terça-feira, 27 de maio de 2008

Lembrando Mário Viegas

Contigo a poesia passou a ser " dita". Antes de ti, era " declamada ", por João Vilaret, e ao seu estilo. A tua intenção foi aproximar a poesia das pessoas, libertando-a da pose e da liturgia. Foi dizer que a poesia era coisa simples, como a vida, feita e dita simplesmente , com palavras simples, as mesmas que as pessoas usavam no seu dia-a-dia. O teu propósito foi afastar a poesia do espírito dos salões, onde vivia afastada, num cenário de " belle- époque", de plateia passiva e às vezes palaciana, pretensamente elitista, onde se pagava para ver e ouvir uma coisa que estava " no outro lado", e que era do mundo "estranho" dos poetas... Lembro-te, amigo, não só como divulgador de poesia, mas também como actor de enorme talento. A tua mímica era portentosa. Os teus olhos eram dois faróis enormes. As tuas mãos e o teu corpo falavam com uma expressividade clara e poderosa. A tua voz era aquilo que querias que ela fosse, mas sempre limpa, forte e bem colocada: umas vezes irónica, outras vezes doce, outras vezes de escárnio, outras, patética. Eras autêntico, no palco da vida.Isto é, no palco da vida agias naturalmente como actor. Respiravas nele como se fosses o próprio ar que respiravas. Dou comigo a lembrar-me de ti ...naquele mês de Março de 1974... Estávamos no Quartel . De prevenção rigorosa. Tinha " soado " que um " golpe " estava em preparação! Mas que era proveniente das Caldas da Rainha!. O capitão do quartel nada sabia. Ou nada nos queria dizer. Estávamos preocupados. Tu. O Vítor Ramalho. O Eduardo Graça. O Valter Guerreiro. Perguntávamos: que vamos dizer aos soldados se tivermos de sair e juntarmo-nos aos militares que vêm das Caldas sem sabermos se são do MFA ou das forças contra-revolucionárias?. Tínhamos de tonar uma decisão. Não estávamos dispostos a alinhar com forças que não fossem as do Movimento das Forças Armadas. Foram momentos difíceis. Acabámos por saber que o golpe tinha fracassado, através das notícias da BBC... Naquela noite, já cansados de tantos dias de isolamento, em prevenção rigorosa, o teu talento, a tua criatividade, foram um escape e um bálsamo. Saltaste para cima da mesa redonda do bar. De boina pendente sobre a testa, puseste-te a dançar languidamente, girando o corpo, os braços abertos, a língua de fora, os olhos esbugalhados... Eras um boneco desarticulado. .. Até que o capitão, o comandante, ... surgiu, imponente, a cabeça grande, o pescoço grosso como um tronco de carvalho, os olhos inexpressivos, redondos, em frente de nós todos, que aplaudíamos a tua belíssima representação. Olhou, perplexo, para ti e para nós. Para nós e para ti. Estava pálido. A boca seca. Que iria ele dizer? Ou fazer? Mas tu não lhe deste tempo para ripostar. Puseste-te, num salto rápido, de pé, sobre a mesa , na posição de sentido e anunciaste, voz solene, grave e contida: - Aí vem ela, a Revolução, meu capitão... Noite louca!... Quando ele, o capitão, não se lembrou de qualquer resposta, que estivesse prevista para uma situação destas, no RDM - Regulamento e Disciplina Militar - saiu bruscamente do bar, como se tivesse visto um fantasma, sentimos que mais do que espectadores, estávamos a ser figurantes de uma peça de teatro verdadeira, daquelas que marcam a História de um país, de um povo e de uma geração, a nossa ... Mário Viegas, como foi possível teres chegado a oficial do exército e nunca teres aprendido as coisas elementares para conduzires um pelotão de soldados, tu, que eras responsável por 40 homens? Como era possível?! Claro que foi possível. Com a nossa ajuda - diga-se em abono da verdade - , mas também com o teu talento, que teve a sorte de encontrar o " teatro de operações " - usando a linguagem militar - num estado de profunda e favorável decadência... Eduardo Aleixo
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