quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Romance

( Foto do Google )
Ora pois: foi tal qual como vos digo:
minha Mãe, certo dia, pôs a questão assim:
- ou Ela, ou eu!
E ficou resolvido que no dia doze
minha mãe parisse,
e pariu!
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Pariu e ninguém se opôs! Ninguém!
Como se fosse um feito glorioso
parir assim alguém, tão nu, tão desgraçado!
Por mim,
ainda disse que não!
Mas o seu Anjo da Guarda
era forte e tenebroso...
E aquele frágil cordão
deixou de ser o meu Pão,
o meu Vinho
e a paz eterna do meu coração
mesquinho!...
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Deixou de ser o silêncio
delicado e agradecido
dos meus instintos menores...
Deixou de ser o Norte daquele lago
onde boiava o meu corpo
sem alegria e sem dores...
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Deixou ser aquela verdadeira
e sagrada ignorância do meu nome,
que Satanaz me disse, quando disse:
- Respira e come,
respira e come,
Animal!
( A voz de Satanás já nesse tempo
era humana e natural!... )
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Deixou de ser um mundo e foi um outro!
Foi a inocência perdida
e a minha voz acordada...
Foi a fome, a peste e aguerra!
Foi a terra
sem mais nada!
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Depois,
sem dó nem piedade a Vida começou...
Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo,
e, ao ver que eu era um homem,
córou...
Miguel Torga
( O outro livro de Job )
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