quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Poeta convidado da semana: António Ramos Rosa

Campo e corpo

Não houve antes nem haverá depois/ Quando inicia, se sopra a sombra, é uma/ absoluta rosa que principia sempre. / À mesa de trabalho, a página é vazia./ A luz banha a brancura e um campo emerge ténue. / O sangue tumultua, respira o mar suave./ Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue? / Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem/ na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una./ Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo. / O campo que se alarga e que respira é corpo./ O corpo que ondula e se prolonga é campo. / O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo./ Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra. / Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol./ Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica / sem dentro e fora. Uma cadência solta / percorre uma área una.O sangue está no campo. / As árvores banham-se na limpidez do corpo./ Os animais saltam lúcidos e delicados/ entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos / entre pedras.Nudez de corpo e campo. / A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra. / Campo e corpo uno.A mão pousa no monte./ Respiro e danço com todo o corpo e campo. / Lanço-me com todo o corpo em pleno campo/ e danço tranquilamente a absoluta rosa única / que formo pétala a pétala, rodando no seu centro./ O campo que desdobro e rodopio é um corpo / que do meu corpo nasce, que do meu campo solto. / António Ramos Rosa ( in " A construção do corpo ")

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