas nos areais desertos, sou um místico do mar, adoro o mar, não o posso ver junto de quem não sabe o que ele é, nos momentos sérios, onde se bebem nas conchas salgadas os beijos da intimidade, nas noites de silêncio com as estrelas brincando no regaço fresco das ondas...
...É então que me lembro do poema de Manuel da Fonseca em que um
vagabundo levava sempre com ele o sol nas algibeiras!....
Palavra: se eu pudesse... punha também o mar nas algibeiras das calças e levava-o comigo durante o mês rançoso de Agosto!
Mas infelizmente não posso: o mar não se deixa assim prender ... E foi então que me lembrei de ir apanhar amoras.
Para quando a minha filha vier de S. Tomé, ter ao menos um boião de doce para comer ao pequeno-almoço.
Como podem ver pelas imagens, falo verdade: Eduardo Aleixo
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